Abelhas em apuros!

Já ouviu falar que as abelhas estão desaparecendo em várias regiões do nosso planeta? Infelizmente, isso não é notícia falsa. Em várias partes do mundo as abelhas não têm retornado para a colmeia, após saírem para sugar o néctar das flores. No Brasil, os apicultores – que são especialistas em criação de abelhas – informam que as abelhas estão morrendo dentro das caixas de criação. Por que isso está acontecendo? Por que o desaparecimento das abelhas é uma preocupação? A CHC ajuda você a descobrir agora!

Foto Unsplash

Para entender a importância das abelhas, vamos começar imaginando-as na colmeia. Estão todas lá reunidas quando, de repente, bate aquela fome. Para encher a barriga, elas voam, pousam numa flor e se alimentam de seu néctar. Mas ainda não ficaram satisfeitas. Então, elas pousam em outra flor e sugam mais néctar. E assim vão fazendo até que decidem voltar para a colmeia.

Acontece que, ao pousarem em uma flor, as abelhas levam consigo diversos grãos de pólen, que ficam grudados no seu corpo. Pousando em outra flor, esses grãos de pólen podem se soltar e cair no estigma, que é a parte feminina da flor. E aí o que acontece? A polinização!

Quando uma flor é polinizada, ela dá origem a sementes, que ficarão envoltas pela polpa de um fruto.

Pronto: você acaba de descobrir a importância das abelhas na natureza. Elas contribuem para a reprodução das plantas!

Existem outros polinizadores naturais, como o vento, a água e até mesmo outros insetos que também se alimentam do néctar das flores. Mas não há dúvida, as abelhas são as principais polinizadoras em todos os ambientes terrestres do mundo.

 

Flores polinizadas = alimentos!

As flores polinizadas das plantas cultivadas na agricultura se transformam em sementes, que, por sua vez, se transformam nos alimentos que consumimos, como as frutas e os legumes.

Algodão, soja, café, laranja, tomate, melão, castanha, canola, maçã, maracujá e caju são alguns dos exemplos de culturas que dependem da polinização para maior e melhor produção de frutos e sementes.

Na natureza, as flores das plantas silvestres polinizadas pelas abelhas resultam na produção de mais frutos, que vão servir de alimento a uma incrível diversidade de animais. Ao se alimentarem dos frutos, os animais engolem as sementes, que sairão em suas fezes e, em contato com o solo e água, farão brotar novas plantas, que irão produzir flores e serão polinizadas pelas abelhas. É um ciclo que não acaba nunca! E no qual as abelhas têm um papel importantíssimo.

 

O sumiço das abelhas

Há muito tempo, os apicultores vem percebendo o desaparecimento das populações de abelhas.  A primeira notícia sobre o desaparecimento delas veio dos Estados Unidos, em 2006, quando os apicultores da Califórnia observaram grande perda de colônias de abelhas. No ano seguinte, apicultores de vários países da Europa observaram o mesmo fenômeno. No Brasil, os apicultores de diversos estados também vêm percebendo isso. E o pior: o número de perdas das colônias de abelhas só aumenta! Os pesquisadores deram a este desaparecimento das abelhas nas caixas (ou colônias) de criação o nome ‘Desordem do Colapso da Colônia’ (DCC).

A principal causa da DCC tem sido explicada pelo uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras. Os agrotóxicos são substâncias químicas usadas para matar insetos e outros organismos que possam atacar as plantações. Além disso, por falta do devido conhecimento, os agrotóxicos têm sido aplicados no período da floração – exatamente quando as abelhas visitam as flores em busca do néctar e pólen.

Os principais estudos sobre a diminuição das populações de abelhas foram realizados com a abelha da espécie Apis mellifera e tem indicado que produtos químicos existentes nos pesticidas contaminam o néctar e o pólen das flores.  Os inseticidas podem provocar alterações no comportamento das abelhas. Após visitarem as flores contaminadas, as abelhas perdem a sua capacidade de aprendizado e memorização, causando a sua desorientação. Por isso, não conseguem mais voltar para a colônia e desaparecem em meio à natureza.

Entrada da colônia da abelha jataí (Tetragonisca angustula).
Foto Bernard Dupont/Wikimedia Commons
Apis mellifera, sugando o néctar da flor.
Foto Wikipédia

Colônias contaminadas

Quando as abelhas não retornam, ocorre o enfraquecimento da colônia, restando apenas a rainha, algumas poucas operárias jovens e as larvas. Mas também há problema quando as abelhas conseguem retornar a depois de sugar o néctar de flores com agrotóxicos: elas levam pólen contaminado para dentro das colônias. Isso reduz a movimentação e a capacidade de comunicação entre as abelhas afetando a divisão de trabalho, os cuidados com as larvas e a limpeza da colônia. Como as abelhas são insetos sociais, que se organizam na divisão dos trabalhos, essas alterações podem resultar em drásticos efeitos à sobrevivência da colmeia.

Embora a maioria dos estudos aponte para relação do uso excessivo de agrotóxicos no desaparecimento das abelhas, outros fatores precisam ser investigados: como a ação de um novo parasita que possa estar atacando as abelhas, as mudanças climáticas ou talvez uma combinação desses fatores que podem estar deixando as abelhas mais frágeis, fazendo com que adoeçam e morram.

Caixas de criação de abelha jataí (Tetragonisca angustula).
Foto Divulgação

Sem plantas no mundo

A polinização é considerada um serviço ambiental muito valioso na produção de sementes e frutos das plantas. É através da polinização que mais da metade das plantas do mundo conseguem se reproduzir – estamos falando tanto da vegetação natural como da agricultura. Então, grandes perdas de populações de abelhas (sejam as criadas pelos apicultores ou aquelas existentes na natureza) podem levar a extinção de plantas e de animais que dependem das plantas para viver.

Grandes perdas econômicas também podem ser esperadas na produção agrícola, porque a diminuição de polinizadores pode não causar a extinção por completo da planta cultivada, mas resulta na diminuição da quantidade e na perda de qualidade de frutos. Ou seja: se as abelhas desaparecem, a qualidade dos alimentos piora e os países perdem muito dinheiro.

Um exército é necessário

Se passarmos algum tempo observando as flores em um jardim, vamos perceber como são diferentes as abelhas que as visitam. Estima-se que existam três mil espécies de abelhas originais do território brasileiro. Mas justamente a abelha que mais vemos, a Apis mellifera, é a única que não tem origem no país. Apesar de ser a maior produtora de mel e excelente polinizadora, ela sozinha não é capaz de lidar com a grande diversidade de flores existentes no mundo natural. Para realizar a grande tarefa da polinização das mais diferentes flores é preciso um exército de abelhas.

Desde os dinossauros

As abelhas existem desde o tempo dos dinossauros.  Como sabemos disso? Ora, os pesquisadores encontraram uma abelha que viveu 100 milhões de anos atrás preservada em âmbar, uma resina transparente produzida pelas plantas daquela época, que ao secar endurece como o vidro. Essa abelha foi encontrada no sudeste da Ásia, em um país chamado Burma, o que inspirou seu nome científico: Melittosphex burmensis. O mais revelador dessa descoberta é que, nos pelos do corpo dessa abelha foram observados grãos de pólen, sugerindo que, desde aquela época, as abelhas dependiam das flores para obter seu alimento e, possivelmente, já as polinizavam. Essas habitantes tão antigas não podem sumir do mundo agora, você não acha?

Cristina Santos

Bióloga Doutora em ComportamentoAnimal e Escritora
www.cristinasantos.com.br

Matéria publicada em 17.09.2019

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