Pequenos animais que movem o mundo

Um dos biólogos mais famosos do mundo, o norte-americano Edward Wilson, uma vez falou que insetos, caranguejos, minhocas e uma infinidade de pequenos animais movem o mundo. Ele estava chamando a nossa atenção para o valioso papel desses seres miúdos, que mal percebemos, mas que estão o tempo todo polinizando as plantas para que produzam frutos, movendo o solo e ajudando a transformar restos de animais e plantas em adubo. Eles são pequenos no tamanho, mas grandes em importância para a dinâmica da natureza.

As formigas estão entre os representantes dos pequenos animais que movem o mundo. A formiga-de-correição (Eciton burchelli) forma colônias de até 450 mil indivíduos.
Foto Paulo Robson de Souza

Você deve estar pensando: como é mesmo que esses pequenos animais movem o mundo? A pergunta não tem uma única resposta, porque esses seres miúdos, na comparação com o tamanho dos humanos, praticamente dominam a Terra! Olha que incrível: se comparamos o número de espécies de insetos ao de mamíferos conhecidos pela ciência, os insetos ganhariam de goleada! São mais de 900 mil espécies diferentes de insetos para somente 6.500 mamíferos! E olha que os cientistas calculam que deve haver ainda de 9 a 11 milhões de animais a serem descobertos ou descritos nos continentes e oceanos! A maioria, pequenos animais com certeza!

Mas… o quanto os insetos e outros pequenos animais mudam o mundo? Para termos uma ideia, encontramos em estudos científicos algumas curiosidades sobre quatro grupos que participam todo dia da mudança do nosso mundo: minhocas, crustáceos, formigas e abelhas. O que vamos ver agora é só uma amostra do tanto de coisas que esses animais fazem!

 

Minhocas terrestres

Você pensa que minhoca é tudo igual? Não! Essas que vemos nas hortas e jardins formam um grupo de nome bonito, Crassiclitellata, com mais de 6 mil espécies, quase todas terrestres. Só no Brasil são mais de 300 espécies de minhocas diferentes!

Além da merecida fama de adubar os solos, minhocas são consideradas engenheiras de ecossistemas: escavam túneis, reviram, ventilam a terra e constroem montinhos acima do nível da água, evitando o alagamento da sua morada. Tudo isso é uma baita ajuda para a agricultura!

Em um quadrado de pouco mais de um metro de lado, cerca de 1.200 minhocas-vermelhas-da-Califórnia conseguem transformar 90 quilos de esterco bovino em 50 quilos de húmus em apenas dois meses, no verão (quando são mais ativas). O húmus é um fertilizante natural super importante para a natureza.

No mundo todo, há mais de 6 mil espécies de minhocas.
Foto Paulo Robson de Souza

Crustáceos

Se os 86 tipos de eufausídeos (conhecidos como “camarãozinho krill”) fossem extintos, os oceanos entrariam em colapso por falta de alimentos e muitos peixes, lulas, focas, pinguins e baleias também desapareceriam. Para se ter uma ideia, a biomassa – a matéria que forma os seres vivos – do krill antártico deve pesar mais de 500 milhões de toneladas – isso corresponde a quase o dobro da biomassa de todos os seres humanos.

Em 2014 foram pescados, mundo afora, quase 7 milhões de toneladas de camarões, caranguejos, lagostas e outros crustáceos marinhos e de água doce.

Caranguejos revolvem o solo, permitindo a entrada de oxigênio.
Foto Paulo Robson de Souza

Formigas

As formigas merecem destaque! Apesar de pequenas, elas são tão numerosas que, para cada quatro quilos dos animais que há no mundo, aproximadamente um quilo é de formigas. Os cientistas estimam que haja 21 mil espécies de formigas no mundo. Se fôssemos ver uma foto dessas por dia, levaríamos quase 50 anos para ver todas. Elas são o principal alimento para centenas de animais. Só no Brasil há 45 aves diferentes – chamadas papa-formigas, formigueiro ou papa-taoca (do tupi taóka, formiga-correição) – que sobrevivem comendo formigas.  lagarto-de-chifres-do-Texas e o pangolim também vivem de comer formigas! Já o tamanduá-bandeira pode consumir mais de 30 mil formigas por dia – além de cupins, que ele adora!

Uma colônia da formiga-correição Eciton burchellii pode ter 450.000 indivíduos. Credo! É quase o número de habitantes de Mogi das Cruzes, em São Paulo!

A atividade das formigas-cortadeiras trazem benefícios para a vegetação.
Foto Paulo Robson de Souza

Apesar de as formigas-cortadeiras usarem talos, sementes, folhas e flores para o cultivo de fungos, no final da história, as sementes espalhadas mato afora, o solo revolvido e o adubo resultante dessa atividade trazem benefício à vegetação. Inclusive, solos com um formigueiro da saúva-limão têm mais nutrientes e matéria orgânica do que quando não têm formigueiro. A terra que as saúvas escavam e depositam nas aberturas do formigueiro pode até mudar a paisagem. Repare, na foto feita no Chaco Brasileiro, que é extremamente plano, o tanto que o formigueiro de Atta saltensis alterou o nível do terreno (compare-o com o tênis número 38 do lado esquerdo)!

Repare no tamanho deste formigueiro de Atta saltensis, uma formiga-cortadeira. Apenas metade dele coube na foto.
Foto Paulo Robson de Souza

Abelhas

De cada 100 tipos de plantas que produzem frutos ou sementes para consumo humano no mundo, 75 dependem de abelhas ou de outros animais polinizadores. No Brasil, a produção de frutas como melancia, ameixa e maçã diminuiria muito sem as abelhas. Sem as mamangavas, por exemplo, quase não se produz maracujá!

Jataí, uruçu, mandaçaia e jandaíra são algumas das cerca de 300 espécies de abelhas sociais encontradas no Brasil. Conhecidas por abelhas-sem-ferrão ou indígenas, algumas destas chegam a ter dez mil abelhas numa colmeia. Apenas uma colônia de jataí consegue polinizar 1.500 pés de morango.

A polinização das abelhas jataí favorece os morangos!
Foto Paulo Robson de Souza

Olhar para os valores dos pequenos seres pode ser a chave para entendermos o quanto somos importantes para eles e eles para nós. Olhar para os detalhes, para seu trabalho quase invisível que move o mundo, nos abre parte do universo da biodiversidade.

Paulo Robson de Souza
Laboratório de Prática de Ensino
Instituto de Biociências
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Fábio de Oliveira Roque
Laboratório de Ecologia
Instituto de Biociências
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Jacques Delabie,
Laboratório de Mirmecologia CPDC/Ceplac,
Programa de Pós-Graduação em Zoologia,
Universidade Estadual de Santa Cruz.

Matéria publicada em 28.12.2020

COMENTÁRIOS

  • Tércio

    Parabéns aos autores. Muito interessante e curioso a importância desses animais para a natureza e seres humanos!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      É verdade, Tércio. Grato;

      Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

    • Claudio Vereza

      Excelente artigo, muito esclarecedor. As formigas, por exemplo, são consideradas pelo senso comum como vilãs, inimigas. Valeu!

      Publicado em 10 de janeiro de 2021 Responder

      • Paulo Robson de Souza

        Gratos, Claudio! De fato, é uma grande injustiça para com esses seres que tanto ajudam no equilíbrio ambiental. Abraços.!

        Publicado em 15 de janeiro de 2021

  • Mauricio

    Riquíssimo conteúdo de acesso livre. Excelente.

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos pela atenção, Maurício! A CHC é ótima! Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Suelen Sandim

    Que delícia de leitura.

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos, Suelen! Que bom que gostou!

      Publicado em 8 de janeiro de 2021 Responder

  • Suzete Torres Galvão

    Que interessante a natureza. Esse trabalho é de uma importância fundamental para a valorização da biosfera, da natureza. Muito bem escrito, chega até ser cativante. Fotos muito lindas! Gratidão!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Que bom que gostou, Suzete. Agradecemos o seu interesse, atenção e cuidado. para com a natureza

      Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

  • Suzete Torres Galvão

    Que interessante a natureza. Esse trabalho é de uma importância fundamental para a valorização da biosfera, da natureza. Muito bem escrito, chega até ser cativante. Fotos muito lindas! Parabéns aos autores!!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

  • Muriel Lima

    Excelente texto!! PARABÉNS aos autores!!!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos pela atenção, Muriel! Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Rogerio Silvestre

    Bem legal! Parabéns! Muito importante essa divulgação da biodiversidade. Deixemos as florestas vivas!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      É isso aí, Rogério! Um viva (também!) aos pequenos animais . Gratos pela atenção. Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Magno Travassos

    Parabéns, belo trabalho! Li a matéria com meu filho de 10 anos e ele ficou ainda mais encantado com esses pequenos seres!

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Grato pelo retorno, Magno. Abração no seu filhote e toda família!

      Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

  • Maria de Fátima Alves Vieira

    Paulo que texto lindo! Fiquei até mais tolerante com as formigas que nos atacam e deixam a pele ardida . As fotos estão lindas ! Bjs

    Publicado em 5 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos pela atenção, Maria de Fátima! Que bom que o texto lhe mostrou um outro ponto-de-vista sobre as formigas, esses seres incríveis. Recomende a CHC para a criançada! Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Margareth Ribeiro Moysés

    É impressionante o valor dessas espécies de animais, que por ignorância, desconhecemos e desvalorizamos, na natureza.
    Muito interessante e de fácil leitura. Gostei muito. Parabéns aos autores.

    Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

  • ANGELA

    Muito bom, vou aproveitar pra instruir muito mais minhas crianças . Obrigada

    Publicado em 6 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Que bom, Angela! Agradecemos!

      Publicado em 8 de janeiro de 2021 Responder

  • Luiz Bispo

    Impressionante como temos riquezas para desbravar, parabéns pelo texto, que gostoso a sua leitura.

    Publicado em 7 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos, Luiz! Que bom que gostou!

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Silvana Martins

    Parabéns pela divulgação deste artigo muito interessante e instrutivo.

    Publicado em 9 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos, Silvana! Que bom! Continue prestigiando a CHC!

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Denise Burns

    Delícia de texto, pra crianças e adultos! Parabéns! Sempre eh tempo pra aprender! Esse tipo de leitura desperta nossa curiosidade e interesse em preservar o meio ambiente!

    Publicado em 10 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos pela atenção, Denise. Que bom que gostou! Recomende a CHC, sempre preparando com muito carinho matérias muito bacanas!

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Wilson Lords Torres

    Muito bom o trabalho de nos ensinar a valorizar os pequenos seres que produzem grandes serviços à vida no planeta. Uma dádiva de Deus, perceber no pequeno o grande valor da vida. Parabéns aos cientistas em favor da vida.

    Publicado em 10 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Que bacana, Wilson. De fato, o que seria de nós sem esses pequenos animais? Gratos pela atenção. Continue prestigiando a CHC, sempre a favor da vida. Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

  • Luana

    Muito bom o artigo Éle falar sobre coisas que é verdade é ele fala sobre coisas que ensinar muito é parabéns 😘😘

    Publicado em 12 de janeiro de 2021 Responder

    • Paulo Robson de Souza

      Gratos, Luana! Continue prestigiando a CHC! Abraços.

      Publicado em 15 de janeiro de 2021 Responder

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

Será que este ano tem a “Estrela de Belém”?

Vamos investigar se o fenômeno no céu de 2020 se parece com o da história dos Três Reis Magos.

Uma história de lavar as mãos

Inacio Felipe Semmelweis formou-se em medicina em Budapeste, sua cidade natal, a capital da Hungria. Em 1846, aos 28 anos, mudou-se para Viena, na Áustria, para exercer a sua profissão na maternidade do Hospital Geral de Viena, na Áustria. Ele era médico cirurgião e obstetra, um especialista em ajudar as mulheres a terem seus bebês. Estava muito animado com o novo trabalho, mas o clima no hospital era tenso: muitas mães estavam perdendo a vida por conta de uma febre misteriosa... Entra em cena um médico detetive!