Um fim ao comércio de escravizados

Não foram 300 dias, nem 300 meses. Foi por mais de 300 anos que a prática de capturar pessoas no continente africano se deu. A crueldade de separá-las de suas famílias e levá-las à força para as Américas nos navios escravagistas é o que a história chama de tráfico transatlântico. As viagens eram longas e terríveis: as pessoas ficavam amontoadas nos porões, com pouca água e comida, e muitas morriam no caminho. Ao chegarem ao destino, eram vendidas como se fossem mercadorias e obrigadas a trabalhar sem salário e sem liberdade. Para pôr um fim à escravidão, o primeiro passo tinha de ser acabar com o tráfico transatlântico e, para isso, muitos acordos precisaram ser feitos. Escuta só…

Um fim ao comércio de escravizados
Ilustrações Luci Sacoleira

Você sabia que o Brasil foi o lugar que mais recebeu africanos escravizados? Isso é triste, mas é verdade. Foram quase cinco milhões de pessoas trazidas contra a própria vontade para o trabalho forçado em atividades como agricultura, mineração, entre outras. E era o tráfico transatlântico que mantinha a escravidão funcionando. Quando os escravizados fugiam ou morriam, os senhores mandavam vir outros da África. Por isso, acabar com esse comércio desumano de pessoas era o primeiro passo para acabar com a escravidão.

Oficialmente, o Brasil aboliu a escravidão em 1888, com a assinatura da Lei Áurea. Mas essa lei não surgiu de uma hora para outra. Antes dela, houve muitos acordos, outras leis e negociações, além da luta das próprias pessoas escravizadas, que resistiam fugindo, organizando revoltas e formando quilombos. A abolição foi o ponto final de um caminho longo, cheio de idas e vindas. Mas vamos por partes…

Uma lista de leis

Quando estudamos a escravidão e o tráfico de escravizados na escola, ouvimos falar de duas leis muito importantes: a Lei Eusébio de Queirós e a Lei Áurea. A Lei Eusébio, de 1850, colocou um ponto final ao tráfico de escravos para o Brasil. Depois de sua promulgação, o número de africanos que entrou no território brasileiro foi diminuindo ano após ano, até acabar. Já a Lei Áurea, de 1888, tornou totalmente ilegal a atividade escravista no Brasil.

Acontece que essas duas leis não foram as únicas medidas legais para barrar o comércio de escravizados e colocar um fim na escravidão. A Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários e a Lei Feijó-Barbacena são alguns exemplos de decisões legais que, ao longo do período imperial, trouxeram mudanças para as relações entre senhores e escravos, atualizando as regras pouco a pouco.

Além disso, os tratados assinados tanto por Portugal (quando o Brasil ainda era considerado colônia portuguesa) quanto pelo Império brasileiro também devem ser lembrados como compromissos para terminar com o tráfico escravista dentro de um tempo ou reduzi-lo. Para ficar mais claro, veja o quadro a seguir:

Um fim ao comércio de escravizados

De todas as etapas, uma das mais importantes, e talvez a menos lembrada, seja o acordo firmado entre o Império do Brasil e a Inglaterra em 23 de novembro de 1826. Vários são os motivos de sua importância para o estudo do tráfico de pessoas africanas escravizadas para o Brasil no século 19 e das relações internacionais entre os governos brasileiro e inglês.

Um acordo-recompensa

Para começar, o tratado entre Brasil e Inglaterra pode ser visto como uma “recompensa” aos ingleses pela ajuda que deram na negociação com Portugal dos acordos relativos à independência do Brasil. Você já deve ter estudado sobre o grito de “independência ou morte” dado por D. Pedro I às margens do rio Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Mas devemos lembrar duas coisas: o governante brasileiro, D. Pedro I, era português e membro da família real portuguesa, e a independência precisou ser não só lutada, mas também negociada.

Em 1825, Portugal e Brasil firmaram um acordo que garantia o reconhecimento da independência do Brasil mediante algumas reparações, como o pagamento de dois milhões de libras esterlinas (moeda inglesa) – uma fortuna para a época! Esse acordo ficou engavetado por, pelo menos, dois anos. Apenas com a intermediação inglesa o tratado foi assinado por brasileiros e portugueses.

Logo, o tratado de 1826 seria uma das “recompensas” que a Inglaterra ganhou com o desfecho favorável ao Brasil.

O interesse da Inglaterra

Mas você deve estar aí se perguntando por que a Inglaterra estava na liderança das ações pelo fim do tráfico de escravizados. Bom, em 1807, a Inglaterra proibiu seus próprios comerciantes de participar do tráfico de escravizados. A partir daí, acabar com esse comércio no mundo todo virou uma das principais metas do governo inglês. Naquela época, os ingleses estavam interessados em manter a população africana no seu lugar de origem, para explorar o continente diretamente. A Inglaterra fez acordos com países da Europa, reinos da África e governantes da Ásia. Esses acordos também davam à Inglaterra o direito de usar sua poderosa força naval, a marinha inglesa, para vigiar os mares e parar navios escravagistas.

No Brasil, a negociação desse tratado pelo fim do comércio de escravizados foi difícil, muito por conta dos diplomatas brasileiros, que queriam defender os interesses da jovem nação. A negociação durou de 1825 a 1827. Nesse meio tempo, houve diplomata inglês no Brasil passando dos limites, diplomatas brasileiros na Inglaterra reclamando, trocas de acusações e até mudança das pessoas que negociavam.

No final das contas, os ingleses conseguiram o acordo. Mas alguns brasileiros sentiram que esse tratado havia sido imposto pela Inglaterra e pelo próprio governo de D. Pedro I, que estava mais preocupado com seus interesses particulares do que com as consequências para a sociedade brasileira.

Um fim ao comércio de escravizados
Planta de um navio escravagista. Ilustração do livro Notícias do Brasil, de Robert Walsh, publicado no ano de 1830.
Imagem Wikimedia Commons
Um fim ao comércio de escravizados
Escravizados sendo levados para o porão de um navio escravagista. Ilustração de Joseph Swain (meados do século 19).
Imagem Wikimedia Commons

O desfecho

O acordo de 1826 entre Brasil e Inglaterra teve uma grande importância por ser a primeira negociação do Brasil como nação independente, soberana, dona de seus próprios interesses. Na prática, porém, ele não foi muito respeitado, porque o tráfico de escravizados seguiu acontecendo de forma, digamos, escondida. Ainda assim, houve consequência nas relações internacionais, e foi criada uma Comissão Mista de brasileiros e ingleses para julgar casos de navios capturados acusados de fazer tráfico escravista.

Como tentativa de fazer o acordo se cumprir, o Brasil criou a Lei Feijó-Barbacena, em 1831, que também foi pouco respeitada, mas fez com que o tráfico tivesse que funcionar na ilegalidade, usando portos e rotas clandestinas. O tráfico só terminou de verdade bem mais tarde, após a Lei Eusébio de Queirós, em 1850. Mas e a escravidão, que teve seu fim decretado com a assinatura da Lei Áurea, em 1888, será que ela acabou instantaneamente? Vale pensar, pesquisar, debater…

João Daniel Antunes Cardoso do Lago Carvalho,
Universidade Lusófona do Rio de Janeiro.

Matéria publicada em 02.11.2026

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