Centros de Ciências e Saberes no interior de Pernambuco conservam a cultura e marcam a resistência dos povos originários da bacia do rio São Francisco
Centros de Ciências e Saberes no interior de Pernambuco conservam a cultura e marcam a resistência dos povos originários da bacia do rio São Francisco

No sertão de Pernambuco, estado do Nordeste do Brasil, duas casas guardam um tesouro das comunidades indígenas. A preciosidade está nas histórias e culturas preservadas ali! Entre cocares, cachimbos, colares, maracás, arcos e flechas, esses espaços conservam a memória e o conhecimento dos povos originários da região do rio São Francisco.
Não à toa, esses lugares são chamados de “Centros de Ciências e Saberes”. Inaugurados oficialmente no fim de 2025, eles levam o nome e a referência de lideranças locais. Além de reunir uma diversidade de peças, são lugares de encontros e conversas, atividades de educação e de afirmação étnica e territorial dos povos representados ali. Quer saber como?
O Centro de Ciências e Saberes Casa de Memória Lindaura Tenório fica no município pernambucano de Jatobá, dentro do território indígena Pankararu Opará. Outro espaço aberto recentemente na região é o Centro de Ciências e Saberes Anciões do Ouricuri. Ele está localizado no território Taboa Pankararu, na zona rural de Petrolândia, no Vale do São Francisco pernambucano.
Nessa região de clima semiárido, com uma vegetação da Caatinga adaptada aos frequentes períodos de seca, as duas casas se destacam como “museus vivos”. Isso quer dizer que elas não se limitam apenas a guardar os objetos característicos das comunidades indígenas. São guardiãs das memórias e dos conhecimentos ancestrais, representando a luta e a resistência cultural, simbólica e física desses grupos hoje.


Esses dois espaços da memória ficam dentro dos próprios territórios indígenas, que são locais de ocupação ancestral e sagrada para esses povos. Embora já existissem no dia a dia das aldeias, foram formalizados como Centros de Ciências e Saberes pela história que protegem há centenas de anos. É uma forma de materializar a memória viva, falada e sentida pelos povos originários da região.
Essa foi uma iniciativa liderada pelos próprios povos indígenas, com apoio de entidades como a Nova Cartografia Social, a Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH) e a Superintendência do IPHAN em Pernambuco.
Os próprios indígenas fizeram o inventário dos acervos dos Centros de Ciências e Saberes e se encarregam de preservar esses espaços. Preservar os territórios, aliás, é algo que sabemos ser diretamente relacionado ao modo de vida indígena!
Nos Centros de Ciências e Saberes, as comunidades protegem seu conhecimento e fazeres tradicionais, como os modos de fazer trançado e cestaria. Abrigam também objetos que representam a tradição oral transmitida entre gerações.
Algumas peças são de uso no dia a dia, enquanto outras são reservadas a rituais. São pilões, trançados de Ouricuri (feitos com palha e linha), bolsa de palha, esteiras, panelas de barro, colares e chapéus. E ainda fotografias, roupas e diversos adornos.
Ao valorizar a cultura e a visão dos povos originários, esses centros criam uma barreira viva de proteção e cuidado do território, muitas vezes ameaçado por atividades como a mineração, o desmatamento, a especulação imobiliária e a presença de posseiros.
Os Centros de Ciências e Saberes ainda não são abertos à visitação do público geral, mas recebem visitas de escolas municipais e estaduais do campo e da cidade para atividades de educação, cultura, intercâmbio e troca de saberes. A ideia é que se estabeleçam, cada vez mais, como pontos de cultura e troca entre povos e comunidades tradicionais.
Há ainda um projeto de intercâmbio entre os centros e a Licenciatura Intercultural de Educação Escolar Indígena (LICEEI), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A ideia é criar uma troca da universidade com os conhecimentos tradicionais. Isso ajuda a proteger não só o passado preservado e o presente, mas também o futuro das comunidades indígenas do sertão.
Matéria publicada em 27.03.2026
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