O mistério da mosca na gaveta

Enquanto explorava uma área protegida na Mata Atlântica, um especialista coletou alguns insetos e os guardou com cuidado em uma gaveta. Provavelmente, ele nem suspeitou que entre aqueles seres havia algo extraordinário: uma espécie ainda desconhecida pela ciência! Esse caso poderia ser nomeado como “o segredo da mosca que saiu de uma aranha e foi parar numa gaveta”. Mas, para entender melhor essa história, é melhor sacar a sua lupa de detetive, porque vamos ter de juntar muitas pistas!

O mistério da mosca na gaveta
Ilustração Daniel Bueno

Pista 1: a gaveta

A gaveta mencionada na abertura deste texto não era uma gaveta qualquer, mas uma das centenas de gavetas da coleção científica do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, que fica no Instituto Nacional da Mata Atlântica, na cidade de Santa Teresa, no Espírito Santo. Dentro dela ficou guardada, por cerca de três décadas, uma mosca coletada pelo especialista de campo Rogério Ribeiro, no final do ano de 1996. Quase três décadas depois, eu abri aquela gaveta e meus olhos logo foram atraídos para aquela mosca. Sua cabeça pequena, suas anteninhas totalmente amarelas e seu corpo com marcas amareladas, marrons e pretas não deixavam dúvidas: era uma mosca rara. Mas que mosca será essa? E de onde ela veio?

Pista 2: uma aranha?

Quem diria… Antes de ficar quase três décadas numa gaveta, aquela mosca vivia dentro de uma aranha! Ao analisá-la ao microscópio, ficou claro que ela pertencia à família Acroceridae, cujas espécies são conhecidas como “moscas-de-cabeça-pequena”, por terem mesmo a cabeça bem pequena. São chamadas também de “moscas-das-aranhas”, porque vivem sua fase de larva dentro de aranhas, como parasitas. Na verdade, as larvas dessas moscas são consideradas parasitoides, porque, além de viverem dentro de aranhas, elas sempre acabam matando a hospedeira ao final de seu desenvolvimento, quando se tornam moscas adultas. Mas como tudo isso acontece?

O mistério da mosca na gaveta
A mosca rara com suas anteninhas amarelas e corpo que lembra o de uma abelha.
Foto Danilo Cordeiro

Pista 3: a invasão

Há registros de que, quando uma fêmea adulta de mosca Acroceridae deposita seus ovos, a larva recém-nascida procura uma desprevenida aranha, e, sorrateiramente, zapt!, se agarra a ela. Aproveitando o momento em que troca de pele (a chamada “muda”), que é quando o corpo da aranha está mole e flexível, a larva entra nela, causando o menor estrago possível. Ela se alimenta dos tecidos da hospedeira e cresce até sair e completar seu ciclo de vida fora do corpo da aranha. Mas por que a história dessa mosca só foi revelada tanto tempo depois da sua coleta?

Pista 4: o nome

A mosca em questão não era apenas rara: ela era até então desconhecida para a ciência. Carinhosamente apelidada de “mosca-de-aranhas-teresense”, ela foi oficialmente nomeada Exetasis teresensis, em 2025, pelo pesquisador Danilo Cordeiro (que sou eu, o autor deste texto), numa referência ao local onde ela vive, o município de Santa Teresa, nas serras do Espírito Santo. O mistério da mosca que vive na aranha demorou a ser revelado porque esse tipo de relação é pouco estudado. É difícil observar diretamente esse comportamento nas florestas, mesmo ocorrendo em aranhas grandes, como tarântulas. Isso porque, mesmo parasitada, a aranha segue se comportando normalmente, pelo menos até a larva da mosca crescer o suficiente para decidir que chegou a hora de sair do corpo de sua vítima e bater as suas asas por aí. Por isso, cada novo registro traz pistas valiosas sobre como essas interações entre diferentes espécies ocorrem na natureza. Eureca!

O mistério da mosca na gaveta
Tarântulas também são parasitadas por moscas.
Foto Magnific

Análise de detetive

A descoberta de uma espécie desconhecida que ficou três décadas guardada, sem que ninguém percebesse, é um lembrete de que as coleções científicas podem conter segredos aguardando novos olhares. Muitos objetos de estudo já foram coletados e estão armazenados, mas nem sempre são reexaminados com atenção ou utilizando novas técnicas.

O gênero Exetasis, do qual faz parte a nossa mosca investigada, tinha poucas espécies conhecidas no Brasil, todas bastante raras. Com a descoberta da mosca-de-aranhas-teresense, mais um membro do grupo foi revelado, o que ajuda a compor melhor o quebra-cabeça da biodiversidade de moscas parasitoides de aranhas na Mata Atlântica. Esse conhecimento é essencial: não basta descrever espécies, mas entender onde ocorrem, como vivem e como se relacionam com a biodiversidade.

Uma das lições mais impressionantes dessa descoberta é o valor das coleções biológicas: elas guardam informações que muitas vezes não são totalmente estudadas no momento da coleta. Sem coleções, muitas espécies poderiam ser extintas sem nunca terem sido descritas pela ciência.

O mistério da mosca na gaveta
Gavetas da coleção científica do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, no Instituto Nacional da Mata Atlântica.
Foto Manuela Lima

Investigação contínua

A nova espécie de mosca abre portas para que sejam estudados aspectos biológicos ainda desconhecidos e para novas perguntas: qual aranha serve de hospedeira? Qual é a fase vulnerável da aranha que permite a larva entrar? Em que momento do ano ocorre esse parasitismo? Buscar essas respostas e formular novas perguntas ajuda a entender como funciona essa relação entre as espécies e como essa interação contribui para o equilíbrio dos ecossistemas na natureza.

A descrição da mosca-de-aranhas-teresense é só o começo. Agora, muitos caminhos podem ser percorridos com observações de campo, experimentos e uma pitada de sorte. É importante também realizar levantamentos em outras reservas e florestas da Mata Atlântica. Assim, é possível descobrir se essa mosca parasitoide tem distribuição maior do que o local onde foi encontrada. É possível também combinar o estudo da morfologia (forma, estrutura) e da genética (informações contidas no DNA), para esclarecer as relações de parentesco entre as espécies de Exetasis e entender melhor a evolução das relações ecológicas com as aranhas hospedeiras.

A partir de agora, ao entrar em um museu, você vai olhar com mais cuidado para aqueles insetos espetados na caixinha ou em uma gaveta, não vai? E, se decidir seguir o caminho da biologia, aposto que vai ter sempre aquela pulga atrás da orelha dizendo: “Atenção para as coleções! Espécies novas podem estar ‘adormecidas’ nelas!”. Ouça com carinho a sua pulga!

Coleção científica, o que é isso?

Um conjunto de itens catalogados e preservados com o propósito de servir de base para estudos científicos é uma coleção científica. O ponto de partida para este texto foi uma coleção entomológica, isto é, uma coleção de insetos. Mas existem coleções científicas das mais variadas, como coleção de plantas, de moluscos, de répteis, de fósseis, de minerais e rochas e muitas outras!

Danilo Pacheco Cordeiro,
Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA).

Matéria publicada em 01.10.2026

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