
Já percebeu que, em determinadas épocas do ano, algumas espécies de pássaros deixam de ser avistadas? Isso é ainda mais nítido em países com invernos mais rigorosos, quando boa parte das aves parece simplesmente desaparecer. Mas você já deve imaginar do que se trata o aparente sumiço dessas espécies, né?
Estamos falando da migração, um comportamento atualmente bem conhecido pela ciência, graças a muitas observações, experimentos e ao uso de tecnologias de rastreamento dos animais. Mas até que os cientistas acumulassem esse conhecimento, muitas dúvidas e ideias malucas foram levantadas para tentar explicar o sumiço temporário das aves migratórias.
Relatos de culturas indígenas e até da Bíblia, livro importante para a religião cristã, mencionam movimentos migratórios das aves há pelo menos três mil anos. Mas o filósofo grego Aristóteles achava que algumas espécies apenas mudavam radicalmente de aparência dependendo da época do ano, dando a impressão de que haviam sumido. Ele também achava que andorinhas hibernavam durante o inverno em frestas nas rochas, ocos de árvores e até sob a lama de rios e lagos, ideia que resistiu até o século 19.
Por volta de 1680, o físico inglês Charles Morton tinha uma teoria: quando a comida se torna escassa, algumas aves migram. Mas, por desconhecer relatos de aves europeias registradas em outros continentes, ele deduziu que elas passavam o inverno… na Lua!
Em 1822, uma cegonha-branca trouxe uma prova impressionante de que as aves viajam entre diferentes continentes. Encontrada na Alemanha, essa cegonha tinha uma lança de madeira atravessada no pescoço. As características do artefato indicavam que ele havia sido produzido na África central, sugerindo que a ave completou sua migração de milhares de quilômetros mesmo após ter sido atingida.
Como tudo na ciência, o conhecimento sobre as migrações foi avançando aos poucos e, apesar de já sabermos bastante, ainda há muito a descobrir. Aliás, como será que os filhotes de aves fazem para descobrir quando e para onde devem migrar? Já pensou nisso?


Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza
Universidade Federal de São Carlos
Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.
Matéria publicada em 10.09.2026