Um construtor de São Paulo

Talvez você já tenha ouvido falar que São Paulo é a maior cidade da América Latina. Mas pouca gente se pergunta: – Será que São Paulo sempre foi gigante desse jeito? A resposta é… não! Ela já foi uma cidade pequena, com poucas ruas. Ao longo dos anos, passou por mudanças na sua arquitetura. Algumas construções realizadas há quase 300 anos, no século 18, tornaram-se marcas da cidade. Entre os responsáveis por essas construções está Joaquim Pinto de Oliveira, um mestre de obras que se tornou mais conhecido por seu apelido: Tebas, que significa pessoa talentosa e habilidosa. E foi com talento que Tebas driblou os desafios da escravidão e colocou sua técnica em prática com liberdade. Hoje, ele é reconhecido como uma importante personalidade da cidade de São Paulo.

Ilustração Walter Vasconcelos

O menino Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, nasceu na cidade de Santos, no ano de 1733. Era filho de Clara Maria Pinta e, como muitas pessoas negras daquele período, nasceu na condição de escravizado. Isso significava que não era livre e precisava trabalhar para seus proprietários, o português Bento de Oliveira Lima e sua esposa Maria Antônia Pinta. Pouco se sabe sobre a infância de Tebas, a não ser que sua mãe faleceu nesta época e que, ainda jovem, quando tinha 17 anos, foi levado para a cidade de São Paulo junto com seus senhores.

Quando Tebas e seus senhores chegaram a São Paulo, a cidade passava por algumas mudanças promovidas por um governador chamado Morgado de Mateus, que tinha como objetivo modernizar a região. Novos caminhos estavam sendo abertos e alguns edifícios, construídos, reformados ou ampliados. As igrejas, por exemplo, começaram a receber melhorias. Em vez de usar apenas barro nas construções, alguns religiosos decidiram utilizar pedras em partes das edificações.

Foi nesse momento que o talento de Tebas começou a aparecer. Ele dominava uma técnica chamada cantaria, que consistia em cortar, esculpir e encaixar pedras para formar paredes, escadas, portões e fachadas. Era um trabalho que exigia muita habilidade, porque cada pedra precisava ser cuidadosamente moldada para se ajustar às outras. Vale lembrar que, naquela época, que não existiam as máquinas que conhecemos hoje. Tebas e seus companheiros faziam tudo à mão, usando ferramentas como martelos, talhadeiras e cinzéis, uma ferramenta manual com lâminas afiadas.

Talento e habilidade

Na cidade de São Paulo, a maioria das construções era feita de taipa de pilão, uma técnica de compactar o barro para construir paredes firmes. Já a cantaria, que Tebas dominava, era considerada um trabalho sofisticado e raro, que poucas pessoas sabiam realizar.

Uma das primeiras obras importantes em que Tebas participou foi a construção da nova igreja do Mosteiro de São Bento, em 1766. Ele trabalhou aplicando pedras na entrada do prédio da igreja e ajudando na construção da nova fachada junto com seu senhor, Bento de Oliveira Lima.

Durante essa obra aconteceu um momento simbólico: o lançamento da pedra fundamental da igreja. Esse é o primeiro bloco colocado em uma construção, e marcava oficialmente o início da obra. O momento costumava ser acompanhado por autoridades religiosas e pessoas importantes da comunidade, e o responsável por colocar essa pedra foi justamente Tebas!

Outra obra dele de destaque foi a reforma da antiga Catedral da Sé, principal igreja da cidade. Foi nesse trabalho que mostrou ainda mais sua habilidade como construtor. Durante as obras, sua vida passou por uma grande mudança devido à morte de seu senhor. Como o falecido tinha muitas dívidas, os bens da família foram colocados à venda. Entre esses bens estavam pessoas escravizadas, incluindo o próprio Tebas.

Um membro da Catedral da Sé comprou Tebas em leilão para que ele terminasse a obra. E foi o que ele fez: terminou a igreja que se tornou uma das mais bonitas da cidade.

Cruzeiro da cidade de Itu, em São Paulo.
Em foto da década de 1860, a Matriz da Sé, com a Catedral à direita
Foto Marc Ferrez/Wikipédia

Conquista da liberdade

Tebas também trabalhou na igreja da Ordem Terceira do Carmo. Nessa obra, ficou responsável por realizar a fachada de pedra do edifício. Essa parte da construção permanece até hoje na paisagem da cidade, sendo um exemplo da qualidade do trabalho realizado por ele.

Com o tempo, Tebas passou a assumir responsabilidades cada vez maiores nas obras. Ajudava a organizar os trabalhadores, negociava prazos e garantia que os serviços fossem concluídos. Além disso, conseguiu adquirir bens e construiu uma família. Casou-se com Natária de Souza e teve quatro filhas: Natária, Escolástica, Gertrudes e Joaquina.

Em 1788, quando tinha acabado de completar 45 anos, Tebas conquistou algo muito importante: sua liberdade! A partir desse momento, passou a trabalhar como homem livre, continuando a atuar como mestre de obras em diferentes construções de São Paulo.

Em meados do século 19, o Chafariz do Largo da Misericórdia de São Paulo – aquarela sobre papel.
Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo
Foto Raoni Raoos/Wikipédia

Chafariz do Tebas

Alguns anos após ter conquistado a liberdade, Tebas foi escolhido pelo governador de São Paulo para realizar um desafio que ajudaria toda a população da cidade: construir um chafariz. O abastecimento de água na cidade era um grande problema. As pessoas buscavam água em rios e córregos, que muitas vezes estavam sujos e causavam doenças. Para melhorar essa situação, Tebas foi responsável por construir na região central da cidade o Chafariz da Misericórdia, que era público. Com essa construção, os moradores tinham água limpa para beber, cozinhar e lavar roupas. A obra foi tão importante que resolveram batizar o monumento em homenagem a seu construtor. O local ficou conhecido como Chafariz do Tebas.

E novos desafios vieram! Tebas foi contratado para construir um grande cruzeiro de pedra na cidade de Itu, no interior de São Paulo. O monumento foi erguido em frente às igrejas franciscanas da cidade. Com cerca de nove metros de altura e cuidadosamente esculpido, o cruzeiro permanece em pé até os dias de hoje.

Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo
Em meados do século 19, o Chafariz do Largo da Misericórdia de São Paulo – aquarela sobre papel.
Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo / Reprodução: Helio Nobre; José Rosael/Museu Paulista

Vida de mestre

Tebas viveu muito e testemunhou várias mudanças na cidade de São Paulo. Ao longo da vida, tornou-se conhecido por sua habilidade no trabalho com pedras e por sua capacidade de liderar construções importantes. Morreu em 1811, aos 78 anos. Mesmo depois de sua morte, muitas das obras que ajudou a construir continuaram fazendo parte da paisagem das cidades.

Em foto da década de 1860, a Matriz da Sé, com a Catedral à direita
Cruzeiro da cidade de Itu, em São Paulo.
Foto Prefeitura de Itu/Reprodução

Por suas incríveis construções, a história de Tebas foi retirada do anonimato e suas contribuições têm sido reconhecidas. Hoje, quando observamos igrejas antigas, chafarizes e monumentos históricos, podemos imaginar o trabalho cuidadoso de mestres de obras como Tebas. Pedra por pedra, eles construíram edifícios que atravessaram séculos e foram fundamentais para a formação das cidades do nosso país.

Luis Gustavo Reis
Laboratório de Pesquisa de História das Américas (Lapha)
Universidade Federal de São Paulo

Matéria publicada em 04.05.2026

Comentários (4)

  1. Quantos Tebas jazem invisíveis na história oficial! Adorei o artigo e minha filha também!

  2. Bom… O artigo e realmente interessante bom, e legal me interessei muito espero q mais artigos assim sejam valorizados e mais conhecidos

  3. Nathália Aparecida Burgarelli Costa

    Olá, CHC. Eu estou muito feliz por suas revistas. Estou lendo todas! Meu nome é Maria Cecília do 3º ano B, da EM Prof. José Sebastião Vasques Calçada em Birigui – SP. Eu aproveitei meu tempo para ler a revista. Um abraço e um beijo.

  4. Nathália Aparecida Burgarelli Costa

    Olá, CHC. Gostamos muito da sua revista. Um beijo e um abraço. Meu nome é Brayan Adriano do 3º ano B da Em Prof. José Sebastião Vasques Calçada.

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