Queimadas, incêndios… é fogo!

Mesmo que você passe correndo pela frente da televisão, em algum momento, viu ou ouviu uma notícia sobre os incêndios que, em 2020, atingiram regiões brasileiras como na Amazônia e no Pantanal. Triste, não é…? Os incêndios florestais e as queimadas ocorrem todos os anos em nosso país, mas você sabe qual a diferença entre eles? Será que o fogo é sempre inimigo do meio ambiente? Vamos saber mais sobre esse assunto, que é quente!

Macaco-prego corre perigo na paisagem queimada.
Foto Gustavo Figueiroa/SOS Pantanal

Incêndios e queimadas têm relação direta com o fogo. E para que haja fogo é preciso três ingredientes: o combustível (que é o material que vai pegar fogo), o comburente (geralmente é o oxigênio do ar, que alimenta o fogo) e a ignição ou o gatilho (que é o que inicia o processo). Se faltar um desses ingredientes, não há fogo.

Mas como identificar os ingredientes do fogo nos incêndios florestais e nas queimadas pelo Brasil? Fácil! O combustível, que é o que vai queimar, a vegetação. O comburente, que é o que alimenta o fogo, é o oxigênio do ar somado às condições meteorológicas (altas temperaturas, baixa umidade, ventos fortes e falta de chuva). Finalmente, o terceiro ingrediente, o tal gatilho que inicia o fogo, é a ação humana. Os cientistas costumam chamar esse trio (vegetação + clima + ação humana) de triângulo do fogo. Juntou os três, temos um incêndio florestal.

 

De onde vem a faísca?

O fogo provocado pela ação humana pode acontecer por vários meios: acidentes causados por faíscas de automóveis, rompimento de redes elétricas, balões que caem na mata ou por pontas de cigarro descartadas, ainda acesas, na vegetação seca. Há ainda causas criminosas, ou seja, quando alguém ateia fogo de propósito para devastar a vegetação, contando com a impunidade, ou seja, que nenhuma autoridade lhe dará uma punição.

Mas nem sempre os humanos são culpados. Algumas vezes, o fogo na vegetação acontece de maneira natural, com raios, por exemplo. Essas descargas atmosféricas que atingem o solo podem gerar incêndios florestais. Isso normalmente ocorre nas estações do ano mais úmidas, quando a vegetação não está tão seca e, por isso, as proporções dos incêndios não são tão grandes. Durante a época seca existe pouca ocorrência de raios – afinal de contas, para ter raios é preciso ter nuvens capazes de gerar as descargas atmosféricas. Pode-se concluir que, na época de poucas nuvens, praticamente todos os incêndios florestais são causados pela atividade humana.

Parque Estadual Encontro das Águas.
A fumaça dos incêndios é nociva para humanos e outros animais.
Animais sofrem com o fogo.
Onça-pintada: refúgio perto da água.
Fotos Gustavo Figueiroa/SOS Pantanal

Tradição de queimadas

O fogo das queimadas é uma prática tradicional, cultivada por alguns agricultores, destinada à limpeza do terreno para o cultivo de plantações ou formação de pastos. Neste caso, as queimadas são feitas de maneira controlada.

Nas queimadas controladas, muitas plantas e organismos vivos se beneficiam, principalmente espécies do Cerrado e do Pantanal, que precisaram do fogo para se desenvolverem. Essa vegetação se adaptou à ocorrência das queimadas ao longo de sua evolução. O fogo, neste caso, funciona como um estimulante: as sementes ficam aguardando um sinal para nascerem, e o fogo faz com que elas germinem logo, porque o calor rompe aquela “casquinha” chamada testa da semente, facilitando a entrada de água, que é essencial para a planta brotar.

Acontece que, às vezes, essas queimadas saem do controle e se transformam em… incêndios!

 

O lugar do fogo

No Brasil, o fogo ocorre todos os anos em praticamente todos os biomas, desde a floresta amazônica até o Cerrado. Quando o fogo é de grandes proporções, destrói as plantas e os animais, empobrece o solo, polui o ar e a água, além de provocar mortes de pessoas, acidentes e perdas de casas. Mas, será que as queimadas e os incêndios florestais que se destacam nos noticiários são a mesma coisa?

Na verdade, não. Queimadas são sempre decorrentes de ação humana. Os incêndios podem resultar de queimadas que fugiram do controle, de ações humanas propositais ou de eventos naturais.

O problema é que os seres humanos – por meio do desmatamento, da agricultura e da pecuária, além das atividades de mineração – vêm modificando a maneira como o fogo ocorre. Isso acontece no Brasil e em todo o mundo. Regiões úmidas, como a floresta amazônica, por exemplo, não são adaptadas ao fogo. Ao contrário, a Amazônia é extremamente sensível ao fogo e suas consequências são gravíssimas para as espécies que ali vivem. O Cerrado e o Pantanal são biomas mais adaptados ao fogo, mas com limites.

Excluir o fogo dos biomas adaptados a ele não é totalmente correto. Nas regiões que são dependentes dele, o fogo precisa ser manejado com controle. Porém, a atividade humana ao longo das últimas décadas vem alterando o regime de fogo natural que esses biomas conhecem. A falta de equilíbrio no uso do fogo leva a grandes impactos no ecossistema.

 

O ciclo do fogo

O fogo na floresta preocupa. Funciona como um ciclo com consequências nocivas para a Terra: mais queimadas e incêndios florestais levam ao aumento do efeito estufa, que eleva a temperatura do planeta. Por sua vez, com um clima mais quente e seco, a vegetação fica mais sensível ao fogo, o que pode levar a condições favoráveis a mais incêndios florestais.

É preciso romper este ciclo. O uso do fogo na hora certa e nos ambientes que necessitam das chamas para seu equilíbrio é essencial. Mas a proteção para que não ocorra incêndios em ambientes sensíveis como florestas, em proporções gigantescas, é indispensável. Isso só se consegue com informação.

Efeito fuligem

Se por um lado o clima influencia no fogo, por outro lado o fogo também interfere no clima. Há uma modificação da paisagem provocada pela fumaça. O fogo na floresta ainda altera o ciclo da água, porque acelera a evaporação e a formação de nuvens. Além disso, as queimadas e os incêndios florestais emitem toneladas de poluentes para a atmosfera e pioram o efeito estufa. Um dos ingredientes dessa poluição são as minúsculas partículas de material queimado que são jogadas no ar e que respiramos. Essa fuligem tem a capacidade de gerar muitos problemas de saúde, principalmente em crianças e idosos.

Renata Libonati

Departamento de Meteorologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Letícia Couto Garcia,

Instituto de Biociências
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Matéria publicada em 21.12.2020

COMENTÁRIOS

  • sonic men

    Esse texto fala sobre a diferença entre queimadas e incêndios. Os incêndios são causados pelo ser humano e as queimadas as vezes podem acontecer por causas naturais. Para acontecer o fogo é preciso três ingredientes: combustível,comburente e gatilho. No Brasil o fogo ocorre todos os anos principalmente na Amazônia, Cerrado e Pantanal. O fogo solta no ar pequenas partículas chamadas de fuligem que provocam doenças respiratórias nos seres humanos.

    Publicado em 21 de dezembro de 2020 Responder

    • Elisabete

      Achei muito informativo e fácil de entender! Parabéns🎊

      Publicado em 24 de dezembro de 2020 Responder

  • Elisabete

    Muito esclarecedor! Parabéns!

    Publicado em 24 de dezembro de 2020 Responder

  • Sidnei

    Quanto aprendizado para que possamos cada vez mais proteger as queimadas, necessidade de bom senso, vamos divulgar mais compartilha, para que todos entendam que não é só para nós brasileiros e sim para o mundo.
    Avante Brasil.

    Publicado em 24 de dezembro de 2020 Responder

  • Carla Sanguinetti da Cunha Rosa

    Parabéns pelo texto. Esclarecedor,, muito informativo e de fácil compreensão!

    Publicado em 26 de dezembro de 2020 Responder

  • Kiki

    Muito Bom!

    Publicado em 8 de janeiro de 2021 Responder

  • vinicius ramalho

    vinicius ramalho

    Publicado em 16 de janeiro de 2021 Responder

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