Os tambores de Juriti

*Conto do povo Juruna

Os tambores de Juriti
Ilustração Santiago Régis

Juriti, ave mágica e protetora do povo Juruna, mandou avisar:
— Esses três tambores contêm toda a água necessária para a sobrevivência da aldeia. Recomendo não tocar neles.

Acontece que alertas desse tipo acabam despertando a curiosidade dos que se consideram mais destemidos. Foi esse o caso dos filhos do cacique…

A seca era forte naquele ano e a aldeia estava sofrendo sem água, com plantas e bichos morrendo. Não havia a comida e a abundância com as quais os indígenas estavam acostumados.

Foi então que os três meninos, considerados muito espertos, trataram de pensar numa solução para o problema. E não demorou para que um deles lembrasse:
— A aldeia tem água! Está bem aqui, nesses três tambores.

Os outros dois irmãos deram pra trás:
— Não podemos tocar nos tambores de Juriti, nosso pai não permitirá.

Além do respeito ao pai, corria na aldeia uma história bem impressionante envolvendo os tambores. Parece que, dentro deles, havia um peixe gigante, monstruoso, comedor de gente. Portanto, quem abrisse os tambores, soltaria a fera aquática.

Mas menino quando é danado ninguém segura. Assim, o mais novo dos três filhos do cacique, o que teve a lembrança, decidiu quebrar os tambores e, na presença dos irmãos, foi engolido pelo peixe gigante!

Os outros dois, aterrorizados, correram o quanto puderam, deixando rastros e aberturas no chão da mata. Foram em disparada contar ao pai o que tinha acontecido.

Desesperado, o cacique, clamou aos céus e solicitou a presença de Juriti para implorar por seu filho engolido pelo peixe-fera.

Juriti, soberana e sábia, analisou o caso e disse:
— Veja o rastro que seus filhos deixaram no caminho. Veja a água que agora corre no chão.

Das aberturas no solo, surgiram os rios Xingu e Amazonas, além de belas cachoeiras e córregos.

E, sim, Juriti perdoou a desobediência do menino caçula que teve boa intenção. Restaurou a vida dele, e a aldeia Juruna nunca mais passou sede.

*Essa história, contada pelo povo Juruna — que se autodenomina Yudja — é uma maneira encantadora de explicar o nascimento dos rios Xingu e Amazonas. Esta versão foi livremente adaptada pela CHC.

Matéria publicada em 01.04.2026

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