Arte para reviver dinossauros

Antes que o título deste texto leve você a imaginar um laboratório em que cientistas tentam trazer dinossauros de volta à vida, acalme-se! A conversa aqui é sobre paleoarte, uma área que une informações científicas e conhecimentos artísticos para recriar seres que habitaram a Terra num passado distante. Sim, estamos falando de dinossauros e muito mais!

Ilustração Mariana Massarani

Desde que o primeiro dinossauro foi descoberto na Inglaterra, em 1824, o Megalossauro, paleontólogos sempre se perguntaram qual seria sua aparência, como vivia, e como se comportava no dia a dia. A curiosidade crescia em relação a outros dinossauros e outros animais extintos que iam sendo encontrados. Os esqueletos nos museus não bastavam, todos queriam imaginá-los vivos, correndo, lutando, dormindo ou convivendo com seus filhotes. Foi assim que nasceu um novo ramo de estudos na paleontologia, a paleoarte, que “dá vida” aos animais extintos e às paisagens em que viviam.

Dinossauros, assim como outros animais mortos há milhões de anos, não nos deixaram tudo o que gostaríamos de encontrar. Assim que morriam, seus tecidos moles – como pele, penas, músculos e todos os órgãos – eram atacados por animais carniceiros e bactérias, de forma que logo desapareciam. Quase sempre, sobravam apenas as partes duras, os ossos. E aprendemos muito com eles.

A primeira coisa que um esqueleto nos ensina é que um dinossauro viveu milhões de anos atrás na região onde aquele conjunto de ossos foi encontrado. Outras informações vêm do tamanho: garras enormes nos pés e nas mãos, dentes serrilhados, curvos e afiados, mostram que se tratava de um caçador; já dentes retos e em forma de espátulas em uma cabeça minúscula presa na extremidade de um longo pescoço sustentado por um corpo enorme são típicos dos grandes herbívoros. Chifres, espinhos e uma clava na extremidade da cauda mostram que alguns dinossauros sabiam lutar e se defender dos predadores. Além disso, estudando a forma das cicatrizes deixadas nos ossos pela pressão dos músculos, e comparadas à dos animais de hoje, é possível saber se os dinossauros eram fortes, ágeis, rápidos, e até mesmo se gostavam de nadar.

Outros vestígios

As partes duras não nos contam tudo, mas dão muitas pistas. É com os fósseis dos ossos que os paleoartistas dão o primeiro passo para entender a aparência geral dos dinossauros. Acontece que, além de esqueletos, as rochas guardaram algo mais.

Diferentes tipos de vestígios fósseis nos revelam outros segredos muito interessantes. Não são partes duras ou moles, mas as marcas que deixaram. Pegadas, ninhos, ovos, cocôs, cicatrizes de lutas, e até as marcas do xixi que fizeram são muito comuns. Elas não falam da aparência, mas do modo como os dinossauros viviam e se comportavam, enfim, o dia a dia deles. 

Sabemos, por exemplo, que dinossauros andaram por um deserto de dunas que existiu há 140 milhões de anos na região em que fica o Brasil. Embora nenhum osso tenha sido encontrado nas rochas do grande deserto, milhares de pegadas de grandes dinossauros herbívoros e de pequenos caçadores mostram que a vida era abundante naquela região. Os caçadores provavelmente perseguiam pequenos mamíferos, besouros, escorpiões e lagartos, e desenterravam larvas escondidas na areia. Chegamos a essa conclusão porque esses minúsculos animais também deixaram suas marcas, e porque eram a única fonte de alimento para os carnívoros. Já um grande dinossauro herbívoro deixou sua marca nas dunas quando o jato de seu xixi escavou um buraco na areia – sim, uma das duas marcas desse tipo conhecidas no mundo foi localizada em Araraquara, município do interior de São Paulo.

Marca de um xixi (urólito) de dinossauro descoberta em Araraquara-SP
Fotos Marcelo Adorna Fernandes/Reprodução
Pegadas de dinossauros com 140 milhões de anos encontradas em Araraquara-SP.

Ninhos e ovos

Outros vestígios nos mostram que, além de construir ninhos, os dinossauros chocavam seus ovos e cuidavam dos filhotes até que ficassem grandes. Veja o caso de um Oviraptor, um dinossauro que ficou conhecido como “ladrão de ovos”, que foi encontrado em rochas com 70 milhões de anos de idade na região da Mongólia pertencente à China. Sob seu esqueleto estavam 12 ovos em um ninho feito caprichosamente de terra batida. Durante uma tempestade no deserto onde vivia, ele se deitou sobre o ninho para proteger sua prole, mas uma espessa camada de areia o cobriu com seus ovos para sempre. Imagens de raio-x dos ovos revelaram embriões já formados, quase prontos para nascer.

Oviraptor sobre os ovos organizados em pares
Foto The Royal Society Publishing/Reprodução

Cores do passado

Uma característica dos dinossauros ilustrados que chama muito a atenção das pessoas são as cores. Será que é mesmo possível saber as cores que tinham, se possuíam manchas, listras, ou cores chamativas? A resposta é sim, mas nem sempre. Somente quando os melanossomos, estruturas muito pequenas que ficam no interior das células, são fossilizados. Somente os melanossomos podem informar as cores da pele ou das penas que cobriam o corpo dos dinossauros. Eles são raros, mas já foram descobertos em alguns dinossauros. São as variações no tamanho, na forma e no arranjo dessas estruturas microscópicas que determinam as diferentes cores.

O primeiro dinossauro a ter suas cores reveladas foi o chinês Sinosauropteryx. Era um pequeno dinossauro coberto com penas pequeninas, plumas de cor marrom clara, com faixas brancas na cauda e outra mais escura sobre os olhos, como uma máscara. Sabemos também que esse dinossauro vivia em campos abertos, pois a transição da cor marrom das costas para a barriga branca é radical, diferente da transição suave de cores que aparece em animais que vivem no interior de florestas.

Recriar dinossauros, portanto, é uma arte que exige muito conhecimento e pesquisa. Resultado da parceria entre paleontólogos e paleoartistas.

Sinosauropteryx, o primeiro dinossauro a ter suas cores desvendadas.
Ilustração Nato Gomes
“Babá” e filhotes de Psitacossauro
Imagem Universidade da Pensilvânia/Reprodução

Babá dinossauro

Na China, há cerca de 120 milhões de anos, ocorreu um deslizamento de lama na encosta de um vulcão, soterrando um ninho com 24 filhotes de Pstitacossauro. O único adulto encontrado sobre os esqueletos pertenceu a um dinossauro jovem, ainda incapaz de se reproduzir, que provavelmente cuidava dos filhotes enquanto os pais estavam fora em busca de alimento.

Luiz Eduardo Anelli
Estação Ciência
Universidade de São Paulo
Autor do livro O guia completo dos dinossauros do Brasil

Matéria publicada em 01.12.2023

COMENTÁRIOS

  • Luiz Eduardo Anelli

    Linda matéria, Dia desses vamos falar especificamente dos dinossauros do Brasil, quem sabe em uma coluna com dúvidas dos leitores. Um abraço a todos!!

    Publicado em 6 de dezembro de 2023 Responder

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