Ciência no circo

Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor! Hoje tem goiabada? Tem sim, senhor! E o palhaço, o que é? É um cientista disfarçado!
Respeitável público, o circo chegou! Cancelem a viagem à Lua e garantam já o seu lugar na arquibancada! Observem atentamente o picadeiro. É lá, que mulheres e homens – palhaços, equilibristas e trapezistas – se apresentam para nos fazer rir e admirar a ciência que dominam tão bem!

Ilustração Marcelo Badari

A palhaça Sabiá parecia gostar de fazer tudo ao contrário! Diziam que ela adorava criar explicações complicadas para coisas simples e explicações simples para coisas complicadas. Se a perguntassem sobre a sensação de estar no palco, ela falaria de uma tal corrente de ar, que esfria a barriga e aquece o coração. Agora, se quisessem saber como uma equilibrista faz para não cair, ela responderia simplesmente: – Alinhando o centro de gravidade, ora bolas!

Foi durante um carnaval que Sabiá, após aterrissar de um longo voo, me fez o tão esperado convite. Ao ver meu encanto com as peripécias circenses, a palhaça prometeu desvendar os segredos por trás dos disfarces. Segundo ela, os artistas de circo são grandes cientistas: – Alguns fazem ciência usando números e fórmulas. Outros, através de experimentos em grandes máquinas. Aqui, no circo, nós usamos o nosso corpo e alguns brinquedos para testar as regras da natureza nos seus mais variados limites.

De perna de pau

Em nossa primeira lição, Sabiá me ensinou a voar em pernas de pau. Equilibrando-se a um metro de distância do chão, a palhaça me contou sobre uma força invisível chamada gravidade. A todo o tempo, a força da gravidade está puxando tudo e todos em direção à Terra. Como não há nada que possamos fazer para driblá-la, só nos resta brincar com ela!

A regra número um da brincadeira é ficar de olho no centro de gravidade. Acontece que tudo o que existe – eu, você, o seu cachorro, uma maçã – possui um ponto principal no qual a força da gravidade atua. Nos seres humanos, esse ponto se encontra na região da barriga. Para um bom equilíbrio, a receita é imaginar uma linha reta indo do centro de gravidade (no seu caso, a sua barriga) até a parte do objeto (o seu pé) que está em contato com o chão. Quanto maior for essa região de contato, maior será a estabilidade, o equilíbrio!

O segredo do equilíbrio na perna de pau é imaginar uma linha reta indo do umbigo ao pé apoiado no chão.
Artista: Carolina Andries Gigliotti/Fotógrafa: Elena Yoshie

Como boa cientista, Sabiá me propôs um experimento: tentar ficar em pé sobre os meus calcanhares. Não demorou muito tempo para que eu percebesse que, a única maneira de evitar a queda, era caminhar sem parar.  Após descobrir que a ponta de cada perna de pau é mais ou menos do tamanho de um calcanhar, eu finalmente compreendi a lição. Quando nos equilibramos sobre superfícies pequenas, é preciso estar em constante movimento, alinhando todo o corpo com a parte que, durante aquele instante, está em contato com o chão. Sabiá realmente tinha razão, andar em pernas de pau é dançar com o desequilíbrio…

 

Na corda bamba de sombrinha

Depois de nossa conversa sobre de centro de gravidade, eu já sabia: para andar sobre a corda bamba, é preciso estar com a barriga (o nosso centro de gravidade) alinhada ao pé que, em determinado instante, serve como principal ponto de apoio do corpo. O que eu não sabia era como retomar o equilíbrio, caso esse alinhamento se perdesse… Foi assim que aprendi a regra número dois da brincadeira: estar atenta às forças de contato. Como ensinam as leis de Newton – três leis que explicam o movimento dos corpos – é impossível alterar a posição do centro de gravidade de um corpo que não está sofrendo um empurrão (ou puxão). Parece complicado, mas você vai entender! Veja…

À medida que eu observava Sabiá atravessar a corda bamba, percebia que ela carregava um longo bastão em suas mãos. Quando começava a cair para a direita, ela inclinava o bastão na mesma direção. Se corresse o risco de cair para a esquerda, repetia o movimento para o outro lado. Curiosa, perguntei para que servia aquilo tudo. A surpresa foi grande quando descobri que a palhaça estava apenas usando as leis de Newton ao seu favor! Ao inclinar o bastão, seu corpo fazia uma força lateral na corda, que reagia, empurrando a passarinha na direção contrária e salvando o equilíbrio! E eu pensando que a melhor maneira de evitar cair para um lado era jogando o corpo para o outro…

O trapézio e o relógio

Antes do pouso final, Sabiá me ensinou a voar com trapézios. Sussurrando em segredo, a palhaça revelou que os trapézios voadores são iguais àqueles relógios antigos, que contam o tempo a partir do balanço do pêndulo para um lado e para o outro. O tempo que um pêndulo leva para ir e voltar depende apenas de dois fatores: o seu comprimento e a aceleração da gravidade (que é sempre a mesma aqui na Terra). Segundo Sabiá, entender o movimento do trapézio como um pêndulo faz com que os trapezistas voem de forma bastante controlada! Além de estar continuamente desenhando no ar uma linha imaginária em formato de “U”, os trapezistas gastam sempre o mesmo tempo para completar uma viagem.

Demonstrando um último experimento científico, Sabiá se lançou pelos ares duas vezes seguidas. No primeiro voo, tentou dar uma cambalhota na metade do trajeto de ida. No segundo, esperou até o final e disse para me provocar: – Viu que a cambalhota só saiu da segunda vez?

Mas eu já desconfiei que a explicação tivesse a ver com a força da gravidade. E não é que acertei? No ponto mais baixo da linha imaginária (o tal “U”), quando o corpo está totalmente alinhado com essa força, ela é sentida com a maior intensidade possível. Como consequência, os trapezistas se sentem mais pesados do que nunca e as acrobacias ficam incrivelmente complicadas!

Para o grande final, Sabiá pediu que eu subisse na plataforma oposta àquela onde nos encontrávamos. Separadas por um picadeiro de distância, ela sugeriu que levantássemos voo ao mesmo tempo, cada uma em seu trapézio. Ao me ver com uma pontinha de medo, a palhaça-passarinha cantarolou: –Chacoalhe a cabeça para que todo o aprendizado de hoje escorregue até ponta do dedão do pé. A ciência precisa ser vivida!

Foi então que pulei, e nos encontramos no meio do caminho, naquele lugarzinho especial onde ciência é piada, e piada… é piada também.

Carolina Andrie Gigliotti

Palhaça Sabiá,
Mestre em Física,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Matéria publicada em 05.03.2020

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