Quero saber…

…se é verdade que a Doença de Chagas é transmitida pelas fezes.

Sim! Muitas doenças são transmitidas direta ou indiretamente pelas fezes. A doença de Chagas é uma delas, transmitida pelas fezes de um inseto da família Reduviidae, contaminados pelo o protozoário Trypanosoma cruzi. Esses insetos picam as pessoas no rosto, enquanto dormem, por isso são chamados de chupão ou de barbeiro. O barbeiro faz cocô no local onde suga o hospedeiro (a pessoa), que, ao coçar, ativa a ação do protozoário na pele ferida,  transmitindo a doença.

Outros insetos também transmitem micro-organismos que causam doenças por meio das suas fezes. A bactéria Bartonella quintana está presente nas fezes do piolho humano e do piolho que infesta os gatos. Essa bactéria é causadora da febre das trincheiras, também conhecida como febre de cinco dias ou febris quintana, que adoeceu os soldados da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. A pulga Pulex irritans também transmite doença através das fezes, recebendo as seguintes denominações: febre bubônica ou peste ou bubônica ou ainda tifo murino. A peste ainda não foi totalmente exterminada da nossa sociedade, pois ainda hoje ela pode causar a morte em alguns lugares do mundo. No passado, a doença dizimou parte da população da Europa entre os séculos 14 e 17.

Barbeiro
Foto Thierry Heger/Wikimedia Commons

…se existem besouros que se alimentam de fezes de outros animais.

Existem! Os famosos besouros-rola-bosta, insetos da subfamília Scarabaeinae, se alimentam do cocô de mamíferos. As fêmeas também aproveitam as fezes para colocar os seus ovos e, as larvas, quando saem dos ovos, também se alimentam das fezes.

Um rola-bosta é capaz de rolar com muita habilidade as bolas de fezes por vários metros até enterrá-las em galerias cavadas por ele mesmo, como você pode ver no vídeo disponível no site Diário de Biologia. Para rolar as bolas de fezes, os besouros andam de ré, utilizando as patas traseiras para orientar e as dianteiras para dar impulso. Ao enterrar as bolas de fezes, o rola-bosta reduz a presença de moscas que também podem colocar os seus ovos na bola de cocô e atrapalhar o desenvolvimento dos besouros.

Besouro-rola-bosta
Foto Hectonichus/Wikimedia Commons

…se realmente existem pílulas feitas de cocô!

Novamente, a resposta é sim! Dentro de nosso organismo há um mundo de bactérias, micro-organismos que, muitas vezes são bons para o nosso corpo. O conjunto desses organismos se chama microbiota, antigamente conhecida como flora intestinal. Se esses micro-organismos estiverem em desequilíbrio, a pessoa pode sofrer com obesidade e infecções recorrentes por bactérias que causam doenças, como Clostridium difficille. Esse micro-organismo provoca diarreia, cólicas e náuseas, incapacitando temporariamente a pessoa.

Embora alguns antibióticos caros sejam capazes de matar o Clostridium difficille, eles matam também outras bactérias benéficas da microbiota intestinal. Para lidar com este problema, algumas pesquisas recentes vêm demonstrando que a solução pode ser reequilibrar a microbiota intestinal com transplantes de fezes de um indivíduo sadio para outro. Pode parecer muito nojento, mas o tratamento costuma ter um ótimo resultado. Acontece que esses transplantes são muito caros e uma alternativa seria dar ao paciente uma pílula de fezes. De novo, parece nojento, mas tem dado certo! Esses comprimidos, geralmente produzidos como uma cápsula de gel, contêm micro-organismos da microbiota intestinal de pessoas saudáveis e já estão sendo testados com sucesso em pacientes com infecção por Clostridium difficile. Em alguns hospitais, já começa a se organizar um verdadeiro banco de doadores de fezes, no qual as bactérias são isoladas, processadas em laboratório e embaladas em cápsulas de gel bem revestidas, para que o conteúdo não se dissolva no organismo até que chegue ao intestino. É… O cocô também pode salvar vidas!

Foto Amanda Jones/Unsplash

Neuza Rejane Wille Lima
Suzete Araujo de Oliveira Gomes
Luiz Mors Cabral

Luiz Antônio Botelho Andrade
Helena Rodrigues Lopes
Otílio Machado Pereira Bastos


Instituto Biomédico,
Universidade Federal Fluminense.

Matéria publicada em 19.08.2019

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