Outro olhar para a independência do Brasil

A história da independência do Brasil é muitas vezes contada como se fosse um filme. Sua cena mais famosa é aquela em que Dom Pedro I, em cima de um cavalo castanho, levantou sua espada e gritou: “Independência ou morte!”. É sobre esse momento específico que o hino do Brasil fala logo em suas duas primeiras frases: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas. De um povo heroico o brado retumbante”. Independência ou Morte é também o título da pintura que retrata aquela cena que ocorreu há cerca de 200 anos, em 7 de setembro de 1822. Mas, afinal de contas, qual é a história por trás da famosa cena e qual a sua importância?

Detalhe do quadro A Proclamação da Independência, de François-René Moreaux, 1844

Em primeiro lugar, você precisa saber que o século 19 foi um período de grandes mudanças políticas. Em todo o continente americano as populações de várias colônias que viviam sob o domínio de impérios europeus lutaram para conquistar suas independências. Na época, surgiram países como os Estados Unidos da América, que era antiga colônia inglesa; o Haiti, que foi colônia da França; a Venezuela, que estava sob o domínio colonial espanhol, e muitos outros.

O caso brasileiro foi muito particular, pois sua independência foi alcançada em 1822, mas já havia deixado de ser colônia, resultado da chegada da família real ao Brasil. Foi mais ou menos assim…

Em 1808, a corte portuguesa deixou Portugal às pressas, fugindo das tropas do francês Napoleão Bonaparte que haviam invadido seu território. Foi uma longa travessia pelo oceano Atlântico até chegar ao Brasil. Alguns anos depois da chegada da corte em terras brasileiras, foi decretado que o Brasil não mais seria colônia, mas sim um vice-reino e sede do Império colonial português.

Após o fim das guerras de Napoleão na Europa, o inimigo francês foi derrotado, e a família real foi obrigada a retornar para Portugal. Com isso, muitos portugueses exigiram que o Brasil voltasse a ser colônia portuguesa. Essa exigência foi importante para motivar Dom Pedro I a dar o seu famoso grito nas margens do rio Ipiranga: “Independência ou morte!”.

A pintura e a realidade

Pesquisas históricas já revelaram que não foi o grito de Dom Pedro I que iniciou o processo de independência do Brasil em relação a Portugal. Havia algum tempo que partes da sociedade brasileira, como os políticos, já planejavam projetos de criação de um país independente. Eles queriam liberdade para governar e para fazer negócios com outros países, principalmente para vender produtos como açúcar, café, algodão e fumo.

Esses projetos de independência foram sobretudo planejados por homens muito ricos, que eram donos de fazendas enormes e que viviam da violenta exploração de pessoas escravizadas. Para declarar a independência, Dom Pedro I fez uma aliança com alguns desses homens.

A cena retratada na pintura Independência ou Morte indica um cenário pacífico, sem guerras e aclamado por todos os presentes. Mas, na realidade, a independência se deu a duras penas. A expulsão das tropas portuguesas se estendeu até os meses finais de 1823, com batalhas sangrentas em várias partes do território brasileiro, principalmente na Bahia e no Pará. Algum tempo depois, um movimento separatista – ou seja, voltado para a criação de um novo país separado do Brasil – liderado por pernambucanos, foi destruído por Dom Pedro I, que condenou seus principais opositores à pena de morte.

O quadro Independência ou Morte foi pintado, em 1888, por Pedro Américo. O artista buscava ilustrar uma cena importante da história da independência do Brasil, em 1822.
A embarcação representada fez parte do combate às tropas portugueses na Bahia.
Príncipe Regente Dom Pedro e Jorge de Avilez a Bordo da Fragata União, de Oscar Pereira da Silva, 1922.

Liberdade para quem?

Na época da proclamação da independência cerca de um terço da população que vivia no Brasil era formada por pessoas escravizadas, muitos eram africanos. Apesar de tão numerosos, pouco se fala da participação dos escravizados neste processo, mas pesquisas realizadas por historiadores mostram que, em diversos lugares, os cativos aproveitaram o momento das guerras de independência e lutaram por sua própria liberdade. Naquele período se tornaram mais intensas as fugas das fazendas e a formação de quilombos. Essas manifestações de rebeldia escrava indicam que, mesmo vivendo sob rígido controle de seus senhores e em condições extremamente ruins, os trabalhadores e as trabalhadoras escravizadas se organizavam e procuravam criar melhores condições de vida.

Mas, sim, essa independência que foi proclamada em 1822 foi mesmo dirigida em boa parte por senhores de escravos. E no ano em que o quadro Independência ou Morte foi pintado, em 1888, a escravidão ainda era permitida por lei no Brasil. Isso mostra que a independência não foi acompanhada por profundas transformações na sociedade e nas formas de exploração dos trabalhadores.

E depois?

Os principais impactos da independência foram políticos. O país foi fundado e foram colocadas em prática leis próprias, eleições, e também houve expansão na liberdade de expressão. No conjunto dessas transformações existia a esperança de que um novo país poderia vir à tona e abrir possibilidades de grandes mudanças sociais, como mais direitos para seus habitantes.

Acreditando que poderiam fazer parte da construção de um novo país, que viria a proporcionar uma vida mais digna para suas famílias, muita gente participou do processo de independência. Essas pessoas foram deixadas de lado na imagem da pintura Independência ou Morte. Quando o pintor Pedro Américo produziu o quadro, ele buscou mostrar Dom Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, como um herói, porque naquela época era assim que se narravam as histórias, deixando de lado o registro de partes importantes da sociedade.

Hoje, podemos contar a mesma história de outras maneiras, incorporando mais gente e observando por ângulos diferentes.

Felipe Azevedo e Souza
Departamento de História
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 01.09.2022

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