Uma mistura de religiões

Em A serpente do além, Mestre Didi usa símbolos do candomblé, como as cores dos orixás e materiais utilizados em cultos nos terreiros.

Iansã, Oxum e Obá eram casadas com Xangô. Por ter um jeito mais masculino e guerreiro, Obá queria saber como Oxum conseguia ser tão feminina, encantando Xangô. Oxum contou-lhe um segredo: toda vez que preparava a comida do marido, ela cortava um pedaço da sua orelha (que crescia novamente) e colocava na panela. Um dia, Obá preparou a comida de Xangô e resolveu seguir a receita da amiga. Só que ela não cortou um pedaço, mas toda a orelha. Ao descobrir o que Obá fizera, Xangô brigou muito com ela. Para piorar, sua orelha não cresceu como Oxum havia dito. Obá nunca mais a perdoou por tê-la enganado; até hoje, elas raramente se encontram nos terreiros de candomblé.

Essa é apenas uma das várias histórias contadas na parte da exposição que mostra as manifestações religiosas dos negros no Brasil. De diferentes origens, os cultos existiram em quase toda a história do Brasil. Durante o período da escravidão, os donos das fazendas proibiam a realização de cultos africanos e só permitiam práticas católicas. O resultado foi uma mistura de religiões chamada sincretismo: para disfarçar, os escravos relacionavam seus orixás aos santos da Igreja Católica. Para eles, Ogum era São Jorge, Iemanjá era Nossa Senhora da Conceição, Iansã era Santa Bárbara e Oxóssi era São Sebastião.

Muitos nomes são usados para identificar o culto afro-brasileiro: umbanda, candomblé, babaçuê, tambor-de-mina, pajelança… Cada um guarda características próprias; os mais conhecidos são o candomblé, religião que conseguiu manter mais fielmente as tradições dos antepassados, e a umbanda, que sofreu forte influência da religião católica e do espiritismo.

Hoje, cultos afro-brasileiros são praticados não só por negros, mas por brancos também. Eles começaram a freqüentar os terreiros quando essas manifestações chegaram aos grandes centros urbanos. O sincretismo permanece em nossa cultura: um exemplo é a dupla comemoração, pela Igreja Católica e pelos cultos afro-brasileiros, do dia de Nossa Senhora da Conceição ou Iemanjá, na Bahia. Além disso, no último dia ano, as pessoas – nem sempre praticantes dessas religiões – levam flores para Iemanjá, a Rainha do Mar, e fazem seus pedidos para o ano novo.

A contribuição dos negros na nossa cultura não foi apenas na religião. A quituteira bahiana que vende acarajés nas ruas de Salvador mostra como a culinária do Nordeste (principalmente na Bahia) sofreu forte influência africana. O carnaval, festa popular que apresenta expressões corporais e batucadas dos negros, é um dos fenômenos mais ricos de africanização da nossa cultura. Como a capoeira: intensamente perseguido no período da escravidão, esse jogo é hoje bastante praticado pelo povo brasileiro.

Matéria publicada em 06.11.2000

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Adorei o texto!

    Publicado em 5 de fevereiro de 2019 Responder

Cristina-Souto

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