Etnoherpetólogo/a!

Ilustração Mariana Massarani

O nome dessa profissão pode lhe parecer novo (e estranho). Mas, na prática, os estudos etnobiológicos são muito antigos! O prefixo “etno” está relacionado ao estudo de diferentes sociedades, culturas e grupos. Portanto, existem diversos tipos de etnoprofissões! As ecólogas Beatriz Nunes Cosendey, do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e Vanderlaine de Amaral Menezes, da Unidade de Biologia da Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste, foram entrevistadas pela CHC para falar sobre a etnoherpetologia.

 

Etnoprofissões

A etnociência é uma ciência interdisciplinar, isso significa que ela pode ser estudada a partir do campo da música – “etnomúsica”; da alimentação – “etnogastronomia”; da medicina – “etnomedicina”; da biologia – “etnobiologia”, entre outras áreas. Dentro da biologia, é possível focar no estudo de diversos tipos de organismos, como plantas – “etnobotânica”; animais – “etnozoologia”; e o ambiente como um todo – “etnoecologia”.

Mas e a etnoherpetologia?! Beatriz dá a dica: “A nossa profissão estuda um ramo específico da etnozoologia, que se chama herpetologia! Quem trabalha com herpetologia pesquisa uns bichinhos muito legais, mas nem sempre muito queridos, que são as belas tartarugas, os lagartos, as cobras, os jacarés – que formam o grupo dos répteis – e também os sapos, rãs e pererecas – que formam o grupo dos anfíbios”.

 

O nome do bicho!

Quem trabalha com etnoherpetologia investiga a relação das pessoas com esses animais e o conhecimento que possuem sobre eles. Conversando com a comunidade e analisando o ambiente, podemos adquirir e desenvolver muito conhecimento. A partir daí, é possível entender, por exemplo, a época de reprodução dos tracajás, do que se alimentam os teiús e onde costumam ser encontrados os tamaquarés.

“As espécies que acabaram de ser citadas dão nome a um cágado e dois lagartos. Na etnoherpetologia também aprendemos muitos nomes diferentes para os bichos, que são os nomes vernaculares, ou nomes pelos quais as espécies são popularmente conhecidas. Podemos ainda conseguir relatos riquíssimos sobre o histórico de densidade desses animais. Por exmplo: ‘aquele lagartão ali… Antes costumava ter mais dele pela área?’ Se sim, o que será que fez a população dele diminuir? Dificilmente conseguiríamos planejar um estudo que abrangesse uma informação com tanto tempo de observação!”, conta Beatriz, relembrando uma pesquisa que realizou com comunidades indígena, quilombola e ribeirinha da Amazônia paraense sobre as espécies de lagartos locais. “Cada espécie de lagarto é única e tem necessidades específicas para a sua sobrevivência.  Assim, o conhecimento da ecologia e da história de vida desses animais é fundamental para a sua conservação!”, complementa Vanderlaine.

 

Animais estranhos?

Infelizmente, os répteis e anfíbios não costumam ser muito queridos. É comum que sejam desprezados por muitas pessoas que vinculam a eles uma imagem de seres estranhos e até do mal, seja por motivos religiosos, espirituais ou emocionais. Às vezes, devido ao medo que provocam, podem ser até maltratados ou mortos. Aí também entra a Etnoherpetologia!

“Essa Ciência busca compreender como esses animais são vistos pelas populações locais, entendendo o tipo de relação que os moradores possuem com eles. Para isso, investigamos as estórias, contos, lendas e afins em torno das diferentes espécies”, explica Beatriz.

Vanderlaine ainda ressalta: “Atualmente, muitas espécies estão sujeitas a mudanças nas condições físicas e climáticas dos locais onde vivem devido a degradação ambiental sem que saibamos as consequências para a adaptação das espécies.”

Imagine como essas informações são importantes em tempos onde espécies de répteis e anfíbios estão ameaçadas no mundo todo?!

 

Conhecer para proteger

Através do estudo do conhecimento que determinados grupos têm sobre os animais da sua localidade, os etnoherpetólogos reúnem informações importantes para ajudar a proteger as terras das comunidades tradicionais; divulgam novas formas de lidar com determinada espécie, para contribuir com a sua conservação; identificam possíveis crendices que podem contribuir para a extinção de algumas espécies e tentam conscientizar as pessoas; e, ainda, descobrem substâncias que podem servir de cura para muitos males!

Todos os dados desses estudos, no entanto, devem ser fielmente atribuídos aos povos que compartilharam tal conhecimento. “Os povos indígenas e outros povos tradicionais do mundo todo vêm se tornando cada vez mais empoderados com a disseminação dos etnoestudos, tornando-se agentes participativos das pesquisas e guiando a decisão sobre o tema a ser estudado. Entretanto, apesar de todo esse histórico, a etnoherpetologia ainda é um estudo pouco difundido aqui no Brasil, sendo mais trabalhado nas regiões Norte e Nordeste do país”, conclui Beatriz.

E você? O que achou dessa profissão?!

Cathia Abreu

Instituto Ciência Hoje

Matéria publicada em 28.09.2020

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