Mochila de astronauta

Existem regras sobre o que pode ser levado em uma missão espacial?

Mochila de astronauta
Ilustração Jaca

Um pequeno objeto deixado na Lua em 1971 – e que está lá até hoje! – foi motivo de muita confusão para a NASA. Antes de revelar do que se trata, convido você a fazer um exercício de imaginação. Acaba de chegar a notícia de que você está entre as pessoas selecionadas para uma incrível viagem à Lua. O embarque é amanhã. Além das roupas, dos equipamentos e dos experimentos científicos, você gostaria de levar algum objeto especial? Uma fotografia da família? Um brinquedo da infância? Um anel? Será que pode? Pode, mas existem regras bastante rigorosas, e com razão!

Em uma viagem espacial, cada grama conta. Mais peso significa mais combustível para o lançamento. Além disso, qualquer objeto solto dentro da cabine pode representar um risco para os astronautas e para os equipamentos da nave. Por isso, tudo o que segue para o espaço precisa antes ser cuidadosamente planejado, pesado, catalogado e aprovado.

Desde os primeiros programas espaciais tripulados, na década de 1960, a NASA permite que seus astronautas levem uma pequena coleção de objetos pessoais em uma pequena bolsa, pouco maior que um estojo escolar. Dentro dela só podem ir itens que não liberem partículas nem líquidos, e que não interfiram no funcionamento da espaçonave. Já imaginou o estrago que pequenas gotas de perfume flutuando pela cabine podem causar se entrarem nos equipamentos? Entre os objetos mais comuns levados estão fotografias da família, alianças e desenhos feitos pelos filhos. Mas, às vezes, um objeto deixa de ter um significado pessoal e acaba entrando para a história.

Foi exatamente isso que aconteceu em 1971, durante a missão Apollo 15, a quarta a pousar na Lua. Ao concluir as atividades na superfície lunar, o comandante David Scott colocou discretamente sobre o solo uma pequena escultura de alumínio. Sem rosto, sem bandeira, sem indicação de gênero ou nacionalidade, ela homenageava todos os exploradores espaciais. Ao seu lado, foi deixada uma placa com os nomes de 14 astronautas (termo usado nos países ocidentais, como os Estados Unidos) e cosmonautas (nome usado na Rússia) que haviam perdido a vida durante a exploração espacial.

A pequena escultura ficou conhecida como Fallen Astronaut (“Astronauta Caído”). Ela foi criada para ser um memorial permanente homenageando aqueles que dedicaram e até sacrificaram suas vidas para ampliar o conhecimento da humanidade. A homenagem emocionou muita gente, mas acabou gerando uma polêmica inesperada.

Mochila de astronauta
Foto NASA/Wikipédia

Algum tempo depois do retorno da missão, o autor da escultura, o artista belga Paul Van Hoeydonck, anunciou que pretendia produzir centenas de réplicas para venda. A notícia desagradou profundamente a NASA e os astronautas, que consideravam inadequado transformar um memorial em um produto comercial.

Depois das críticas, o projeto foi cancelado, e a pequena estátua permaneceu como um objeto único e permanente na superfície lunar. O episódio também mostrou que, além da segurança, seria importante estabelecer regras claras sobre quais objetos poderiam representar oficialmente as missões espaciais.

Hoje, astronautas que vivem na Estação Espacial Internacional também podem levar pequenos objetos pessoais, mas todos passam por um processo rigoroso de aprovação. Para quem passa meses vivendo a centenas de quilômetros da Terra, esses pequenos objetos ajudam a diminuir a saudade de casa. Isso mostra que a exploração espacial é construída não apenas por foguetes e computadores, mas principalmente por pessoas, e que alguns objetos carregam um peso que nenhuma balança consegue medir: o peso da memória, da gratidão e da história.

E você? Se pudesse levar apenas um pequeno objeto para o espaço, qual escolheria?


eder_molina

Eder Molina,
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
Universidade de São Paulo

Sou paulista, e já nem lembro quando nasci… Sempre fui curioso sobre o porquê das coisas, e desde criança tinha meu clubinho da ciência. Hoje sou professor de Geofísica e continuo xereta e buscando aprender muitas coisas, principalmente sobre a Terra e o Sistema Solar.

Matéria publicada em 10.09.2026

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