A arte de cercar

Nem toda área cercada delimita uma região.

Há um planeta em que aranhas protegem os seus futuros alimentos espalhando suas teias como se fossem cercas delimitando territórios. Nessas teias, o futuro alimento (indicado como um ponto na figura abaixo) fica dentro da região limitada. Essa é a maneira da aranha dizer para todos: “Não entrem! Esse espaço é meu!”. Bem parecido com os humanos, não é mesmo?

A arte de cercar

Para que a proteção do alimento dê certo, é necessário que o ponto inicial da teia seja igual ao ponto final, onde a aranha faz uma emenda. Ou seja, não pode ter ponta solta.

Só que um dia, ao tentar cercar uma região, a aranha percebeu que, mesmo unindo o ponto final ao inicial, era possível passar da região de fora para a região de dentro sem dar pulos ou atravessar o fio de teia. Era como se não existisse mais dentro ou fora! E agora?

Ela, confusa, foi consultar uma aranha anciã para solucionar esse enigma, e a anciã disse:

– Há uma diferença entre o local, o que acontece pertinho da gente, e o global, o que se passa longe, mas que influencia o que pode acontecer perto.

– Iiih, não entendi nada… – a aranha respondeu.

– Veja os humanos, por exemplo, cada um pensando apenas em si e nos seus arredores, sem pensar no todo nem nas outras formas de vida. Só agora é que estão se dando conta do aquecimento global, da emergência climática e dos grandes riscos para todos no planeta.

– Mas o que isso tem a ver com o meu problema de cercar?

– É que o que você pensa que é verdade localmente, por exemplo, que toda cerca fechada delimita uma região, dentro e fora, pode não ser verdade globalmente, ou seja, não valer para todas as situações. Diferentemente dos humanos, nós, aranhas, não vivemos em um planeta aproximadamente esférico. A superfície do nosso planeta se parece mais com uma rosquinha, um biscoito de polvilho em forma de anel. Essa é a nossa impressão do mundo.

– Sim, mas e daí? – disse, já desanimada, a aranha que foi se consultar.

– Há curvas fechadas que definem regiões com dentro e fora, mas há também curvas fechadas em que isso não acontece! Veja essa imagem.

A arte de cercar

E a aranha anciã continuou:

– Podemos encontrar um caminho ligando dois pontos quaisquer do planeta sem atravessar a curva vermelha. A mesma coisa acontece para a curva roxa. Às vezes, são necessárias duas curvas fechadas no nosso planeta para definir uma região com dentro ou fora. Agora, não se preocupe: se você não se afastar muito do alimento que você quer cercar, sempre vai dar certo. Mas fica a lição: para entender problemas e enigmas do nosso planeta, precisamos pensar no todo, e não apenas no que as nossas patinhas conseguem tocar.

E você, que acompanhou essa história, consegue imaginar um planeta em que duas curvas fechadas nem sempre definem uma região com dentro ou fora? Dica: para entender melhor a arte de cercar, é preciso soltar a imaginação!


pedro_roitman

Pedro Roitman,
Instituto de Matemática
Universidade de Brasília

Sou carioca e nasci no ano do tricampeonato mundial de futebol – para quem é muito jovem, isso aconteceu em 1970, século passado! Enquanto fazia o curso de física na universidade, fui encantado pela matemática. Hoje sou professor.

Matéria publicada em 10.09.2026

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