Do quilombo ao quilombola

Quilombola. Você já ouviu essa palavra? Sabe o que significa? Lendo-a em voz alta, você vai ver que ela é gostosa de pronunciar e que parece com outra que você talvez já tenha ouvido: quilombo – um termo usado, no tempo em que o Brasil era um império, para falar das comunidades de negros fugidos da escravidão. Hoje não temos mais imperador nem escravos, mas os quilombolas – aqueles que pertencem às comunidades negras rurais remanescentes de quilombos – estão aí, e têm novas histórias para contar!

Comunidade quilombola Kalunga, em Goiás. (foto: Fabio Colombini)

Comunidade quilombola Kalunga, em Goiás. (foto: Fabio Colombini)

Para começar a entender os quilombolas de hoje, é preciso voltar no tempo até a época dos quilombos e mocambos – essas duas palavras, que tem origem nos povos da África Central que falavam a língua bantu, significam acampamentos e aldeias. Como você já sabe, as expressões eram usadas para chamar as comunidades de escravos que escapavam do trabalho forçado e iam buscar sua independência. Quilombolas, você pode imaginar, eram os participantes dessas comunidades.

Os quilombos

Eram comunidades de fugitivos – existiram não somente no Brasil, mas, também, em outros países da América Latina que receberam escravos africanos nos séculos 16 a 19 – só que, nesses lugares, ganharam um nome diferente. Na Colômbia, por exemplo, foram conhecidos como palenques – seus descendentes ainda hoje estão presentes em várias comunidades nesse país, como a de São Basílio. Já na Venezuela, ganharam o nome de cumbes. E tinham outros apelidos em países como Cuba, Jamaica, Equador, Suriname, México…

No Brasil, quilombos e mocambos existiram aos milhares, de norte a sul. Eles acompanharam, no século 16, a montagem de engenhos e casas-grandes no Nordeste açucareiro, passando pelas fazendas de gado e lavouras de arroz e algodão, alcançando as áreas de mineração em Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, até surgirem as fazendas cafeeiras de São Paulo e Rio de Janeiro, no século 19.

Centenas de quilombolas habitam o Baixo Sul da Bahia. (foto: Acervo Koinonia)

Centenas de quilombolas habitam o Baixo Sul da Bahia. (foto: Acervo Koinonia)

Palmas para palmares

O mais conhecido quilombo no Brasil foi o de Palmares, em Alagoas, formado na Serra da Barriga, no final do século 16, e que durou mais de cem anos antes de ser destruído.

Os historiadores acreditam que sua população era de mais de 20 mil pessoas. Seus grandes líderes, Ganga-Zumba e – o mais famoso – Zumbi, lutaram para manter o território que demarcaram para viver em liberdade e também a autonomia de seus companheiros quilombolas, chamados palmaristas por causa do nome da comunidade.

Nos séculos 18 e 19, centenas de outros quilombos surgiram, alguns tão grandes como Palmares. Existiu o quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, e também o quilombo do Ambrósio, em Minas Gerais.

Todos livres. E os quilombos, como ficam?

Após a abolição da escravatura, em 1888, os escravos fugidos não tinham mais do que se esconder. Mas suas comunidades, já tão organizadas, persistiram, e seus descendentes continuaram vivendo ali. Juntaram-se a eles os escravos libertados pela lei, que ajudaram a formar pequenas sociedades negras nas áreas rurais de todo o Brasil.

Ruínas de uma senzala na Ilha da Marambaia/RJ. (foto: Daniela Yabeta)

Ruínas de uma senzala na Ilha da Marambaia/RJ. (foto: Daniela Yabeta)

Pela forte ligação com seu passado, essas comunidades continuaram sendo chamadas de quilombolas. Hoje, o maior complexo de quilombolas fica no sertão de Goiás. É formado pelos Kalungas, que moram nas localidades de Vão das Almas, Vão dos Moleques, Ribeirão dos Bois, Contenda e Kalunga.

Os quilombolas estão presentes, também, nas chamadas terras de preto, terrenos doados por seus donos em testamento para escravos e suas famílias antes da abolição. Muitos deles ainda precisam lutar pelo direito de ocupar as terras que foram doadas a seus avós e bisavós.

Brasil afora

As comunidades quilombolas, ao longo dos anos, mantiveram as tradições de seus antepassados por meio da história contada de pai para filho e criaram novos costumes. Hoje, continuam presentes em todo o Brasil.

As comunidades quilombolas mantêm as tradições de seus antepassados, como a de dançar o Jongo. (foto: Acervo Koinonia)

As comunidades quilombolas mantêm as tradições de seus antepassados, como a de dançar o Jongo. (foto: Acervo Koinonia)

Para você ter uma ideia, no Maranhão, há, pelo menos, 527 comunidades quilombolas distribuídas por 134 municípios. Os estados da Bahia, do Pará e de Minas Gerais contam, cada um, com bem mais de uma centena de comunidades quilombolas. E há dezenas no Rio de Janeiro, Alagoas, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Ceará, Sergipe, Amapá, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Amazonas, Santa Catarina, Paraná e Tocantins.

Comunidades negras rurais e quilombolas no Brasil (2012). (Levantamento CNPq/FAPERJ/UFRJ)

Comunidades negras rurais e quilombolas no Brasil (2012). (Levantamento CNPq/FAPERJ/UFRJ)

Todas elas continuam lutando, até hoje, para que seja reconhecido o patrimônio da sua história no passado e os direitos da sua cidadania no presente.

A luta dos quilombolas

A Constituição Brasileira de 1988 garante aos quilombolas o direito de herdar as terras ocupadas por seus antepassados e de que a sua cultura seja reconhecida como patrimônio cultural da nação.

Recentemente, em 2012, o Conselho Federal de Educação aprovou um programa nacional para educação quilombola em escolas das comunidades. Apesar do que está escrito na Constituição e da luta dos quilombolas por seus direitos, ainda falta muito para que eles sejam reconhecidos. De três mil comunidades quilombolas existentes, menos de 200 tiveram seus títulos de terra assegurados.

(Texto originalmente publicado na CHC 240.)

Matéria publicada em 21.11.2016

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Flávio Gomes e Regina Célia de Oliveira

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