
Entre abril e setembro de 2022, uma cena curiosa se repetiu na cidade de Goianésia, em Goiás. Pela manhã, um réptil surgia discretamente do chão de uma calçada. Vinha de um túnel subterrâneo, atravessava um buraco no concreto e seguia direto para uma missão inusitada: pegar pedaços de pão e de biscoito espalhados no chão.
A primeira aparição veio no dia 1º de abril, mas não era mentira! O animal foi visto se alimentando de restos de biscoito caídos. Nas semanas seguintes, passou a retornar, às vezes depois de vários dias escondido, em busca das migalhas deixadas de propósito pelas pessoas curiosas com a “visitante”: uma anfisbena.
As anfisbenas, também chamadas de cobras-de-duas-cabeças, são, na verdade, lagartos sem patas, adaptados à vida subterrânea. Seus olhos são pequenos, o corpo é cilíndrico e a maior parte do tempo elas passam cavando túneis no solo, longe da luz. Lá embaixo, costumam se alimentar de insetos e outros pequenos invertebrados.
Justamente por viverem enterradas, observações diretas com anfisbenas se alimentando são raríssimas. Uma anfisbena comendo migalhas de pão e biscoito, então, é um fato inédito! Os registros foram compartilhados com cientistas da Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Estadual do Norte Fluminense e Universidade Estadual de Campinas, que analisaram o caso em detalhes.
Tudo indica que a anfisbena aprendeu a associar aquele ponto da calçada a uma fonte de comida e, por isso, retornava com frequência. Afinal, o que é mais fácil: caçar o próprio almoço ou recebê-lo sem esforço?
Mas pão e biscoito não são alimentos de uma anfisbena na natureza. Ingerir itens que não fazem parte da dieta natural ou que sequer são alimento, como papel ou areia, é um comportamento conhecido como alotriofagia.

A construção e a vida das cidades mudam o cardápio disponível. A diminuição de insetos no solo e o cheiro forte dos nossos alimentos e até do nosso lixo podem levar as anfisbenas que sobrevivem no ambiente urbano a experimentarem novas fontes de comida. Com o tempo, elas podem começar a procurar esses recursos, mesmo que eles não sejam adequados à sua saúde.
Pão e biscoito, por exemplo, são ricos em açúcares e oferecem pouco ou nenhum nutriente importante para uma anfisbena, que tem um organismo adaptado para comer pequenos animais, como formigas e cupins. O consumo frequente desses alimentos deixados por nós pode fazer mal ao réptil. Portanto, lembre-se: seja uma anfisbena ou um mico, nunca alimente animais silvestres.

Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Zoologia
Universidade Federal de Juiz de Fora
Sou biólogo e muito curioso. Desde criança tenho interesse em pesquisar os seres vivos, especialmente o mundo animal. Vamos fazer descobertas incríveis aqui!
Matéria publicada em 09.04.2026