Peixe da escuridão

Peixe da escuridão
Piaba-branca (Stygichthys typhlops).
Foto Reprodução

Nome popular: piaba-branca

Espécie: Stygichthys typhlops

Tamanho: de 4 a 5 centímetros de comprimento

Classificação: criticamente em perigo

Ele vive onde a luz não chega. Não enxerga e passa a vida inteira escondido debaixo da terra. Por incrível que pareça, estamos falando de um peixe, a piaba-branca! Ele é encontrado no norte de Minas Gerais, na região de Jaíba, na água do subsolo.

Diferentemente da maioria dos peixes, a piaba-branca não nada em rios abertos ou lagoas iluminadas pelo Sol. Vive nos lençóis freáticos, que são reservas de água subterrânea guardadas entre as rochas. Essas águas alimentam poços e cacimbas que fazem parte da grande bacia do rio São Francisco. O mundo da piaba-branca é escuro, silencioso e muito estável, já que quase nada muda ao longo do tempo.

Peixe da escuridão
Debaixo do solo de Jaíba (MG), nos lençóis freáticos, vive a piaba-branca.
Foto Reprodução

Escondida no poço

A espécie foi descoberta por acaso, em 1962, quando moradores da região estavam bombeando água do subsolo. Junto com a água, surgiu um peixinho bem esquisito: claro, delicado e sem olhos. Anos depois, cientistas estudaram a espécie e perceberam que se tratava de algo raríssimo no planeta.

A piaba-branca é um peixe troglóbio, palavra difícil que significa “animal que vive somente em ambientes subterrâneos”. Ela nasceu, cresceu e evoluiu para viver no escuro total. Com o passar de milhões de anos, seus olhos desapareceram. Alguns ossos da região da cabeça também se perderam, deixando seu corpo ainda mais adaptado a esse ambiente especial.

Antigamente, os moradores locais viam a piaba-branca com mais frequência nos poços. Hoje, isso acontece cada vez menos. Algumas cacimbas secaram completamente, e o peixe tornou-se raro até para quem vive na região.

Feita para nadar no escuro

Como não enxerga, a piaba-branca depende de outros sentidos para sobreviver. Ela percebe vibrações na água, pequenos movimentos e mudanças ao seu redor. Assim, consegue encontrar alimento e se orientar mesmo sem luz. Outra coisa interessante é a forma como ela nada. Diferentemente de muitos peixes rápidos e agitados, a piaba-branca nada devagar e quase sempre no mesmo ritmo. Isso acontece porque, no mundo subterrâneo, a comida é rara. Economizar energia é muito importante para sobreviver. Nadar sempre na mesma velocidade ajuda a gastar menos energia e viver por mais tempo.

Piaba em apuros

Apesar de ser tão especial, a piaba-branca corre grande perigo. A região onde ela vive abriga muitas plantações irrigadas com enormes quantidades de água retirada do subsolo. Quando essa água é bombeada em excesso, o nível do lençol freático baixa, e os lugares onde a piaba vive podem secar. Além disso, produtos usados na agricultura podem contaminar a água subterrânea, prejudicando esses peixes tão sensíveis.

Proteger a piaba-branca é proteger um pedacinho invisível da natureza. Para isso, é preciso cuidar da água subterrânea, usar os recursos naturais com responsabilidade e estudar melhor esse peixe tão misterioso. Conhecer sua história nos ajuda a entender que até os lugares que não enxergamos – como o mundo subterrâneo – são cheios de vida, segredos e espécies incríveis que merecem ser preservadas.

Rodrigo Lopes Ferreira
Centro de Estudos em Biologia Subterrânea
Departamento de Ecologia e Conservação
Universidade Federal de Lavras

Matéria publicada em 04.05.2026

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