A farmácia natural dos animais

Seu cachorro está parado, mal levanta os olhos quando você chama… Seu gato nem parece o mesmo sapeca de sempre, anda esquisito… Seu jabuti faz dias que não come e não sai do mesmo canto… Quando você desconfia de que há algo errado com seu bichinho de estimação, a primeira coisa que lhe vem à cabeça é “marcar uma consulta com o veterinário”, certo? Mas e os animais soltos na natureza? Aqueles que não são de estimação, não tem donos e vivem soltos em matas ou até mesmo? Como será que eles fazem quando se sentem mal? Eles se viram! Como? Buscando remédios naturais. Essa atitude tem um nome na ciência: zoofarmacognosia!

Ilustração Mario Bag

A zoofarmacognosia (que palavra estranha, hein!?) é resultado de uma mistura das palavras gregas zoo (que significa ‘animal’), pharma (que pode ser traduzida como ‘droga’) e gnosis (que  quer dizer ‘conhecimento’) e se refere ao comportamento animal de automedicação. Ou seja: à descoberta, pelos animais, de elementos da natureza que servem como remédios para uma série de males que podem ocorrer com eles.

Há muito tempo, o comportamento de determinados animais é estudado, incluindo sua capacidade de “saber” o que utilizar para prevenir, aliviar ou curar algum problema de saúde.

Essa sabedoria dos bichos é útil até para os humanos, como na busca de plantas com propriedade medicinais.

Para gente e bicho também

Um estudo recente realizado no Brasil comprova o uso de várias plantas com propriedades medicinais tanto pelo Muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) quanto pelos moradores do entorno do Parque Estadual Intervales, município de Ribeirão Grande, em São Paulo. Na lista das plantas utilizadas pelo muriqui e pelos humanos estão:

a aroeira, usada como laxativo e com propriedades que diminuem o crescimento de micróbios nocivos à saúde;

► o reticueiro, uma planta que tem propriedades contra a malária;

► o tapiaeiro-miúdo, que é anti-inflamatório;

► o pinho-bravo, que tem ação antitérmica e antinflamatória.

Pinho-bravo
Foto Raffi Kajian/Wikimedia Commons
Aroeira
Foto Forest & Kim Starr/Wikimedia Commons

Doenças de bicho

Com toda a certeza, você já tomou um medicamento para baixar febre ou para combater algum tipo de verme. Também já deve ter usado algum xampu, sabonete ou loção para se livrar de piolhos. É ou não é? No seu caso, foi alguém responsável por você que tratou do problema. Pois os animais também sofrem com uma série de problemas, com a diferença que, por viverem soltos, eles se cuidam sozinhos, indo à melhor farmácia de todas: a própria natureza. O mais surpreendente é a como sabem usá-la bem!

Não pense que os bichos buscam determinadas plantas apenas quando comem algo que lhes cai mal. Os animais precisam se proteger de parasitas que atacam seus corpos por dentro e por fora, que podem infestar seus pelos ou penas, seus intestinos e até seus filhotes ainda em dentro da barriga. Os macacos já foram bastante estudados a esse respeito, mas a automedicação é feita por muitos outros bichos.

Macacos na frente

Casos de automedicação em primatas são os mais bem estudados. No final dos anos 1980, um chimpanzé claramente doente se alimentou da amarga folha de Vernonia amygdalina, um tipo de boldo, e logo se recuperou. Análise das fezes deste animal revelaram grande quantidade do verme Oesophagostomum stephanostomu, sugerindo que a planta tinha curado o chimpanzé. Estas observações, feitas pelo pesquisador Michel Huffman da Universidade de Kyoto, se estenderam para outros relatos de chimpanzés e Bonobos ingerindo folhas enroladas sem mastigá-las. Intrigado com este comportamento, Huffman novamente olhou as fezes destes animais e ficou surpreso ao encontrar as folhas, ainda inteiras, cobertas por vermes grudados nos ásperos micropelos destas folhas. Huffman concluiu que as folhas funcionavam como ’velcros’, grudando as larvas e vermes e livrando o animal de uma grande quantidade de parasitas.

Vernonia amygdalina
Foto Forestowlet/Wikimedia Commons
Foto Kabir Bakie/Wikimedia Commons

Farmácia natural

Já reparou como cães e gatos que vivem em casas com jardim, ou em lugares com plantas, têm o hábito de comer um pouquinho de grama? Essa prática parece estar ligada ao alívio de problemas de digestão.

Estudos mostram que a zoofarmacognosia, esse comportamento de se automedicar, está presente em mais de 200 espécies de aves. Algumas, por exemplo, constroem seus ninhos com determinadas ervas e plantas que podem impedir o crescimento de pulgas, carrapatos e piolhos. Outras aves se cobrem de formigas ou as esfregam em suas penas para se livrarem de parasitas.

Por incrível que pareça, até em invertebrados, a automedicação acontece. Insetos que podem ser alvo de parasitoides – isto é, insetos que se desenvolvem no ovo ou no corpo de outro inseto e o devora por dentro –, cuidam de seus futuros filhotes se alimentando de determinadas plantas antes de colocar seus ovos. Esses vegetais são ricos em substâncias protegem os ovos do ataque dos inimigos. Incrível, não?!

 

Uma mãozinha para a evolução

A zoofarmacognosia é estudada por pesquisadores de várias áreas diferentes. Como a automedicação gera uma vantagem para esses animais se adaptarem na natureza, o estudo deste comportamento também desperta interesse dos especialistas em genética e evolução.

De forma geral, quando pensamos em seleção natural imaginamos a relação entre predador e presa: quem vence a batalha pode deixar descendentes. Porém, conseguir se defender de doenças e parasitas também é uma forma de selecionar os mais adaptados e garantir a sobrevivência da espécie.

 

Um tema e tanto

O fato de os animais se automedicarem é um assunto tão interessante que, no ano de 2017, a Royal Society (Sociedade Real de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural) organizou um evento especialmente voltado para o tema. Nesse evento, vários pesquisadores trocaram informações e discutiram as vantagens da automedicação animal. Outra questão muito interessante é: como conhecimento sobre as propriedades das plantas é passada dos pais para os filhotes. Mas este assunto fica para uma nova conversa…

 

Ana Lúcia Giannini,
Instituto de Biologia,
Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Matéria publicada em 27.02.2019

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Adorei ler,esse texto é realmente muito interessante!

    Publicado em 11 de maio de 2019 Responder

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