Sem a casa nas costas

Um fóssil de tartaruga sem casco foi recentemente descoberto na China.

Reconstituição da tartaruga sem casco, Eorhynchochelys sinensis,encontrada na China.
Imagem IVPP/Chinese Academy of Science

FICHA TÉCNICA

Nome: Eorhynchochelys sinensis
Origem: China
Tamanho: pouco mais de 2 metros de comprimento
Peso: não se sabe
Época em que viveu: há 228 milhões de anos (Período Triássico)

 

As tartarugas, também chamadas de quelônios, são répteis que habitam os mares (tartarugas marinhas), a água doce(cágados) e a terra(jabutis). O casco, que tem a função de proteger o animal, é uma característica comum a todos eles, assim como o bico duro e sem dentes.Então, para ser uma tartaruga é preciso ter um bico desse jeito e um casco, certo? Errado! As primeiras tartarugas que habitaram o planeta há milhões de anos não possuíam casco. Vamos entender melhor…

Outra reconstituição da tartaruga sem casco, Eorhynchochelys sinensis, encontrada na China.
Imagem Adrienne Stroup/Field Museum
Foto do fóssil de Eorhynchochelys sinensis.
Foto Nick Fraser/National Museums Scotland

A nova descoberta

Um fóssil de tartaruga de 228 milhões de anos foi recentemente descoberto na China. Esse achado revolucionou o que os pesquisadores conheciam sobre o início da evolução desse interessante grupo.O novo achado é considerado o registro mais antigo já descoberto de uma tartaruga. Curiosamente, apesar de possuir um bico parecido com o das tartarugas de hoje, Eorhynchochelys também tinha alguns dentes na parte de trás da boca. Além disso, esse animal não tinha casco, ao contrário das tartarugas atuais.

De onde vem o nome?

Esta nova espécie de tartaruga foi batizada de Eorhynchochelys sinensis. O nome vem do grego: “Eo” significa cedo, prematuro, inicial; “rhyncho” significa bico; “chelys” é tartaruga; e “sinensis”quer dizer que é natural da China. Traduzindo o nome completo: “primeira tartaruga com bico proveniente da China”.

Onde já se viu, tartaruga sem casco?

Você deve estar se perguntando como sabiam que o fóssil era de uma tartaruga se não tinha casco? Estudos anteriores apresentaram alguns fósseis transicionais, isto é, com características que nos ajudam a entender a evolução das tartarugas a partir de comparações entre eles. As pesquisas revelaram que os ancestrais das tartarugas tinham costelas alargadas.Ao longo de milhões de anos, seus descendentes foram desenvolvendo costelas cada vez mais largas na parte de cima do tronco que acabaram se unindo e formando a carapaça. Antes disso, na região da barriga, formou-se o plastrão (a parte de baixo do casco de uma tartaruga). Outra espécie (Odontochelyssemitestacea), descrita há dez anos, e um pouco mais recente que Eorhynchochelys, tinha plastrão (a parte de baixo do

casco), porém não tinha carapaça (a parte de cima). As duas espécies possuíam costelas alargadas, no entanto, Eorhynchochelys não tinha carapaça e, provavelmente, nem o plastrão (mas essa parte do corpo não é bem preservada neste fóssil, veja a figura acima). Conclusão: nem sempre as tartarugas tiveram casco! Com o passar de mais alguns milhões de anos, as largas costelas das costas se uniram formando a carapaça e se ligaram ao plastrão, dando enfim, origem ao casco.

 

E o bico?

A descoberta de Eorhynchochelys sinensis nos ajuda a entender a origem do bico das tartarugas. Esse fóssil tinha um bico desenvolvido, mas não tinha um casco completamente formado. Então, fica claro que o bico das tartarugas surgiu antes do casco.

 

Reconstruindo o passado

O fóssil da Eorhynchochelys sinensis foi encontrado em uma rocha que fazia parte de um ambiente marinho, indicando que poderia ser um animal aquático. No entanto, outras características dos ossos do animal, como as largas costelas e grandes membros, indicam que ela também poderia habitar a terra. Dessa forma, os paleontólogos sugerem que ela provavelmente habitava ambientes costeiros, nadando no mar raso, mas explorando também áreas terrestres próximas.Alguns répteis de hoje possuem um estilo de vida parecido, como o crocodilo-de-água-salgada e a iguana-marinha-de-Galápagos.

 


Natália Benevenuto e Pedro Romano,
Departamento de Biologia Animal,
Universidade Federal de Viçosa.

Saiba mais sobre tartarugas do passado e do presente em:
http://chc.org.br/tartarugas-de-ontem-e-de-hoje/
http://chc.org.br/edicao/256/

Matéria publicada em 28.09.2018

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