Uma história sobre liberdade

Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. O que esses países africanos têm a ver com o Brasil? Todos foram colonizados por Portugal e, além de outras línguas, também falam o português. Para conquistar sua independência, eles precisaram lutar. O povo precisou ir às ruas para provocar uma mudança de pensamento em toda a sociedade. Guiné Bissau conquistou sua independência em 1973. Mas isso só aconteceu para os demais Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) em 1975. Sim, essa é uma história recente sobre liberdade que, em 2025, completa 50 anos.

Ilustração Luci Sacoleira

A liberdade é um dos bens mais preciosos para a humanidade. Não é à toa que as batalhas mais sangrentas e grandes movimentos sociais foram impulsionados por esse sentimento. E não foi diferente para Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Para se tornarem livres da colonização de Portugal, foi preciso que uma grande parcela da população desses cinco países se engajasse na luta pela liberdade. 

Reféns do colonialismo – isto é, da dominação de seus territórios e de seus povos por uma nação estrangeira –, esses países viveram por um período longo sob leis criadas com o objetivo de inferiorizar e discriminar sua gente. Dentro de seus próprios países, cabo-verdianos, são-tomenses, angolanos, moçambicanos e guineenses eram vistos como “selvagens” e tratados como inferiores, enquanto pessoas brancas de origem europeia eram consideradas “civilizadas”, de hábitos superiores. 

Por causa dessa divisão social, muitas barreiras impediam os africanos de acessarem direitos básicos, porque as leis só beneficiavam as pessoas brancas europeias. Para se ter uma ideia, a população africana trabalhava em péssimas condições e não tinha acesso às escolas, mesmo pagando altos impostos. 

Mas como isso mudou? Com um longo processo, que incluiu avanços sociais, desafios políticos e, infelizmente, guerras, que só terminaram em 1975. 

Movimento pela libertação

Desde o século 19, a África foi partilhada por diferentes nações europeias, consideradas, na época, potências econômicas e políticas. A busca por matéria-prima, por maior poder político e territorial, assim como um ideal de civilização e de raça baseado nos moldes europeus, motivaram essa invasão. Embora os colonizadores tenham sempre enfrentado resistência dos povos africanos, eles conseguiram se estabelecer no território durante anos. Portugal foi o último país da Europa a perder suas colônias. E é essa história de luta que queremos contar aqui.

Por anos, Portugal controlou suas colônias, e coube aos africanos se mobilizarem de diferentes modos contra o colonialismo em seus países. Organizaram o processo de independência criando movimentos sociais e políticos que estimulavam a luta pela liberdade. Cansadas de serem tratadas de maneira diferente e desigual, com o preconceito racial e a violenta discriminação, as pessoas se organizaram e foram às ruas. Fizeram protestos culturais e políticos, e investiram na educação, na escrita, na música e na cultura como meios para criticar o sistema colonial. 

Dias de luta

Essas histórias de luta contra a opressão e pela valorização de seus territórios e culturas precisam ser conhecidas, assim como seus protagonistas. Personagens importantes, como Amílcar Cabral, nascido em Guiné-Bissau, que liderou, desde 1950, a luta pela liberdade em seu país de origem e em Cabo Verde, fizeram toda a diferença para a conquista da independência. Amílcar trabalhava na criação de associações de esporte e cultura, para que os africanos tivessem um pensamento livre, porque a liberdade era (e é) um direito de todos!

Líder guineense Amílcar Cabral.
Reprodução

Em 1961, foi a vez de a Angola dar o primeiro passo contra a presença portuguesa em seu território, estabelecendo uma guerra em suas fronteiras. Em seguida, outros países, também colonizados por Portugal, entraram na luta com um projeto em comum: a liberdade!

Os anos de guerra foram difíceis, e predominava a tristeza. Muitos perderam seus familiares, suas casas. Tiveram que se deslocar para lugares distantes e fugir dos efeitos do conflito, como a fome e a insegurança. Mas, por outro lado, tinham como incentivo o fim da dominação pelos colonizadores, o grande mal daquele período.

Em 1972, o povo foi às ruas pela independência de Angola.
Angola: investimento em educação para combater o colonialismo.
Fotos Uliano Lucas. Exposição Revoluções: Guiné-Bissau, Angola e Portugal (1969-1974), Museu Nacional da República.

Mulheres no combate

As histórias sobre as batalhas em nome da liberdade são, na maioria das vezes, contadas do ponto de vista dos homens, que eram maioria nos campos de batalha. Mas muitas mulheres também atuaram nesses combates e passaram a fazer parte de organizações políticas e culturais ao reivindicar direitos, como Josina Machel, da Frente de Libertação Nacional de Moçambique, e Deolinda Rodrigues, do movimento popular de libertação de Angola.

Todas essas lutas, que duraram anos, enfraqueceram o colonialismo português, que passou a enfrentar graves crises políticas internas. Os povos colonizados contestavam cada vez mais a autoridade dos colonizadores, e Portugal não teve outra saída senão reconhecer as independências dos países de língua portuguesa em 1975. Vitória!

O poder da cultura

Vale saber que a luta pela liberdade não acontecia somente em forma de batalha. As associações culturais, como as criadas por Amílcar Cabral, foram importantes para o fortalecimento de um pensamento que valorizava os países africanos. Movimentos literários, intelectuais e outras organizações mostraram o poder da cultura e utilizaram a palavra como arma fundamental contra o colonizador.

Dessa movimentação, surgiram partidos políticos, que incentivaram a criação dos estados nacionais no pós-independência. Até hoje, o movimento cultural é fundamental nesses países, que continuam fazendo de sua arte, música e escrita um lugar de crítica social e política frente aos novos desafios.

Partido Africano de Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde.
Foto Samuel Lavelberg/Fundo Voz da Unidade (AEL)

Futuro independente

Essas histórias de lutas recentes são inspiradoras! Mas é claro que muita coisa ainda não está resolvida. Hoje, esses países se encontram independentes, mas em estágios diferentes. 

Cabo Verde, por exemplo, avança na valorização da educação e busca cada vez mais transparência política. Já em outros países, como Moçambique e Angola, a política ainda é instável, a liberdade segue frágil e o Estado, vigilante. 

Por outro lado, embora a corrupção (que acontece quando os políticos não trabalham para melhorar o país, não respeitam as leis e até roubam a nação) seja um tema presente entre muitos desses países, podemos ver também o avanço da sociedade civil em diversas organizações. As questões de gênero e de direitos humanos, por exemplo, ganharam mais espaço. Aos poucos, todos os cinco países seguem o caminho da liberdade.

Independência de Moçambique

Para registrar o processo de independência de Moçambique, um dos países africanos de língua portuguesa, foi criada a exposição “Moçambique: Independência e Nação no AEL”. Para fazer uma visita, você pode clicar aqui. Há muitas coisas interessantes, incluindo uma lista de músicas que exaltam a liberdade, cantadas por cantores africanos e brasileiros. Ouça aqui!

Carolina Bezerra Machado
Centro de Ciências Naturais e Humanas
Universidade Federal do ABC

Matéria publicada em 31.10.2025

Comentários (18)

  1. leonardo vinicius posser flore

    eu a gei legau e bem creativo eu queria mais

  2. Amei,poderiam publicar mais sobre a Angola,gosto desse país

  3. Amei fiquei sem palavras

  4. Gostei muito da historia foi minha mamãe que leu pra mim.
    Gosto desse assunto eu tenho 9 anos e o meu irmão Tiago já estudou isso.

  5. Valdeci Luiz Fontoura dos Santos

    Viva todo o povo negro!!!

  6. foi muito legal eu queria conhecer um pouco mais

  7. eu amei a revista da consciensia negra amo vcs CHC

  8. eu gostei de ver as imagens,eu gostei mais da imagem que estavam querendo LIBERDADE

  9. RENNAN RIQUELME VARJÃO RODRIGUES

    Achei legal

  10. É Interessante e Legal. Eu Queria Mais!

  11. Eu gostei muito das informações sobre esse assunto. Eu amei muito obrigado!

  12. Achei muito interessante

  13. Eu achei muito interessante, eu queria ler mais sobre isso.

  14. Eu achei muito legal e foi bem interessante

  15. Muito interessante .

  16. Amei o conteúdo da notícia!

  17. Amei! Parabéns! Quero mais conteúdos assim

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