Linguagem das flores

Em cada tempo, a paquera tem uma linguagem própria – piscar os olhos, enviar um emoticon pelo celular, que outras manifestações de carinho você conhece? Pois hoje apresento uma que provavelmente é novidade para você: no século 19, meninos e meninas trocavam mensagens secretas em uma linguagem florida!

Presentear alguém com belas acácias queria dizer: “sonhei contigo!” (foto: Liz Marion / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/deed.pt>CC BY-NC 2.0</a>)

Presentear alguém com belas acácias queria dizer: “sonhei contigo!” (foto: Liz Marion / Flickr / CC BY-NC 2.0)

Naquela época, garotas raramente conseguiam conversar com rapazes sem a supervisão de adultos. Por conta disso, foi criado um curioso catálogo, que funcionava como um manual para aqueles que desejavam sucesso em suas conquistas amorosas. Algumas flores, folhas e frutos tinham significados especiais e podiam ser trocados entre os jovens, permitindo a eles demonstrar suas intenções sem precisar dizer uma palavra sequer.

Esses catálogos eram conhecidos como “Dicionários das flores” e traziam um código amoroso secreto. Em ordem alfabética, mostravam os significados da entrega de uma flor, folha ou fruto a alguém.

A primeira publicação desse tipo surgiu na França, onde fez muito sucesso e atingiu grande circulação.  A partir daí, versões em inglês, espanhol, alemão e português foram publicadas, chegando ao Brasil por volta de 1830 e facilitando a vida dos galanteadores por aqui.

Os primeiros exemplares dos dicionários de flores foram lançados na França, no início do século 19. (foto: reprodução)

Os primeiros exemplares dos dicionários de flores foram lançados na França, no início do século 19. (foto: reprodução)

Em uma edição brasileira da Livraria Garnier, de 1886, os moços – ou “fiéis súditos do cupido”, como se dizia na época – aprendiam que presentear alguém com uma flor de acácia, por exemplo, queria dizer “sonhei contigo”. Camélias, por sua vez, significavam “aceito com alegria”. E havia também códigos para mensagens menos alegres: um cravo amarelo significava “desprezo”; uma laranja significava que estava tudo acabado.

Os galanteios floridos davam certo. Apesar da constante vigília da família, ocasiões como festas públicas e missas eram grandes oportunidades para troca discreta de flores, que muitas vezes vinham acompanhadas de bilhetes românticos.

“Os dicionários das flores se disseminaram durante todo o século 19 e eram vendidos dezenas de milhares de exemplares; esse sucesso nos ajuda a entender como era a sociedade durante aquela época”, conta a antropóloga Alessandra El Far, da Universidade Federal de São Paulo.

Apesar de conseguirem namorar por curtos períodos de tempo com pessoas de sua escolha, geralmente os jovens do século 19 – principalmente de famílias mais ricas – acabavam em casamentos arranjados pelos seus pais. Contra isso, não havia código secreto que pudesse adiantar.

Com o passar do tempo, os jovens – tanto moças quanto rapazes – conquistaram maior liberdade, o que facilitou os relacionamentos. As pessoas passaram a frequentar mais os espaços públicos da cidade e, aos poucos, encontros, paqueras e namoros começaram a surgir de maneira mais espontânea. Naturalmente, o dicionário acabou caindo em desuso, mas o hábito de dar flores a um pretendente – tragam elas um código secreto ou não – continua até hoje.

Matéria publicada em 07.04.2014

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Que maneiro!Essa é uma coisa bastante engraçada!

    Publicado em 14 de julho de 2018 Responder

Gabriel Toscano

Gosto de ouvir música, ver filmes, ler livros, viajar e conhecer pessoas diferentes. Estou sempre procurando aprender coisas novas!

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