
Você está dentro de um quarto completamente escuro; não dá para enxergar nada lá dentro, a não ser uma luz bem fraquinha que parece entrar por uma fresta. Essa minúscula pista do ambiente externo é suficiente para atrair a atenção de qualquer um que estiver buscando sair do quarto, concorda?
Assim como nós fazemos em um ambiente escuro, muitos outros animais usam a luminosidade como um sinal importante para se orientar em suas atividades cotidianas. Mas curioso mesmo é que, para outros animais, a principal pista não vem da luz, mas da escuridão.
A tendência de certos animais de se deslocarem em direção a áreas escuras ou sombreadas recebe um nome esquisito: escototaxia. Esse comportamento geralmente ocorre em animais cuja visão não permite distinguir objetos com muita nitidez. Nessa situação, ir em direção à escuridão aumenta suas chances de sobrevivência.
Abelhas, formigas e percevejos, por exemplo, quando caem na água, precisam chegar até a margem rapidamente, antes que morram afogados ou sejam devorados por algum predador aquático. Experimentos com esses animais mostram que eles têm uma forte tendência a nadar em direção a manchas escuras. Mas por quê? Porque, para quem tem apenas uma visão embaçada da paisagem, borrões escuros podem significar locais seguros, como um tronco flutuante ou terra firme, superfícies que geralmente refletem menos a luz.
Outro estudo mostrou que a escototaxia é muito importante também para cigarras. Esses insetos passam anos sob o solo durante a fase larval. Na hora da metamorfose – processo de transformação para a forma adulta –, as ninfas, como são chamadas as formas juvenis, vão até a superfície e, em seguida, precisam subir rapidamente em uma árvore, da qual irão se alimentar de seiva. Cientistas conseguiram comprovar que a sombra das árvores é a principal pista utilizada pelas ninfas para saber em que direção caminhar sem se perder pelo caminho. Curiosamente, para esses animais, seguir a escuridão parece ser uma ideia iluminada!


Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza
Universidade Federal de São Carlos
Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.
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Matéria publicada em 16.06.2026