
Vênus é o segundo planeta a partir do Sol e um dos nossos vizinhos planetários. Ele parece, à primeira vista, um planeta irmão da Terra: tem tamanho parecido, massa similar e fica relativamente perto de nós. Mas, quando os cientistas começaram a estudá-lo, descobriram um mundo muito diferente, quente demais e coberto por uma atmosfera que oferece um grande desafio para qualquer missão espacial: lá, a pressão atmosférica é extremamente alta (90 vezes maior do que a da Terra). É como estar a um quilômetro de profundidade no oceano, a uma temperatura suficiente para derreter chumbo! Essas características representam uma enorme dificuldade para qualquer sonda que tente alcançar sua superfície.
Como a superfície de Vênus fica escondida pela presença de nuvens espessas que cobrem todo o planeta, durante muito tempo os pesquisadores imaginaram que ele pudesse ser parecido com a Terra antiga e talvez tivesse oceanos, chuva e até vida. Para investigar e resolver esse mistério, diferentes países enviaram sondas para lá. As mais famosas foram as soviéticas, do programa Venera, entre as décadas de 1960 e 1980.
Essas missões não levavam astronautas. Eram sondas robóticas, como pequenos exploradores automáticos. Isso aconteceu porque Vênus é um lugar praticamente impossível para a presença de humanos com a tecnologia atual.
A atmosfera de Vênus é um dos problemas mais sérios para sua exploração. Ela é muito espessa, e é formada principalmente por gás carbônico. Além disso, as nuvens têm gotículas de ácido sulfúrico, uma substância muito corrosiva. Isso significa que uma nave precisa resistir a um calor extremo, pressão elevada e substâncias químicas agressivas, tudo ao mesmo tempo. Não é à toa que várias sondas falharam antes de chegar ao solo, e mesmo as que conseguiram pousar geralmente funcionaram por apenas alguns minutos.
Mesmo assim, diversas missões trouxeram descobertas incríveis. A Venera 7, lançada pela União Soviética em 1970, foi a primeira sonda a transmitir dados da superfície de outro planeta. Depois, vieram as Venera 9 e 10, em 1975, que enviaram as primeiras imagens da superfície venusiana. Pela primeira vez, os cientistas puderam observar como era o chão daquele mundo coberto por nuvens. Mais tarde, as Venera 13 e 14 mandaram imagens coloridas e análises do solo, em 1982, ampliando muito nosso conhecimento sobre esse vizinho misterioso.
Mas por que investigar Vênus, se dificilmente ele poderá ser colonizado ou explorado por humanos? Um dos motivos é que ele ajuda os cientistas a responder perguntas muito importantes. Se Vênus e a Terra eram parecidos no passado, o que fez um virar um planeta com oceanos e vida, e o outro se transformar em um mundo escaldante e pedregoso?
Ao estudar Vênus, entendemos a história e a evolução dos planetas, além de compreender o que pode acontecer quando um planeta sofre um efeito estufa muito intenso, que eleva sua temperatura a níveis extremos. Isso também é importante para pensarmos no clima da Terra, porque por aqui o aumento de gases de efeito estufa está intensificando o aquecimento global, embora a Terra esteja muito longe de enfrentar condições como as de Vênus.
Quem diria que o planeta mais parecido com a Terra por fora pudesse esconder um dos ambientes mais extremos do Sistema Solar? Você imaginava que nosso vizinho pudesse ser tão diferente da gente?

Eder Molina,
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
Universidade de São Paulo
Sou paulista, e já nem lembro quando nasci… Sempre fui curioso sobre o porquê das coisas, e desde criança tinha meu clubinho da ciência. Hoje sou professor de Geofísica e continuo xereta e buscando aprender muitas coisas, principalmente sobre a Terra e o Sistema Solar.
Matéria publicada em 30.07.2026