Animais também aprendem observando

Os animais não agem apenas por instinto, seus comportamentos podem ser bem engenhosos e até mesmo aprendidos.

Os animais exibem diferentes tipos de comportamentos. Alguns deles, chamados comportamentos inatos, não precisam ser aprendidos – são aqueles que os animais já nascem “programados” para executá-los. Por exemplo:os filhotes de mamíferos (incluindo os bebês humanos) já nascem sabendo como sugar o leite de suas mães. Porém, há comportamentos que precisam ser aprendidos através da experiência de vida. É o caso, por exemplo, dos filhotes de leões que, embora nasçam com certo instinto de caça,só aprendem a caçar de fato observando os adultos em ação e praticando.

Alguns desses comportamentos aprendidos, quando são típicos de um determinado grupo de indivíduos da mesma espécie, podem ser considerados culturais. Assim, não podemos chamar de cultural o aprendizado de caça dos leões, já que isso é comum a todos os bandos dessa espécie. Mas… E se descobríssemos que um determinado bando “inventou”uma estratégia de caça muito particular e que esse comportamento está sendo aprendido ao longo das gerações? Isso sim seria considerado transmissão cultural. Um bom exemplo são as orcas:diferentes populações têm estratégias próprias de caça que são ensinadas ao longo das gerações.

Entre os animais brasileiros, os macacos-pregos (Sapajus spp) são conhecidos por improvisar diversas ferramentas. Esse comportamento não é herdado geneticamente, mas aprendido uns com os outros por
observação e prática.
Foto Tiago Falótico

Comportamentos culturais também já foram observados em aves a até mesmo em peixes. Mas os campeões nesse quesito são mesmo os primatas. Populações de diversas espécies de macacos apresentam comportamentos culturais relacionados à comunicação, defesa e obtenção de alimento. Somente entre os chimpanzés são conhecidos mais de 30 comportamentos como esses, que incluem o uso de ferramentas rudimentares (quando usam pedras e galhos, por exemplo) e diferentes técnicas de construir abrigos e ninhos.

Não é por acaso que esses comportamentos são mais comuns em primatas,já que evolutivamente eles são nossos “primos”. Estudar esses comportamentos e como se originam é importante não apenas para conhecer melhor esses animais, mas também para tentar entender a origem de nossos próprios comportamentos e cultura.

Em 2011, pesquisadores observaram pela primeira vez na natureza um chimpanzé (Pan troglodytes) utilizando um punhado de musgos para absorver água de uma poça, como se fosse uma esponja, e em seguida leva-la até a boca. Nos anos seguintes esse comportamento foi sendo copiado por outros indivíduos, surgindo a partir daí uma nova tradição cultural naquele bando.
Foto: Derek Keats; WikimediaCommons

Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza,

Universidade Federal de São Carlos

Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.

Matéria publicada em 22.03.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Esses primatas são muito espertinhos!

    Publicado em 8 de junho de 2019 Responder

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