O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?

Não adianta correr atrás do sapo do quintal, querer pegar desprevenida a perereca que está grudada no chão do banheiro, nem ficar cara a cara com a rãzinha que encontrou na cachoeira na expectativa de flagrar um sorriso recheado desses animais. Vai ser difícil localizar seus dentes…

Aves, cavalos-marinhos, quelônios (cágados, jabutis e tartarugas) e as grandes baleias-de-barbatana também são animais completamente desdentados. Mas a conversa aqui é sobre os anuros, os anfíbios sem cauda – isto é: sapos, rãs e pererecas – e suas bocas. Será que eles são banguelas?

O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Ilustração Jaca

Antes de embarcar na leitura, dê uma conferida rápida no espelho do banheiro: seus dentes estão todos no mesmo lugar? Ainda bem, né? Você sabia que, ao contrário do que muita gente pensa, dentes não são ossos? Pois é! Dentes são órgãos complexos, formados por diferentes conjuntos de células, que passam por um processo chamado mineralização, ficando duros e resistentes. Isso é essencial para que os dentes cumpram suas funções ao longo da vida dos animais.

Outra curiosidade bem interessante é que os dentes apareceram há mais de 400 milhões de anos. Primeiro, em alguns peixes! Desde então, os dentes se tornaram ferramentas versáteis, capazes de cortar, perfurar, triturar e amassar. Essa novidade mudou a história dos animais vertebrados. Permitiu a transição de formas mais simples de alimentação, baseadas em filtrar ou sugar, para um jeito ativo de se alimentar, caçando e mastigando. É o que vemos em onças, macacos, cervos, répteis, alguns anfíbios, entre tantos outros. Ou seja: a diversidade de espécies que conhecemos hoje é, em parte, resultado do que temos na boca!

Anfíbios com dentes

E quem olha para a boca dos anfíbios? Mesmo sendo um grupo enorme, com mais de nove mil espécies no mundo, são raros os estudos nesse sentido. Intrigado com isso, um grupo de cientistas curiosos como crianças decidiu investigar um pouco melhor as bocas e os dentes dos anfíbios.

Foram estudadas mais de 520 espécies e usaram uma tecnologia especial chamada tomografia computadorizada, que faz imagens do corpo por dentro, em camadas e em três dimensões, como se estivessem usando visão de raio-X. Ao olhar essas imagens cheias de detalhes, fizeram descobertas bem surpreendentes!

Quer um exemplo? Todas as espécies atuais e extintas de cecílias, anfíbios que se parecem com cobras, têm dentes, e ainda possuem várias fileiras deles! As salamandras e os tritões, apresentam várias espécies com dentes, tanto nos animais que vivem nos dias de hoje, como nos extintos.

O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
A cecília, anfíbio que se parece com uma cobra, tem dentes.
Foto Santiago Ron/Bioweb
O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Entre as salamandras, várias espécies têm dentes.
Foto Frank Vassen/INaturalist /CC

Cadê o dente que estava aqui?

Pensando nos anfíbios mais diversos e mais famosos, como os sapos, as rãs e as pererecas, que recebem a denominação de anuros (por não terem cauda na fase adulta), a história muda. Muitos grupos têm espécies completamente desdentadas! Sabe o que é mais incrível? A perda dos dentes aconteceu mais de 20 vezes em diferentes grupos de anfíbios antigos! Em algumas espécies, os dentes deixaram de existir. Essa novidade foi passada de pais para filhos, e de filhos para netos. Com o passar de muitos anos, foram surgindo novas espécies, todas banguelas. E o mais curioso: isso aconteceu em diversos ambientes naturais do planeta, em tempos diferentes, dando origem a várias famílias de anuros sem dentes, que podemos ver atualmente.

A partir daí, novas perguntas apareceram: por qual motivo existem tantos anuros sem dentes? Será que as espécies de maior tamanho têm mais dentes que as pequeninas? E será que a falta de dentes está ligada ao tipo de alimento que eles comem?

É banguela ou não é?

Determinados a responder a essas perguntas, o grupo de cientistas reuniu informações sobre a presença ou ausência de dentes e a alimentação de 268 espécies. A comparação mostrou uma ligação clara: os anfíbios que se alimentam quase só de bichos pequenos, como formigas, cupins e ácaros, tendem a não ter dentes. Junto com isso, a mandíbula também é mais curta.

Resumindo: os sapos, as rãs e as pererecas que comem presas bem pequenas são banguelas e têm bocas proporcionalmente menores do que os que comem animais maiores e variados. Por outro lado, tamanho não é documento, existem tantas espécies de sapinhos com dentes, quanto de sapões banguelas.

O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Foto Lucas de Souza Almeida
O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Muitos grupos de sapos, rãs e pererecas têm espécies completamente desdentadas.
Foto Agus Gatam

O desafio de viver sem dentes

Você deve estar se perguntando: mas como esses anuros conseguem comer sem dentes? O segredo está na língua! Quase todos eles apresentam línguas que funcionam como molas grudentas. Elas são lançadas para fora da boca em alta velocidade, colam na comida como uma fita adesiva e trazem-na de volta para dentro da boca animal banguela esfomeada. Essa língua habilidosa, junto com outras adaptações, pode ter ajudado alguns sapos, rãs e pererecas a viver sem dentes. É mais uma peça do quebra-cabeça que mostra como a evolução moldou a relação entre os anfíbios e a quantidade de dentes que eles têm.

Outros desdentados

Muitos outros animais que não têm dentes também desenvolveram soluções para se alimentar, principalmente de pequenos invertebrados. Alguns exemplos famosos são os tamanduás, os pangolins e os equidnas, que usam uma língua comprida e pegajosa para capturar pequenas presas. Estratégias bem parecidas com as de muitos sapos.

O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Os tamanduás, que também são banguelas, usam uma língua comprida e pegajosa para capturar pequenas presas.
Foto Ondrejprosicky
O sapo lava o pé! Mas será que vai ao dentista?
Baleias, como as jubartes, são gigantes sem dentes.
Foto Elianne Dipp

No fim das contas, ser banguela não é uma desvantagem, mas sim uma alternativa eficiente, resultado de milhares de anos de evolução, que fez surgirem formas novas de explorar o mundo e conseguir alimento. A partir de agora, você vai olhar para as bocas dos bichos e para os seus próprios dentes com ainda mais interesse. É ou não é?!

Lucas de Souza Almeida,
Diego Bueno Villafañe,
Juliane Petry de Carli Monteiro,
Projeto Cururu – Laboratório de Herpetologia
Departamento de Biodiversidade e Centro de Aquicultura, Instituto de Biociências
Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima
Universidade Estadual Paulista

Matéria publicada em 03.08.2026

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