Os doces das sinhás

Beijinho de moça corriqueira, cocada gostosa, bolo da imperatriz, biscoito da casa, bolo da mãe benta, meiguice de sinhá… Quantos nomes engraçados, não é mesmo? Pois esses são alguns dos doces que costumavam ser feitos pelas sinhás e por suas escravas, nas fazendas de café do interior de São Paulo, entre os séculos 19 e 20.


Durante muito tempo, algumas dessas receitas ficaram praticamente esquecidas. Outras foram bastante modificadas, com a introdução de novos ingredientes e formas diferentes de elaboração. Até que um grupo de pesquisadores do Centro de Memória da Universidade de Campinas (CMU), que estudava a história da alimentação de São Paulo, foi convidado, em 2004, a publicar os resultados de seus trabalhos em um livro. Assim surgiu Delícias das sinhás – História e receitas culinárias da segunda metade do século XIX e início do século XX.

O livro traz mais de 80 receitas, cujos ingredientes principais são açúcar, farinhas, fubá, ovos, goiaba, laranja, amêndoas, entre outros. Elas têm origem em cadernos escritos pelas sinhás entre 1863 e as primeiras décadas de 1900.

De acordo com o historiador Fernando Abrahão, diretor da Área de Arquivos Históricos do CMU e organizador do livro, transcrever essas receitas foi uma tarefa nada fácil. Além do cuidado em manusear esse material, por serem papéis muito antigos e, portanto, bastante frágeis, uma das dificuldades encontradas foi a identificação das medidas e dos pesos, bem como das abreviaturas usadas pelas sinhás, diferentes das adotadas nos dias de hoje, como a libra, que equivale a quase meio quilo, e o quartilho, referente a cerca de 600 mililitros.

Para resolver o problema das medidas, os pesquisadores decidiram testar as receitas conforme as transcrições feitas. Nesse momento, perceberam alguns equívocos, e fizeram certas modificações até chegar ao sabor exato dos doces na época.

Também foram necessárias algumas adaptações para que as receitas pudessem ser reproduzidas em nossas casas, pois além de alguns dos ingredientes já não serem mais encontrados com facilidade, certas receitas levavam muito tempo para serem elaboradas. Para Fernando, essa etapa foi bastante interessante, pois os pesquisadores puderam provar alguns dos doces que não fazem mais parte do nosso cotidiano e recordar o sabor dos que eram feitos por suas avós. Agora imagine você a delícia que deve ter sido essa fase do trabalho!

Além de sabor, esses doces também têm sua importância para a história. Sabe por quê? “Mais do que sobremesas saborosas, esses doces têm o significado de uma doçura cotidiana, uma conotação de bem-estar presente desde o período colonial. Eles sempre deram o toque final às refeições e ainda hoje marcam o seu ‘coroamento’. As sobremesas são símbolos de preciosidade, de tradição da família e de delicadeza da mulher”, explica o historiador.

Curioso para experimentar essas gostosuras? Pois abaixo segue uma receita bem fácil de fazer, que você pode preparar na sua casa. Meninos e meninas, mãos à obra!

Melindres
(Rende 30 unidades)

Observação: Para fazer essa receita, peça a ajuda de um adulto para usar a batedeira e o forno.

Ingredientes:
10 gemas
Uma clara
250g de açúcar
250g de farinha de trigo
Uma colher (sopa) de canela em pó

Preparo:
– Unte com manteiga 30 forminhas ou duas assadeiras grandes. Mantenha-as longe das fontes de calor.
– Aqueça o forno a 180 graus.
– Bata as gemas com as claras até que a mistura fique bem fofa.

– Junte o açúcar, misture com uma colher e volte a bater, até que a mistura dobre de volume.
– Vá acrescentando a farinha aos poucos, batendo sempre até homogeneizar completamente.
– Por último, misture a canela e bata mais um pouco.
– Passe a massa para as forminhas, ponha-as em uma assadeira e asse até que fiquem coradas.
– Espere amornar, tire das fôrmas e deixe esfriar antes de guardar os doces em vasilhas com tampa.

Dica

Se você for usar assadeiras no lugar de forminhas, coloque as colheradas espaçadamente, para que os bocados de massa não grudem uns nos outros. Bom apetite!

Delícias das sinhás: História e receitas culinárias da segunda metade do século XIX e início do século XX
Autores: Fernando Antonio Abrahão (organizador), Deborah Leanza, Eliane Morelli Abrahão, Héctor Hernán Bruit e Fernando Kassab.
Editora: Arte Escrita
R$ 70

Matéria publicada em 25.05.2010

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Andressa-Spata

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