Calor escaldante

Você deve saber que a ciência observa as mais diferentes coisas, e uma delas é a temperatura da Terra. Os registros são feitos desde 1880. E sabe o que se descobriu? Que 2016 foi o ano mais quente do século 21. Mas aí veio 2023 e quebrou todos os recordes: foi o ano mais quente desde o início dessa observação! Será que as temperaturas vão subir ainda mais? E aí, o que pode acontecer?

Ilustração Marco Carillo

O que existe em comum entre os anos de 2016 e 2023 além dos recordes de calor é um velho fenômeno conhecido da ciência chamado El Niño. Já ouviu falar dele? 

El Niño é um aquecimento além do normal das águas do oceano Pacífico, que ocorre de tempos em tempos, próximo à costa oeste da América do Sul, pertinho do Peru e do Equador. Quando essas águas estão mais quentes, os chamados ventos alísios, que sopram todo ano do leste para o oeste nesta região e influenciam o tempo e o clima de todo o planeta, espalham calor pela América do Sul, com destaque para o Brasil. 

A atuação do El Niño pode ser mais percebida nos meses da primavera e segue verão afora. Assim, nessas estações, observamos um aumento das chuvas no Sul do Brasil, seguido pelo aumento das temperaturas no Centro-Oeste e em parte do Sudeste. Ao mesmo tempo, há uma diminuição nas chuvas no Nordeste e em parte do Norte do país. 

Mas se El Niño é um fenômeno já conhecido que se repete, porque estamos associando a ele o calor extremo que vem sendo observado? Por uma razão muito simples e muito perigosa: as atividades humanas estão intensificando os fenômenos climáticos naturais e provocando mudanças no clima da Terra. Vamos entender melhor?

Tudo se conecta

Efeito estufa é um termo familiar para você? Pois, assim como numa estufa de plantas, em que o teto de vidro retém parte do calor do Sol para que os vegetais se desenvolvam, a atmosfera da Terra (que é a camada de gases que envolve o planeta) também retém parte do calor do Sol, possibilitando a existência da vida por aqui. O efeito estufa, portanto, é algo positivo para a Terra. Acontece que muitas atividades humanas têm lançado mais e mais gases de efeito estufa no ambiente. Isso ocorre, por exemplo, quando as indústrias e os meios de transporte soltam a fumaça resultante da queima de combustíveis derivados de petróleo, quando há incêndios florestais, desmatamento… 

Com o efeito estufa intensificado por nossas atividades, passamos a ter um fenômeno chamado aquecimento global. Sim, passamos a observar que as temperaturas médias da Terra estão se tornando mais altas, o que tem consequências sobre os ventos, as chuvas… Percebeu a relação com a intensificação do El Niño?

A queima de combustíveis derivados do petróleo contribui para o efeito estufa.
Foto Unsplash

Tempo e clima

Os dois anos mais quentes da história, 2016 e 2023, desafiam os cientistas porque sugerem que, na medida em que o El Niño se torna mais extremo, por conta das mudanças climáticas, seus efeitos no tempo e no clima também podem ser mais fortes.

Tempo e clima são conceitos diferentes, sabia? A Organização Meteorológica Mundial (OMM) define o tempo atmosférico como o estado da atmosfera num determinado momento, o que inclui temperatura, chuva, pressão atmosférica, vento e umidade. Já o clima tem relação com condições meteorológicas (quente, frio, temperado) em um determinado local (continente, país, cidade etc.) durante um longo período. A OMM define um período de 30 anos para determinar as condições médias do clima de uma região. 

Considerando as diferenças entre tempo e clima, entendemos que 2016 e 2023 foram marcados por eventos extremos de tempo atmosférico em que dias muito quentes consecutivos acabaram ajudando a fazer subir as médias de temperatura mensais, contribuindo para a quebra de recordes em alguns dos meses. 

Em 2016, houve uma grande onda de calor no Ártico. Com os episódios El Niño na região, o gelo marinho reduziu. Após intensa investigação, as pesquisas provaram que o aquecimento foi influenciado pelas mudanças climáticas. O mesmo pode-se dizer de 2023, quando ondas de calor atingiram parte significativa do território brasileiro.

O El Niño provoca aquecimento além do normal nas águas do oceano e contribui para o degelo das calotas polares
Foto Unsplash
Chuvas fortes e ondas de calor são resultados das mudanças climáticas
Foto Fernando Frazão/AgênciaBrasil

Ondas de calor

Esse termo se tornou bem popular, mas você sabe o que significa? O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) define onda de calor como o período de 2 a 3 dias consecutivos com temperaturas pelo menos cinco graus acima da média do mês, em um determinado local.  No Brasil, somente em 2023, foram registradas oito ondas de calor, sendo cinco delas a partir do mês de agosto, quando o El Niño já estava instalado. 

Observe no gráfico a quebra de recordes de temperatura por meses seguidos, consequência do fenômeno El Niño e dos impactos das emissões de gases de efeito estufa.
Fonte: INMET (2023)
Ruas arborizadas, construção de espaços públicos verdes e instalação de chafarizes, são exemplos de ações que podem amenizar o calorão
Foto Wikipédia

O aumento de episódios extremos prejudica a qualidade de vida das pessoas. Nas grandes cidades, as ondas de calor acabaram por colocar na ordem do dia a necessidade de repensar o espaço urbano para enfrentar o calorão e suas consequências. 

Ruas arborizadas, construção de espaços públicos verdes, instalação de chafarizes, melhoria nos transportes coletivos com a instalação de ar condicionado em toda a frota são exemplos de ações que precisam ser colocadas em prática com urgência.  

Indo mais longe, o mundo todo precisa de mais debates e resoluções sobre a importância do combate ao desmatamento, da manutenção das florestas, da redução de emissão de poluentes… Vamos precisar da colaboração de todos, pessoas comuns e governantes, para garantir um futuro menos trágico e mais agradável para o planeta.

Núbia Beray Armond
Departamento de Geografia
Universidade de Indiana (Estados Unidos)
Instituto de Geociências
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 31.01.2024

COMENTÁRIOS

  • NICOLE

    Nossa muito legal eu vi que estava muito calor mas não imaginei que ia quebrar os recordes de todos os anos

    OBRIGADO POR PUBLICAR ISSO

    Publicado em 5 de fevereiro de 2024 Responder

  • Maria da Graça Moraes Braga Martin

    Eu neto da Maria da Graça, achei uma matéria muito interessante, pois fala sobre o aquecimento global, o el
    niño, etc.

    Publicado em 18 de fevereiro de 2024 Responder

  • Juan Daniel da Silva Ramos

    Oi chc, adoro ler os livros de vcs. Podem publicar mais

    Publicado em 21 de fevereiro de 2024 Responder

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