Bate-papo sobre mel e abelhas

Viver entre as abelhas e o gostinho doce do mel: assim é a vida do meliponicultor, nome dado ao criador de abelhas do gênero Meliponini – o das abelhas sem ferrão. Mais que um amigo das abelhas, esse profissional trabalha para que elas procriem, se desenvolvam e produzam mel na mais perfeita segurança. Para entender melhor o dia a dia do meliponicultor, a CHC conversou com Sebastião Ramos Gonzaga, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no Paraná. Veja só o que ele contou!

Meliponário localizado na Universidade Federal do Paraná, campus Litoral. (foto: Solange Reiguel Vieira / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/br>CC BY-SA 2.0</a>)

Meliponário localizado na Universidade Federal do Paraná, campus Litoral. (foto: Solange Reiguel Vieira / Flickr / CC BY-SA 2.0)

CHC: O que exatamente um meliponicultor faz?
Sebastião Ramos Gonzaga: O meliponicultor é um criador de abelhas nativas do Brasil. As nativas são aquelas abelhas que já estavam aqui no Brasil muito antes de Dom Pedro II ter determinado, pelo Decreto 72, de 12 de julho de 1839, que as abelhas do gênero Apis (com ferrão) fossem trazidas de Portugal, pelo padre Aureliano Pinto Carneiro. Essa viagem foi feita de navio e demorou aproximadamente quatro meses.

Onde trabalha o meliponicultor? Qual o principal cuidado que esse profissional precisa ter?
O meliponário é o local de trabalho do meliponicultor. Ele deve possuir um depósito com caixas para ferramentas e para guardar a alimentação das abelhas para períodos de escassez – ao longo do inverno, durante chuvas prolongadas ou secas exageradas, quando falta néctar das flores. Todas as manhãs, é preciso fazer uma vista ao meliponário e estar sempre atento aos predadores, especialmente as abelhas sem ferrão Lestremellita listremelitini, conhecidas como abelhas-limão.

Essas abelhas espertinhas não possuem corbícula – uma espécie de cestinha para guardar pólen –, o que lhes dificulta a coleta do material. Então, roubam a reserva de mel e pólen das outras abelhas sem ferrão (mandaçaias, jataís, mirins etc.) e estocam na sua colmeia. O meliponicultor deve sempre estar atento a esse e aos demais predadores, que são formigas e alguns pássaros como bem-te-vi, siriri, alma-de-gato e pica-paus.

Abelha mandaçaia (<i>Melipona quadrifasciata</i>) com a corbícula cheia de pólen. (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Abelha mandaçaia (Melipona quadrifasciata) com a corbícula cheia de pólen. (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Quais são as habilidades necessárias para seguir essa profissão?
É importante conhecer bem os meliponídeos, em especial as espécies que deseja ou pretende criar. O profissional precisa ir atrás do conhecimento da sua biologia, descobrir as características e o jeitinho das abelhas.

E o que você mais gosta no seu trabalho?
Quando vou fazer a divisão de uma colmeia para formar uma nova colônia, coloco o novo enxame em uma caixa de madeira bem grossa. Uma vez alojada na nova casa, observo, observo e observo até que apareça a abelha rainha. Quando a abelha rainha nasce, ela é a menorzinha de todas, e depois de fertilizada torna-se a maior! Este é o ponto alto do processo. Não precisamos tirar um novo enxame da mata, basta criar um novo.

Ninho de abelhas mandaçaia visto por dentro. (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Ninho de abelhas mandaçaia visto por dentro. (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Qual a importância da atividade dos meliponicultores?
Ajudar na distribuição das abelhas sem ferrão na natureza. Essas abelhas fazem um serviço gratuito de polinização, proporcionando sementes férteis para até quatro gerações de plantas. Ora, sem sementes férteis nas matas não teremos reposição florestal, o que gera a degradação do ar que respiramos e também provoca a diminuição da água nos córregos, rios e ribeirões.

Abelha jataí (<i>Tetragonisca angustula</i>). (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Abelha jataí (Tetragonisca angustula). (foto: Sebastião Ramos Gonzaga)

Qual é o maior desafio do meliponicultor?
Conciliar sua criação, as abelhas, com o maior predador: o próprio homem. Os seres humanos desrespeitam as leis ambientais e devastam de forma significativa o hábitat desses insetos. As abelhas são vitais para manutenção dos ecossistemas e sem elas o mundo ficaria mais triste – e menos doce!

Matéria publicada em 27.07.2015

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Everton Lopes

Adoro viajar e ler. Quando era pequeno queria ser escritor, hoje, posso escrever sobre um monte de coisas novas que eu descubro aqui na CHC!

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