
Os animais estão presentes em boa parte do planeta Terra. As florestas e os cerrados estão cheios deles. Os rios e o oceano, também. Até nas cidades é possível vê-los: de serelepes pardais a rastejantes baratas. São poucos os ambientes onde nenhum animal pode sobreviver, por causa do calor ou do frio extremos, ou da falta de oxigênio, por exemplo. Alguns desses locais “quase” impossíveis de se viver são as fontes hidrotermais: jatos de água quente que brotam do fundo do oceano. Por muito tempo, cientistas pensaram que era improvável encontrar animais ali. Até que um dia… Encontraram!
Em 1977, pesquisadores desceram até o fundo do oceano Pacífico a bordo de um pequeno submarino. A missão: procurar fontes hidrotermais. As fontes foram encontradas e, vivendo nelas, havia vermes gigantes de cor vermelho-vivo!

Foi assim que o mundo conheceu o verme-barbado-gigante, nomeado cientificamente em 1981 como Riftia pachyptila (pronuncia-se ‘ríficia paquíptila’). Parentes das minhocas, esses vermes vivem presos ao assoalho oceânico (o fundo do mar), ao redor de fontes hidrotermais.
Nesses locais, a água pode estar carregada de substâncias tóxicas, como o sulfeto de hidrogênio. Ainda assim, os vermes-barbados-gigantes prosperam e crescem rapidamente. Em menos de dois anos, podem atingir mais de um metro de comprimento.
À primeira vista, parecem apenas tubos brancos grudados à rocha, com uma espécie de “pena” vermelha saindo deles. Essa estrutura é um órgão respiratório chamado pluma branquial, que capta oxigênio e sulfeto de hidrogênio da água. Mas o mais surpreendente é que os vermes-barbados-gigantes não têm boca, intestino nem ânus!
Mas, sem sistema digestório, como esse animal se alimenta? No interior do verme, existe um órgão especial chamado trofossomo, onde vivem bilhões de bactérias. Elas usam o sulfeto, liberado pelas fontes hidrotermais e capturado pelas brânquias do verme, como fonte de energia. Assim, as bactérias produzem alimento para o verme por meio de um processo chamado quimiossíntese. E o verme, em contrapartida, abriga e alimenta essas bactérias. É uma parceria tão íntima que um não sobrevive sem o outro: uma simbiose.
Antes de se tornarem gigantes e imóveis, esses vermes começam a vida como larvas microscópicas que nadam livremente no oceano. Elas podem viajar por semanas, carregadas pelas correntes marinhas, até encontrarem uma fonte hidrotermal. Só então se fixam em rochas, são “infectadas” pelas bactérias simbiontes e se transformam em vermes que passarão o resto da vida presos ao fundo do mar.
A história dos vermes-barbados-gigantes é um lembrete de como a vida encontra caminhos inesperados. Mesmo no fundo escuro do oceano, longe da luz do Sol, ela pode existir.

Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Zoologia
Universidade Federal de Juiz de Fora
Sou biólogo e muito curioso. Desde criança tenho interesse em pesquisar os seres vivos, especialmente o mundo animal. Vamos fazer descobertas incríveis aqui!
Matéria publicada em 30.07.2026