
De vez em quando, Luísa ouvia sua mãe falar:
– Isso faz mal! Tem química!
Mas Luísa não entendia. Não sabia o que era química. Um dia, o pai da menina trouxe para jantar a tia Lúcia, de Belo Horizonte. E Luísa ouviu o pai apresentar:
– Tia Lúcia é química.
Mas era uma tia tão simpática… Será que ela fazia mal? O jeito era perguntar.
– Lúcia, vem cá explicar pra Luísa o que é química. Ela está curiosa para saber se isso faz mal – disse o pai.
– Química, hoje em dia – disse tia Lúcia sentando na rede – é uma palavra muito mal-empregada. É como se fosse tudo o que é artificial, nocivo para as pessoas, bichos e plantas. Se um rio está poluído, tem química. Um alimento não faz bem, lá vem a química. A química passou a ser o contrário da natureza. Uma é perniciosa (ou nociva), a outra é saudável.
– Mamãe às vezes fala assim…
– Pois é, Luísa, mas a química não é nada disso. A química é a ciência que estuda as propriedades das substâncias e as leis que regem as suas transformações. Complicado, não é?
– Complicadíssimo. Fiquei na mesma.
– Vou tentar explicar: o mundo está composto de materiais diversos: água, ar, alimentos, terra, rochas, nosso corpo… Todos esses materiais estão formados por substâncias. Vamos ver o caso da água. Nas águas dos mares, dos rios, dos mananciais, além da água propriamente dita, existem outras substâncias: sais de cálcio, de sódio… O ar também é composto de várias substâncias: nitrogênio, oxigênio, gás carbônico. A carne que comemos contém proteínas, gorduras, hidratos de carbono, sais minerais, vitaminas… Todas essas coisas são substâncias. Entendeu?
– Os nomes são meio complicados, mas deu pra entender um pouco.
– O primeiro trabalho dos químicos, que são as pessoas que fazem química, é isolar as substâncias puras. De todas as águas, por exemplo, eles separam a água pura dos sais de cálcio, de sódio… Do ar, eles extraem o oxigênio, o nitrogênio, o gás carbônico. Depois de isolar essas substâncias, os químicos vão tratar de conhecer as suas propriedades: cor, cheiro, peso, se é líquido, se é gás, se é sólido… Finalmente, os químicos vão ver como se comportam quando são misturadas com outras substâncias. Quando a gente joga uma pitada de sal na água, por exemplo, o sal se dissolve…
– Ele desaparece?
– Não. Ele se mistura de tal jeito que a gente não o enxerga. Mas a água fica salgada. É só provar.
– Interessante essa tal química.
– Pois é. Às vezes, quando misturamos certas substâncias, elas reagem umas com as outras. Os químicos chamam isso de reações químicas. Quando acendemos o gás do fogão, produzimos uma reação química entre as substâncias que se encontram no gás e o oxigênio do ar. Provocamos uma combustão. Se a gente joga vinagre num pouco de bicarbonato de sódio, vamos ver se formar uma espuma. Isso também é uma reação química, e muitas dessas reações são aceleradas pelo calor.
A menina ficou um minuto pensativa. Outro dia o primo havia misturado um pozinho branco na água, que começou a borbulhar e ficou cheia de bolhas, que nem água mineral.

– Mas, tia Lúcia, a química, então, estuda tudo?
– Quase tudo. E como damos o nome de química tanto à ciência que estuda as substâncias e suas transformações quanto às próprias transformações, acaba tendo química em tudo: em seres vivos, mares, vulcões, sal, estrelas… E isso tudo são coisas da natureza. E como opor química à natureza se nos próprios seres vivos as reações químicas estão sempre acontecendo? Todos os alimentos que você come são transformados, no seu organismo, por reações químicas. É isso que permite a você viver e crescer. A vida não seria possível sem essas reações.
– É verdade.

– É incorreto dizer que a química é tudo o que é artificial. E depois, nem tudo o que é artificial faz mal. Um remédio é um produto químico, e pode curar. E há coisas naturais que não podem ser consideradas boas: terremotos, furacões, veneno de cobra, mosquito da dengue, fumo de cigarro…
– Chega, tia Lúcia. Já aprendi muita coisa.
É que Luísa estava com pressa. Queria corrigir a mãe a respeito da palavra química. Queria também ir até a cozinha fazer experiências químicas com certas substâncias.
Lúcia Tosi,
Universidade Federal de Minas Gerais.
(Em memória)

O texto Faz bem ou faz mal foi publicado originalmente na edição número 2 – quando a Ciência Hoje das Crianças, a CHC, ainda era um encarte da revista Ciência Hoje (dos adultos!). O encarte tinha o propósito de aproximar os filhos e as filhas dos assinantes da Ciência Hoje do mundo da ciência. A ideia deu tão certo que, poucos volumes depois, a CHC se tornou uma revista independente, com seus próprios assinantes.
Este artigo foi republicado para celebrar os 40 anos da CHC!

Matéria publicada em 01.06.2026