O fantástico mundo das palmeiras

Você saberia dizer o que o açaí, a água de coco, a vassoura de piaçava e o palmito têm em comum? Pois saiba que todos são produtos extraídos das palmeiras. Sim! Como aquelas que quase todo mundo desenha quando a professora pede para ilustrar uma ilha. As palmeiras pertencem a uma grande família de árvores, a Arecaceae, e existem há milhões de anos na Terra, muitos antes dos seres humanos aparecerem!

Palmeira Mauritia flexuosa ocorre no Cerrado e na Amazônia.
Foto Sarah Barbosa Reis

A grande família das palmeiras é formada por, aproximadamente, 2.500 espécies diferentes, espalhadas não apenas nas praias e ilhas, mas em florestas úmidas tropicais, como a Amazônia e a Mata Atlântica brasileiras. Elas estão presentes também em biomas mais secos, como o Cerrado. Das milhares de espécies de palmeiras distribuídas ao longo de toda região tropical e subtropical do  mundo, poucas são estudadas. Em apenas um hectare, ou seja, em 10 mil metros quadrados, de floresta amazônica, por exemplo, podem ser encontrados cerca de 29 espécies de palmeiras com mais de 7 mil indivíduos. É muita palmeira, minha gente!

Esperamos que isso não aconteça, mas… se um dia você se perder em uma floresta, seus conhecimentos sobre palmeiras poderão ser úteis para encontrar algum fruto e matar a fome. Olhando para a copa das árvores, a 30 metros de altura, será fácil encontrar uma espécie “descabelada”, com folhas enormes lembrando um formato de pena. Seus frutos são apreciados por nós, humanos, e por outros animais como macacos e pássaros. Duro mesmo
vai ser escalar o pé!

Antes do ser humano?

Milhões de anos. Sim, a história da família das palmeiras pode ter começado 90 milhões de anos atrás, quando surgiram seus os primeiros ancestrais. Portanto, elas estão na Terra há muito mais tempo do que os seres humanos.

As palmeiras surgiram em florestas tropicais úmidas distribuídas ao redor do mundo, como a floresta amazônica e a Mata Atlântica. Ao longo do tempo, algumas espécies conseguiram ocupar ecossistemas mais secos, como o Cerrado. Portanto, algumas espécies comuns e comercialmente importantes da floresta amazônica, como o babaçu (Attalea speciosa), apresentam “parentes bem próximos’’ (espécies do mesmo gênero) no Cerrado e em áreas de transição com a Caatinga, como é o caso da carnaúba ou catingueira (Copernicia prunifera).

Você deve estar se perguntando como diferentes espécies de palmeiras conseguem viver em lugares tão diferentes, como florestas úmidas e regiões desérticas. A resposta é: porque algumas espécies se adaptaram e resistiram a essas condições ambientais extremas, passando suas características aos seus descendentes. Ter vasos mais largos para transporte de água e nutrientes é exemplo de adaptação. As flores das dessas árvores em ambientes áridos também podem apresentar pétalas mais duras, evitando a perda excessiva de água e que se tornem alvo fácil de insetos predadores – outra adaptação! Temos também espécies adaptadas a locais alagados, cujos frutos apresentam camadas aeradas que permitem flutuar na água – assim, boiando, as sementes vão ocupar novos espaços, onde poderão brotar novas palmeiras. E ainda há o exemplo de espécies adaptadas a ambientes mais frios, como a butiá (Butia capitata), que ocorre no Sul do Brasil, uma região subtropical em que ocorrem frequentes geadas e baixas temperaturas.

Na Amazônia, muitas palmeiras cabem em uma única foto.
Foto Sarah Barbosa Reis

Palmeiras em quase tudo

Em regiões tropicais como o Brasil, as palmeiras estão muito presentes na cultura do povo. Um exemplo? As folhas!  Elas são usadas em rituais religiosos, para fazer teto de moradias, cestos, objetos decorativos e até para enriquecer ração de animais. Já os frutos são utilizados na fabricação de doces, bolos, biscoitos, sucos, vinhos e outros tipos de bebidas. Já as sementes são usadas na fabricação de joias e objetos decorativos.

Temos também os óleos extraídos da semente do babaçu, utilizados em cosméticos, remédios e alimentos. Algumas pesquisas indicam que o óleo do babaçu pode até ser usado como combustível para máquinas, incluindo carros! Outras pesquisas também estão investigando a utilização do óleo da macaúba (Acrocomia aculeata) como biocombustível. A amêndoa da carnaúba, depois de torrada, é usada até para fazer “café de carnaúba”, enquanto suas folhas são cobertas por uma espessa camada de cera que é usada na fabricação de batom, verniz, discos de vinil, sabonetes e até papel.

As folhas da palmeira Lepidocaryum tenue podem ser trançadas para fazer telhados.
Fotos Andrew J. Henderson, John Dransfield e William J. Baker
Dos frutos da palmeira Mauritia flexuosa se faz sorvete, doce e suco. Foto Sarah Barbosa Reis

Tesouro em penca

O fruto do buriti e do açaí, a amêndoa do babaçu e as folhas da piaçava estão entre os principais produtos originários de palmeiras. Em 2007, mais de 100 toneladas de açaí e de babaçu foram comercializadas no Brasil! Na região Norte do país, a tapioca recheada com tucumã (Astrocaryum aculeatum) e a pupunha (Bactris gasipaes) cozida na água e sal são comidas típicas muito saborosas. Assim como os sorvetes feitos com a polpa do buriti, fruto de uma palmeira típica do Cerrado brasileiro.

A essa altura, você já registrou e nunca mais vai esquecer que o açaí, o coco, a piaçava e o palmito são frutos das palmeiras. Mas pode ser que que queira saber mais sobre essa grande família de árvores. Por exemplo: como é possível utilizar os seus recursos de forma sustentável? Ou: como as palmeiras estão respondendo às mudanças climáticas?

Essas respostas, ainda não temos. Mas garantimos que, enquanto você lê este texto, diversos grupos de pesquisadores e demais amantes das palmeiras no mundo inteiro estão trabalhando para tentar responder a essas e outras questões.

Será que você gostaria de se juntar a essa família de admiradores de palmeiras e estudar mais sobre essas fantásticas árvores? Enquanto pensa, que tal um açaí suculento ou uma água de coco geladinha?

Minipalmeira

Nem sempre é preciso se arriscar nas alturas para apreciar os frutos das palmeiras. Sabia que existem espécies baixinhas, que dão frutos ao nível do solo? É verdade, é o caso de alguns coqueiros! Quando encontrar um desses, aproveite para beber a água e se deliciar com a polpa!

Cintia Gomes de Freitas
Universidade Federal do Pampa (RS)

Sarah Barbosa Reis
Recuperação Ambiental e Planejamento da Conservação de Ecossistemas
Instituto Estadual de Florestas (MG)

Cibele de Cássia Silva
Departamento de Biologia Vegetal
Universidade Estadual de Campinas (SP)

Matéria publicada em 01.07.2022

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