Quem mora no sambaqui?

Se você olhar de longe, parece um morro. Se chegar mais perto, verá que não se trata de um monte de terra qualquer: há ossos, conchas e pedras. Esse morro diferente é chamado sambaqui! E quer saber mais?Os sambaquis nos dizem muito sobre a história humana e da natureza em geral. Vamos conhecê-los melhor?

Ilustração Mariana Massarani

Muito antes de os portugueses chegarem ao Brasil, até mesmo antes de existirem os índios que habitavam o nosso litoral, vivia, próximo às praias, um povo pré-histórico que os pesquisadores chamaram de sambaquieiro. O nome foi dado porque esse povo tinha o costume de fazer grandes montes de conchas e outros materiais, os chamados sambaquis. Na língua tupi, sambaqui significa justamente “amontoando de conchas”.

Os sambaquieiros costumavam enterrar seus mortos e acender fogueiras nos sambaquis. Isso leva os pesquisadores a acreditarem que os sambaquis representavam uma cerimônia de despedida, algo semelhante aos nossos enterros.

Os sambaquis são uma amostra importante do comportamento e dos hábitos dos povos que os construíram. Eles incluem, por exemplo, pontas de flechas e outros artefatos, além de muitos, muitos restos de comida: carapaças de crustáceos e ouriços-do-mar, espinhas de peixes e ossos de aves e mamíferos.

Os amontoados iam surgindo próximos aos locais em que havia bastante alimento. Por isso, muitos sambaquis são encontrados perto de baías, lagoas e de ambientes aquáticos onde as águas doce e salgada se encontram – nesses ambientes há muita quantidade e diversidade de bichos aquáticos.

Sambaqui, em Tupi, signifca amontoado de conchas.

Atualmente, alguns sambaquis foram destruídos e outros viraram museus como o ‘Sambaqui da Tarioba’.

Para jantar… frutos do mar!

Os sambaquieiros comiam vários animais marinhos, incluindo mexilhões, ostras e caracóis. Já reparou uma coisa que todos esses serem marinhos têm em comum? Conchas!Ao contrário das partes moles do animal, as conchas não eram comidas e nem desapareceram na terra com o passar do tempo. Elas permaneceram ali, para contar a história dos sambaquieiros, o que eles comiam e do que ali existia para comer…

Os sambaquis são conhecidos e pesquisados há cerca de 100 anos.Com base neles, é possível saber mais sobre a pré-história, especificamente sobre o período do Holoceno, que compreende os últimos 11 mil anos da história da Terra. Existem centenas de sambaquis no Brasil, principalmente na região costeira, que vai desde o Espírito Santo até o Rio Grande do Sul. Os mais antigos, têm cerca de oito mil anos.

Recentemente, alguns pesquisadores resolveram usar os sambaquis não só para conhecer a história dos homens, mulheres e crianças daquele tempo, mas também para saber um pouco mais sobre as espécies animais das quais eles se alimentavam e, assim, de como era o meio ambiente milhares de anos atrás.

 

Ponte para o passado

Ao analisar as conchas dos sambaquis, os pesquisadores têm uma indicação de que espécies de moluscos habitaram o litoral brasileiro na época em que eles foram construídos. Não dá para dizer que todos os organismos marinhos daquela época estão representados ali. Afinal, só aparecem nos sambaquis os seres que faziam parte dos hábitos alimentares dos sambaquieiros.

Mesmo assim, o estudo nos dá pistas sobre o meio ambiente de milhares de anos atrás.

Por exemplo:em estudos recentes realizados no Brasil, cientistas viram que as espécies encontradas nos sambaquis permanecem ainda hoje em nosso litoral, o que indica que os ambientes costeiros eram, naquela época, semelhantes ao que vemos atualmente.

Uma coisa, porém, está mudando: a interferência do ser humano sobre a natureza é cada vez maior, pois pode ser observada uma leve diminuição na diversidade de espécies de moluscos encontrada nas praias brasileiras hoje em relação ao passado.

Ao analisar as conchas dos sambaquis, os pesquisadores descobrem as espécies de moluscos que habitavam o litoral.
Fotos: Rosa Cristina Correa Luz de Souza e Zoneibe Augusto Silva Luz

O ontem pode ajudar o hoje

Conhecer as espécies que habitaram determinadas regiões no passado é muito importante para avaliar o impacto das ações humanas sobre a natureza ao longo dos anos. Afinal, é preciso observar se atividades como pesca, caça, turismo e outra, estão causando perdas irreparáveis para o ambiente. Além disso, o estudo da fauna e da flora do passado ajuda a traçar estratégias de conservação da natureza que podemos colocar em prática no presente.

 

Edson Pereira da Silva
Tate Aquino de Arruda
Michelle Rezende Duarte

Departamento de Biologia Marinha
Universidade Federal Fluminense

História em camadas

Os sambaquis, em geral, têm o formato de um cone arredondado. Os tamanhos são variados: algumas dezenas de metros de diâmetro na base e alturas que vão dos dois aos 25 metros.

Uma característica interessante dos sambaquis é que eles foram conservados naturalmente por vários milhares de anos, e guardaram lembranças de diferentes gerações dos povos sambaquieiros que ali viveram, além de sua cultura. A cada geração, o sambaqui continuava por cima do amontoado anterior, de tal forma que inúmeras camadas se formaram ao longo do tempo. Assim, se cortássemos um sambaqui como a um bolo de aniversários, veríamos direitinho as diferentes camadas de recheio: chocolate, coco, nozes… Cada uma delas equivalente a um tempo diferente.

Matéria publicada em 24.09.2018

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