Sono milenar

Para sobreviver a condições ambientais agressivas, algumas criaturas podem dormir por milhares de anos.

Permafrost é o nome da camada de solo que permanece congelada por milhares de anos nas regiões polares.
Foto Boris Radosavljevic/Wikimedia Commons

No círculo polar ártico, há uma camada de solo que permanece congelada há milhares de anos. Chamada de permafrost ou pergelissolo, essa camada funciona como um congelador, mantendo muito bem preservadas criaturas que viveram na última era do gelo, há dezenas de milhares de anos.

A maior parte das criaturas encontradas no permafrost não passam de fósseis, muitos deles em perfeito estado de conservação. Mas, nas últimas décadas, pesquisas científicas têm demonstrado que alguns destes organismos, apesar de congelados, estão na verdade… vivos! Se forem expostos a condições adequadas de temperatura e umidade, organismos como bactérias, sementes de plantas e musgos, que estavam congelados no permafrost há milhares de anos, podem simplesmente “despertar”. Mas como isso é possível?

Bem, quando as condições ambientais não são favoráveis à sobrevivência, algumas espécies são capazes de entrar em um estado semelhante a um sono profundo, em que seus órgãos funcionam muito lentamente. Dessa forma, eles conseguem economizar energia e aguardar até que as condições melhorem. Isso é o que acontece, por exemplo, com os animais que hibernam durante um inverno rigoroso ou uma seca severa.

Acontece que algumas criaturas, incluindo animais microscópios como rotíferas, tardígrados e vermes nematódeos, são capazes de entrar em um sono ainda mais profundo. Em um estado chamado de criptobiose, seus organismos praticamente param de funcionar, embora possam sobreviver assim por tempo indefinido.

Vermes nematódeos congelados no solo da Sibéria são os animais conhecidos que permanecem vivos há mais tempo no planeta.
Foto Scot Nelson/Flickr

Foi isso que alguns cientistas comprovaram recentemente ao estudarem nematódeos congelados no solo da Sibéria. Os vermes encontrados em tocas de roedores fósseis foram levados para laboratório e colocados em uma solução com água e sais minerais. Eles não apenas voltaram à vida, como também se reproduziram depois de alguns dias! Ainda mais surpreendente foi descobrir, através da datação do material vegetal encontrado na toca, que aqueles vermes estavam congelados há cerca de 46 mil anos! Isso faz deles simplesmente os animais vivos mais antigos do planeta!


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Vinícius São Pedro,
Centro de Ciências da Natureza,
Universidade Federal de São Carlos

Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.

Matéria publicada em 16.10.2023

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