De malas prontas para Paraty

Antônio, que mora no Rio de Janeiro, ligou para a prima Madalena, que é de São Paulo, para saber se estava tudo certo com a viagem do final de semana. Madalena, animadíssima, disse que tinha acabado de colocar as coisas na mochila, que seus pais estavam arrumando o carro e que partiriam no dia seguinte bem cedo. Antônio falou que do lado dele também já estava tudo organizado, e que a mãe tinha até comprado uma coleira nova para o Belizário, o vira-lata caramelo da família que também iria participar da aventura. Esse programa, totalmente idealizado pelos primos, teve como destino Paraty, uma cidade no estado do Rio de Janeiro, que fica bem no meio do caminho entre as capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mas o que será que esse lugar tem de especial?

De malas prontas para Paraty
Ilustração Mariana Massarani

A cidade de Paraty e suas belezas naturais receberam da UNESCO – uma organização internacional voltada para a educação, a ciência e a cultura – o título de Patrimônio Mundial da Humanidade, por ser um lugar de grande importância cultural e ambiental. “Mas o que tem lá?” – você, o Antônio e a Madalena poderiam perguntar. E essa pergunta é boa…

Paraty preserva a arquitetura do seu Centro Histórico, o seu ambiente natural e muitas manifestações culturais tradicionais, como festas religiosas, festivais diversos, além de feiras literárias e gastronômicas. Essa preservação vem do cumprimento de leis que determinam o que é e o que não é permitido fazer no município. Mas não é só por isso! A cidade ficou bastante isolada por cem anos, entre 1870 e 1970, o que ajudou na sua conservação.

O começo da história

A região de Paraty era habitada por povos originários conhecidos como guaianás ou guaianases. Em tupi, língua falada por esses indígenas, Paraty é o nome de um peixe prateado, muito comum em todo o litoral da região, e acredita-se que essa possa ser a origem do nome da cidade.

Em 1531, quando os portugueses chegaram para explorar o litoral de Paraty, eles construíram núcleos de povoamento, isto é, casas em que algumas pessoas passaram a morar. Em 1660, a vila que havia se formado no fundo da baía de Paraty se tornou independente da vila de Angra dos Reis, cidade vizinha que ditava as regras gerais. Naquela época, havia um antigo caminho, antes usado pelos indígenas, que cruzava a serra, muito íngreme, e ligava o litoral ao interior. Os portugueses aproveitaram a trilha para exploração de metais preciosos, especialmente o ouro.

Caminho do ouro

Em torno de 1690, foi encontrado ouro nas terras que ficaram conhecidas como Minas Gerais, e o caminho que ligava o porto de Paraty ao interior, também chamado sertão, passou a ser a principal maneira de chegar nessa região valiosa para os exploradores portugueses. As caravanas que iam para o sertão passavam por Paraty, que, além de ser passagem, lhes fornecia alimentos e era onde se embarcava o ouro trazido das minas (de Minas Gerais) para ser enviado ao Rio de Janeiro, e, de lá, para Lisboa, capital de Portugal.

Mas logo foi aberto outro caminho para as minas, partindo do Rio de Janeiro. Era mais fácil de trafegar e levava menos tempo para chegar. Assim, no início do século 18, Paraty deixou de ser importante para a economia colonial portuguesa e ficou vivendo da sua economia local, ou seja, somente das atividades dos habitantes da cidade.

Paraty para poucos

A população de Paraty era composta por grandes proprietários rurais e pequenos agricultores, que plantavam mandioca, feijão, banana, legumes e hortaliças, além de criar pequenos animais, como galinhas e porcos. Essa produção abastecia a população local e também Cunha, cidade com a qual Paraty mantinha contato pelo caminho da serra. As praias e ilhas da baía de Paraty eram habitadas por pessoas que viviam de suas pequenas roças e da pesca, os caiçaras.

Os mais ricos, donos de fazendas na área rural e de casas na cidade, tinham escravizados cuidando de suas plantações e dos trabalhos domésticos. O principal produto local passou a ser, no século 19, a aguardente, bebida feita da cana-de-açúcar, também conhecida como cachaça brasileira. Havia muitas fazendas de cana por lá.

De malas prontas para Paraty
As praias de Paraty eram habitadas por pessoas que viviam de suas pequenas roças e da pesca, os caiçaras.
Foto Vani Ribeiro/Wikipédia

Ouro negro

Ainda no século 19, o café se tornou a principal mercadoria de exportação do Brasil, e foi até apelidado de “ouro negro”. O vale do Paraíba, que ficava serra acima, era onde se localizava a maioria das fazendas de café. Isso fez com que o porto de Paraty voltasse a ser importante, porque servia de local de embarque para o café que descia a serra no lombo de burros e era levado para Santos, em São Paulo, principal porto de exportação desse produto.

Nessa mesma época, em que muito dinheiro circulava entre os grandes fazendeiros de Paraty, foram construídos os sobrados e casas que vemos hoje no Centro Histórico, porque as construções anteriores a essa época praticamente não resistiram. Somente as igrejas de Santa Rita e Nossa Senhora do Rosário foram construídas antes, no século 18. A Capela de Nossa Senhora das Dores foi construída no início do século 19 e a atual matriz, em meados do mesmo século.

De malas prontas para Paraty
A igreja de Santa Rita, construída no século 18, resistiu ao tempo e faz parte do Patrimônio Histórico.
Foto Wikipédia

Fé e cultura

Em 1870, foi inaugurada uma estrada de ferro ligando o Rio de Janeiro a São Paulo para facilitar o acesso ao porto de Santos. Com isso, Paraty voltou a viver das atividades econômicas locais. Havia ainda uma relação com Cunha e com Angra dos Reis, para onde eram enviadas mercadorias, como banana e farinha de mandioca, e de onde vinham produtos e notícias do Rio de Janeiro.

Em Paraty, a vida seguia no ritmo dos ciclos da natureza e das festas de santos católicos, que eram momentos de grande confraternização. Nessas festas, moradores da cidade, caiçaras, ricos e pobres, unidos pela fé, encontravam-se, realizavam novenas (orações que se estendem por nove dias) e faziam procissões. Além disso, havia danças, como a ciranda e a chiba, que se faziam em roda e incluíam sapateados, palmas e muita música!

Isolados, mas em festa

Fora da rota de comércio dos portos do Rio e de Santos, Paraty viveu um tipo de isolamento que durou cerca de um século. A cidade deixou de chamar a atenção e isso favoreceu a manutenção da arquitetura colonial e das tradições populares. As festas católicas, as danças, as músicas e os saberes artesanais, utilizados na feitura de canoas, remos, cestas, gamelas (tradicional tigela de madeira), colchas de retalho e muitas outras coisas, foram desenvolvidos pela população.

Mas, a partir dos anos 1960, Paraty passou a ser frequentada por artistas e por pessoas que buscavam maior contato com a natureza e com formas mais simples de viver. As políticas oficiais de preservação, em que nada poderia ser modificado, como o tombamento dos casarões e a conservação da natureza local, garantiram a manutenção da arquitetura do Centro Histórico e do ambiente natural. O município se tornou mais atrativo, muito agradável para o turismo, que passou a ser a principal atividade econômica depois da abertura da rodovia Rio-Santos, em 1973.

De malas prontas para Paraty
Passeando pelo Centro Histórico de Paraty, podemos visitar sobrados e casas que foram construídos no século 19.
Foto Diego Torres Silvestre/Flickr/CC

Paraty para todos

Hoje, Paraty é uma cidade famosa, a população urbana cresceu muito, novos bairros foram criados, e a quantidade de moradias de veraneio na cidade e nas praias aumentou. O comércio se expandiu com o crescimento de moradores e turistas. As festas se multiplicaram, atraindo mais gente de fora.

Se antes predominavam as festas católicas, atualmente Paraty se tornou uma cidade que tem as festividades como seu principal atrativo – incluindo a mundialmente famosa Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Na cidade festeira e charmosa, as tradições e as novidades convivem lado a lado, revelando que a preservação da cultura e da natureza pode ser uma importante aliada do desenvolvimento.

Antônio e Madalena adoraram passar o final de semana em Paraty. E você, gostaria de ir também?

Marina de Mello e Souza,
Departamento de História
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

Matéria publicada em 01.07.2026

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