O misterioso peixe do São Francisco

O rio São Francisco, apelidado de ‘Velho Chico’, é o maior rio genuinamente brasileiro em extensão: tem 2.756 quilômetros! Ele nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e segue pela Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, onde, na divisa desses dois estados, desemboca no oceano Atlântico. Suas águas guardam lendas e espécies muito raras – uma delas é um peixe com “focinho de tamanduá”, o pirá-tamanduá! Quer conhecê-lo? Então, mergulha com a gente!

Ilustração Evandro Marenda

Vamos falar devagar: Conorhynchos conirostris! Esse é o nome científico do pirá-tamanduá, um peixe endêmico da bacia do rio São Francisco, isto é, um peixe que só vive nesse rio e nos rios que desaguam nele. Por não ser encontrado em nenhum outro lugar do mundo, o pirá-tamanduá se tornou o símbolo do rio São Francisco.

O pirá-tamanduá vive em águas profundas e com forte correnteza, onde é difícil enxergá-lo. É também um peixe que recebe muita atenção dos cientistas porque tem características bem diferentes de outros animais de seu grupo – especialmente o focinho, que lembra o do tamanduá. Há também quem ache a sua cabeça parecida com uma… corneta, apelido que pegou.

Na ponta do focinho do pirá-tamanduá está localizada a boca, que é pequena e voltada para baixo. Ao lado da boca ficam os barbilhões, algo parecido com um bigode, que ajudam o peixe a encontrar o alimento. Os barbilhões funcionam como a nossa a língua e os nossos dedos, permitindo ao pirá-tamanduá localizar, sentir o gosto e a textura dos alimentos. É com a ajuda desses “bigodes” que ele vasculha o fundo do rio para encontrar as suas refeições, compostas principalmente de pequenos invertebrados (insetos e moluscos) que ficam enterrados.

Momento curiosidade

Além de ter um focinho que lembra os tamanduás, ou as cornetas, e “bigodes” localizadores de comida, há outras curiosidades sobre o pirá-tamanduá! Sua coloração é muito bonita, num tom azul metálico nada comum em outros peixes de água doce. Ele também tem espinhos nas nadadeiras peitorais e na nadadeira dorsal. Esses espinhos são pontiagudos e, quando esticados, podem causar perfurações. Por isso são estruturas muito eficientes para afastar predadores.

E tem mais! O pirá-tamanduá simplesmente desaparece durante o período de seca, quando o rio está com a água bem clara. Esse sumiço tem intrigado os pesquisadores, que buscam descobrir para onde vai ou onde se esconde o peixe nesse período.

Os “bigodes” do pirá-tamanduá indicam onde encontrar comida.
Foto Marcelo Fulgêncio
O pirá-tamanduá não poderia ter outro nome – seu focinho parece mesmo com o do tamanduá!
Foto Fábio Arruda

Peixão ameaçado

Podendo atingir até um metro de comprimento e 13 quilos de peso, o pirá-tamanduá já foi um peixe muito importante para a pesca em toda a bacia do rio São Francisco. Porém, nas últimas décadas, ele tem sofrido bastante com os impactos à natureza – principalmente com construção de barragens, poluição, pesca excessiva e ocupação irregular das margens do rio. Por essas razões, o pirá-tamanduá atualmente só é encontrado em alguns trechos do rio São Francisco, principalmente nos Estados de Minas Gerais e Bahia, sendo considerada uma espécie ameaçada de extinção.

Estudos mostram que a construção de barragens é a principal ameaça ao pirá-tamanduá, porque essas estruturas artificiais alteram as características do ambiente e o fluxo de água. Por exemplo: um trecho de rio natural, que apresentava correnteza, após a barragem passa a ser um ambiente de água parada e muito profundo, um imenso lago. Além disso, a barragem erguida no meio do rio impede que os peixes façam a piracema, um fenômeno que é aguardado durante todo o ano.

Por dentro da piracema

Na época das chuvas, peixes migradores – como o pirá-tamanduá, o surubim, o dourado e o curimatá – sobem o rio para desovar. Os peixes se alimentam bastante e acumulam energia à espera pelo início das chuvas e a subida do nível do rio. Então, eles nadam vários quilômetros rio acima, até encontrarem áreas apropriadas para a reprodução – é a piracema!

Mas para a piracema acontecer, o rio não pode ter obstáculos. A construção de barragens bloqueia o rio e impede a passagem dos peixes para as regiões mais altas, interferindo diretamente na reprodução.

Assim como o pirá-tamanduá, outras espécies de peixe da bacia do São Francisco precisam que trechos do rio apresentem condições adequadas para se reproduzirem naturalmente e continuar ocorrendo naquela região.

Medida contra a extinção

Para evitar que o pirá-tamanduá desapareça do São Francisco, pesquisadores estimulam sua reprodução em cativeiro e soltam seus filhotes no rio para repovoá-lo. Essa é uma medida que também tem sido utilizada com outros peixes ameaçados, para impedir a extinção.

Mas não basta apenas soltar os peixinhos, é fundamental pensar na recuperação dos rios impactados. Não adianta obter sucesso na reprodução artificial do peixe se o ambiente em que eles serão soltos está degradado. O Velho Chico e seus afluentes precisam ser recuperados para que voltem a ter condições de ser o lar do pirá-tamanduá e de outros animais que dependem de suas águas.

Marcelo Fulgêncio Guedes Brito
Departamento de Biologia
Universidade Federal de Sergipe

Jean Carlos Miranda
Departamento de Ciências Exatas, Biológicas e da Terra
Universidade Federal Fluminense

Matéria publicada em 01.06.2022

COMENTÁRIOS

  • Erica Caramaschi

    Excelente artigo!! É gratificante ver oportunidades informações científicas relevantes podem ser levadas às crianças de maneira absolutamente encantadora!! Parabéns aos autores!!

    Publicado em 1 de junho de 2022 Responder

  • Maria do Carmo Chaves dos Santos de Freitas

    Parabéns pela excelente pesquisa!

    Publicado em 1 de junho de 2022 Responder

  • Bruno Melo

    Excelente conteúdo! Iniciativas como essa levam conhecimento científico de alta qualidade para o público e servem de inspiração para demais interessados em divulgação científica. Parabéns pra vocês!

    Publicado em 2 de junho de 2022 Responder

  • Alexandre Clistenes

    Excelente iniciativa, para ajudar na preservação da espécie, usando linguagem de fácil acesso para a população em geral.

    Publicado em 2 de junho de 2022 Responder

  • Ricardo Jucá Chagas

    Parabéns pela excelente matéria de divulgação. Aproximando a ciência da comunidade. O pirá-tamanduá agradece!

    Publicado em 2 de junho de 2022 Responder

  • Francisco Simões Caxito

    Muito importante esse trabalho, não só para a preservação da espécie, como também e principalmente para o povoamento piscoso do Velho Chico.

    Publicado em 2 de junho de 2022 Responder

  • Breno perillo

    Muito bacana o artigo! Gostoso de ler e com informações extremamente importantes e de fácil entendimento! Parabéns!

    Publicado em 3 de junho de 2022 Responder

  • Heriberto Gimênes Junior

    Parabéns a todos os envolvidos! Excelente iniciativa.

    Publicado em 3 de junho de 2022 Responder

  • alexia

    otima pesquisa. parabéns

    Publicado em 3 de junho de 2022 Responder

  • Lucca Barros Sugimoto Bando

    Tubarões nadadores da CHC eu acho legal vocês fazerem fazerem uma revista sobre os tubarões eu acho muito interessante sobre os dinossauros e animais aquáticos essa ea minha sugestão então tchau pessoal da CHC

    Publicado em 3 de junho de 2022 Responder

  • Bárbara

    Amei

    Publicado em 4 de junho de 2022 Responder

  • Valdir aparecido carvalho

    Parabéns pela matéria levando o conhecimento aos leitores a riqueza que é nosso amado Brasil .e todos se mobilizarem, que nós podemos contribuir com pequenas ações de educação ambiental !!!
    Forte abraço à CHC.

    Publicado em 4 de junho de 2022 Responder

  • Kauan dos santos molina

    eu adorei a noticia de vocês e acho muito interessante vocês fazerem varias revistas sobre ciências para as crianças eu acho muito legal o trabalho de vocês um abraço.

    Publicado em 6 de junho de 2022 Responder

  • kauan dos santos molina

    eu adorei a noticia de vocês e acho muito interessante vocês fazerem varias revistas sobre ciências para as crianças eu acho muito legal o trabalho de vocês um abraço de kauã dos santos molina vocês são incriveis

    Publicado em 6 de junho de 2022 Responder

  • samuel

    adorei esse comentario

    Publicado em 6 de junho de 2022 Responder

  • José Antonio dos Santos

    Muito interessante esta pesquisa sobre este peixe que só existe no Velho Chico, até para questão de estudos à respeito do mesmo e, bom também para chamar a atenção às autoridades competentes para que esta não venha ser mais uma espécie em extinção, parabéns a vcs pesquisadores, um abraço no coração.

    Publicado em 6 de junho de 2022 Responder

  • Josival O. Matos

    Já pensou se a energia solar vier um dia substituir a produzida nas usinas hidreletricas? Nesse caso poderiamos deixar de ter barragens nos rios?

    Publicado em 7 de junho de 2022 Responder

  • Régis Santos

    Parabéns aos autores por essa excelente ação de disseminação do conhecimento!

    Publicado em 8 de junho de 2022 Responder

  • Samuel

    Adorei essa notícia é nunca mais vou esquecer do peixe beijo tchau.
    ?????❤?

    Publicado em 9 de junho de 2022 Responder

  • Linda

    Lindo

    Publicado em 14 de junho de 2022 Responder

  • Heitor

    Legal??!!!

    Publicado em 14 de junho de 2022 Responder

  • Heitor

    Eu achei legal a notícia beijo tchau????

    Publicado em 14 de junho de 2022 Responder

  • ngfdgbherfdnbghr4re

    o ma gad

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Malu Rennes

    Muito legal e muito interessante saber q existem pessoas que se importam com espécies assim, que nque muita gebte sabe sobre.
    Várias informações importantíssimas e com uma clareza….achei incrível!Fiquei encantada!
    Queria ter a oportunidade de conhecer essa espécie.

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Malu Rennes

    Muito legal e muito interessante saber q existem pessoas que se importam com espécies assim, que nque muita gebte sabe sobre.
    Várias informações importantíssimas e com uma clareza….achei incrível!Fiquei encantada!
    Queria ter a oportunidade de conhecer essa espécie. Por mais artigos assim!

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Alice Lorens

    Adorei o artigo, eu não sabia da existência desse peixe (estranho, mas interessante). Achei o nome criativo e engraçado haha. Esse peixe parece até um desenho de tão diferente que é. Infelizmente, ele está em extinção, e é triste pensar em que esses animais diferentes são tão ignorados. Contudo, eu amei o artigo :)))

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Rebeka Alves

    O peixe é lindo, parece um tubarão + uma foca. Adorei a cor dele.
    Muito triste que esteja em extinção. O que se pode fazer para protege-los?Tomara que ele consigam viver e procriar sem humanos lhes atrapalhando.
    Obrigada pelo artigo!????

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Enzo Rex

    Artigo muito interessante, gostei bastante e achei mt legal essa informação. Achei diferente o aspecto azul que ele tem… nunca vi um parecido. Ele para um peixe é bem grande. A parte que fala “E tem mais! O pirá-tamanduá simplesmente desaparece durante o período de seca, quando o rio está com a água bem clara. Esse sumiço tem intrigado os pesquisadores, que buscam descobrir para onde vai ou onde se esconde o peixe nesse período.” é legal porque mostra o quão inteligente o peixe é.  Seria legal fazerem um artigo sobre o megalodon.

    Publicado em 15 de junho de 2022 Responder

  • Maria Fernanda Assakawa e Souza

    Eu não sabia que existia tanto peixé no Rio Francisco

    Publicado em 20 de junho de 2022 Responder

  • Kauan Dias dos Santos

    Achei muito interessante a história do peixe
    pira-tamandua.

    Publicado em 20 de junho de 2022 Responder

  • Heloísa

    Oi chc eu me chamo heloisa eu adorei o artigo
    Eu que não gosto de ler muita coisa li tudo
    bij chc

    Publicado em 20 de junho de 2022 Responder

  • Pietro Moreira

    Olá Ciência Hoje das Crianças, tudo bem?

    Eu gostei da reportagem muito interessante. Mas eu achei muito triste porque esse peixe é interessante mas as pessoas poluem o meio ambiente e está ficando em extinção.Beijo tchau.

    Pietro

    Publicado em 23 de junho de 2022 Responder

  • Cimara Correia Lima

    é um texto que nos oportuniza
    a realizar link com outras disciplinas…

    Publicado em 26 de junho de 2022 Responder

  • Alex

    O MISTERIOSO PEIXE DO SÃO FRANCISCO

    Publicado em 27 de junho de 2022 Responder

  • Kauan Silles Barreto

    Olá, revista CHC!

    Meu nome é Kauan, tenho 12 anos e estudo no SESI 412, em Santos.

    Gostei muito do artigo O misterioso peixe do São Francisco, publicada em 01/06/22, que fala sobre o peixe pirá-tamanduá.

    Achei interessante muita coisa nesse peixe, como por exemplo os ‘’bigodes’’ que ele tem que servem para encontrar alimento. Sua cor, azul metálico, é bem diferente dos demais animais marinhos.

    Fico triste sabendo de sua situação, pois é uma espécie que infelizmente está extinção e lutando pela sobrevivência.

    Um abraço a todos,

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eumanuel

    oloco texxtão

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • jubileu

    eita kauan

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • euromanelo

    sei la oq comentar

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eufelipe

    legal dns euromanelo

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eufelipe

    legal mas quem liga

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

    • eusouza

      oloco

      Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eusouza

    legal mas quem liga

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

    • eufelipe

      oloco

      Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eufelipe

    jubileu tá on?

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eumanuel

    kauan tbm ta on?

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

  • eufelipe

    ei vc

    Publicado em 30 de junho de 2022 Responder

admin

CONTEÚDO RELACIONADO

Bem lá no fundo do oceano

Segure o fôlego e mergulhe para descobrir o que há no mar profundo!

Monumento ao Dois de Julho

Ele fica em Salvador, na Bahia, e é um marco no processo de Independência do Brasil