Aventura no Amapá

O Amapasaurus tetradactylus não era visto no estado há 35 anos (Enrico Bernard/CI-Brasil).

Explorar lugares desconhecidos pode render encontros inesperados, além de uma aventura e tanto. Foi o que comprovou uma equipe de biólogos e botânicos, que trabalhou em uma grande área de mata preservada, no norte do Brasil: o Corredor de Biodiversidade do Amapá, lar de variadas plantas e diversos animais.

Durante dois anos, doze pesquisadores realizaram estudos na região, na busca por novas espécies da fauna ou flora. No total, foram feitas onze excursões mata adentro, que duraram aproximadamente vinte e um dias cada. Os cientistas montaram barracas, dormiram em redes e enfrentaram perigos. Dessa estadia na floresta, trouxeram muitas informações.

Áreas de preservação ambiental visitadas pelos cientistas: Floresta Nacional (Flona) do Amapá, Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e uma região de cerrado (Luis Barbosa/CI-Brasil).

No total, mais de 1.700 espécies foram catalogadas na região, sendo que 23 ainda não foram descritas pela ciência: são peixes, sapos e plantas. Além disso, espécies que há muito tempo não eram vistas, como o lagarto Amapasaurus tetradactylus , encontrado pela última vez há 35 anos, foram achadas pelos pesquisadores, gerando imensa alegria. “Pouco se sabia até então sobre a flora e fauna do Estado do Amapá”, afirma o biólogo Enrico Bernard, da Conservação Internacional, coordenador do projeto.

Os cientistas acharam 438 espécies de aves, entre elas o araçari-negro (Luiz Antônio Coltro Jr.).

Emoção na floresta
O Corredor do Amapá engloba doze áreas de preservação ambiental, sendo que quatro foram visitadas pelos cientistas, além de uma área do cerrado. Antes da realização das excursões, alguns desses lugares, possivelmente, ainda não haviam sido visitados por ninguém da cidade. “Em uma região localizada na fronteira do Brasil com o Suriname, por exemplo, não encontramos sinais de visitação ou de exploração, como árvores cortadas, restos de cinzas ou plásticos. Além disso, a reação dos animais era a de quem nunca tinha visto um ser humano antes. Eles não ficaram ariscos e nem fugiram”, conta Enrico.

O uirapuru-estrela (acima) e o araçari-negro são aves endêmicas do norte do rio Amazonas e oeste do rio Negro (Luiz A. Coltro Jr.).

Mas não foram somente essas as emoções pelas quais passaram os pesquisadores. Eles tiveram que enfrentar rios turbulentos a bordo de pequenos barcos, ficaram cara a cara com bichos muito grandes e até presos esperando o perigo passar. “Tivemos que atravessar, por exemplo, catorze cachoeiras para chegar a um local. Já uma pesquisadora teve que passar uma noite inteira dentro de um oco de árvore por causa de uma onça”, lembra Enrico.

O sapo Atelopus spumarius foi encontrado na Reserva Iratapuru (Enrico Bernard).

O esforço, no entanto, valeu a pena. Afinal, um grande levantamento de espécies foi feito. Muitos animais e plantas que os pesquisadores nem imaginavam que existiam no Amapá foram encontrados, sendo que muitos deles são endêmicos, ou seja, só existem em determinada região do estado!

Chrotopterus auritus , uma espécie de morcego carnívora (Ana Carolina Martins).

Agora, com o fim das excursões, o objetivo é fazer um plano de manejo no local. Isso quer dizer que os pesquisadores devem produzir um manual de preservação dos lugares visitados. Assim, todos podem ficar sabendo que certos pontos da floresta amapaense devem ser protegidos, pois ali existe muita riqueza natural.

Gostou de saber dessa aventura? Então, conte o que você descobriu para os seus colegas e confira mais detalhes no site da Conservação Internacional.

O saldo da pesquisa
Nas onze expedições feitas no Corredor do Amapá, muitas espécies foram encontradas:
– 438 espécies de aves, sendo uma nova e quatro endêmicas. Cem delas registradas pela primeira vez no estado do Amapá.
– 31 espécies de camarões e caranguejos.
– 62 espécies de mamíferos terrestres e 62 espécies de morcegos, sendo que 40 foram registradas pela primeira vez na região.
– 104 espécies de anfíbios (sendo sete novas) e 124 espécies de répteis (entre elas, uma nova espécie de cobra).
– Cerca de 50 anfíbios e répteis foram encontrados pela primeira vez no Amapá: 15 espécies de serpentes, cerca de 25 anuros – rãs, sapos e pererecas –, duas espécies de cobra-cega, uma salamandra, duas espécies de quelônios (tartarugas, cágados ou jabutis) e o restante de lagartos.
– 1.400 tipos de plantas foram catalogados e estão sendo analisados. Desse total, cerca de 600 já foram identificados.

 

 

Matéria publicada em 22.07.2010

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Cathia Abreu

Adoro aprender coisas novas. Tenho a sorte de trabalhar me divertindo e fazendo descobertas todos os dias.

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