O passarinho

*Julia Lopes de Almeida

Ilustração Mariana Massarani

Ao ver o traiçoeiro disfarce com o que o pequeno Paulo preparara uma armadilha e caçara no quintal uma avezinha, chegou-se a ele a irmã mais velha e disse-lhe: 

– Que fizeste, Paulo?

– Apanhei este passarinho. Canta muito bem. Todos os dias o ouvia. 

– Mas se o ouvias todos os dias, para que o prendeste? 

– Para tê-lo na gaiola, ao pé da minha cama! 

– E achas isso bonito? 

– Acho. 

– Olha, vem cá. Vou contar-te uma história. Senta-te mesmo ali na grama, eu fico nesta pedra. 

– Conta depressa, Eugenia.

– Não sejas impaciente, escuta: era um dia um passarinho muito bonito, muito alegre, muito gorjeador. Ia todas as manhãs cantar perto da janela de um menino que se chamava José, mas que era muito mais lindo que o nome. Um dia, quando o pobre passarinho cantava, o pequenino agarrou-o, assim como tu, traiçoeiramente. Meteu-o numa gaiola pequena, com bebedouro de cristal e chão dourado. Mas desde então o passarinho emudeceu e ficou triste. Uma noite, sonhou o menino que a avezinha lhe segredava estas palavras ao ouvido: “Como tu foste cruel! Eu vinha contar-te todos os dias as minhas alegrias, deleitar-te com meu canto, e para me agradecer, prendeste-me! Onde está a minha liberdade? Onde está o meu ninho? Onde estará minha mãe?! Tiraste-me tudo! (…) Como foste ingrato! Eu morro… eu morro!”. (…)

José acordou espantado e correu para a gaiola. A avezinha tinha acabado de morrer, estava ainda morna e com o biquinho entreaberto. José desfez em prantos suas mágoas. Jurou não fazer mal aos animais. (…)

 – Choras, querido Paulo? Não vês que isto é uma história? Então… Mas, onde está a tua linda avezinha? 

– Deixei-a partir; ouvi-la-ei cantar de manhã cedo nos galhos da laranjeira!

*A escritora e teatróloga brasileira Julia Lopes de Almeida nasceu em 1862 e morreu em 1934. Uma marca de seus textos era a liberdade, principalmente dos escravizados. Neste conto sobre o passarinho, feito para as escolas do antigo ensino primário (atual ensino fundamental), observe que Julia também defende a liberdade e repare na linguagem ligeiramente diferente que marcava a sua época, mas que em nada atrapalha o nosso entendimento. Essas e outras histórias da autora, você encontra em Contos infantis em verso e prosa, publicado em 1905.

Matéria publicada em 31.01.2024

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

admin

CONTEÚDO RELACIONADO

Aves que semeiam

Sabia que algumas aves têm a capacidade de semear? Vamos descobrir quem são elas e como fazem brotar novas plantas!

Quando as mãos falam

Quem quer saber mais sobre a Libras, a Língua Brasileira de Sinais?