A porta da traição

*Narrativa tradicional da cidade de Óbidos/Portugal

Ilustração Rogério Coelho

Há séculos, na bela cidade de Óbidos, em Portugal, no tempo em que essa pequenina vila medieval foi conquistada pelos mouros, como eram chamados os povos do Norte da África e do Oriente Médio, aconteceu algo surpreendente!  

Tudo começou quando uma jovem muito corajosa teve um sonho, que não foi um sonho qualquer. Ela teve o mesmo sonho por três noites seguidas. Foi assim: um homem, uma figura amigável, aparecia e lhe dava uma ordem. “Vá imediatamente ao rei de Portugal, Dom Afonso, e conte para ele o plano!”, ele bradava. “Mas que plano?”, pensava ela dormindo. “De reconquistar Óbidos!”, respondia o homem. E não é que os sonhos da moça aconteceram bem na hora em que o rei arquitetava a retomada da cidade, conquistada pelos mouros? 

Pois bem! O lidador, que era o chefe da guarda real, dormia no campo de batalha, onde os soldados se organizavam para invadir Óbidos, quando uma voz doce lhe acordou. Era a jovem, que fugiu da cidade, se arriscando muito, para falar com o rei. Chegar ao monarca, porém, só seria possível passando pelo lidador, que estranhou muito o fato de ela estar ali. “Você não tem medo, menina moura? Quer ser nossa prisioneira?”, ele lhe falou. Ela respondeu com a voz trêmula de medo, mas passando muita certeza: “Eu preciso falar com o rei, Dom Afonso, imediatamente”. O lidador, desconfiado, decidiu que daria uma chance à jovem corajosa. Mas quis saber do que se tratava.  Então, ela contou sobre os sonhos e disse que precisava avisar ao rei sobre a sua única chance de reconquistar a cidade.

O lidador respirou fundo, fez uma curva de desconfiança com a sobrancelha direita e deixou a menina ir: “Espero que seja algo de valor, de fato, o que você tem a dizer! Caso contrário, serás prisioneira para sempre”, disse em tom ameaçador.  

Rapidamente, a guarda imperial fez um corredor imenso e a moça foi conduzida até o rei. Diante do monarca, ela relatou seu sonho. Contou que, enquanto dormia, um homem aparecia e traçava um plano mirabolante para reconquistar Óbidos. Pelo plano, o rei teria que reunir os soldados para atacar de surpresa, pela parte da frente da cidade. Mas, o lidador tinha que liderar dez soldados que entrariam primeiro pela porta traseira, assim liberariam a porta de frente para os outros soldados. “Mas quem abriria a porta traseira para a entrada dos dez soldados?”, perguntou o rei muito curioso. A menina respondeu: “Eu, meu senhor! Fui levada para Óbidos pelos mouros ainda pequena. Não conheci meus pais, mas sinto que estou fazendo a coisa certa”, disse ela destemida! Ouvindo isso, o rei decidiu: “Vamos colocar os planos do sonho desta moça em prática”. O lidador tentou retrucar: “Mas, meu senhor…”. E o rei logo rebateu: “Sou o soberano desta nação, Óbidos é nossa. Essa menina foi enviada pelos anjos”.

E foi assim que Óbidos foi reconquistada pelos portugueses ao finalzinho daquela mesma noite, quando o Sol já ensaiava despertar. Depois disso, a menina nunca mais foi vista. Dizem que ela ainda está lá, escondida atrás da porta que ficou conhecida como “porta da traição”. Será?

*A porta da traição é uma narrativa tradicional muito conhecida na pequenina e histórica cidade de Óbidos, em Portugal. A cidade é cercada por uma muralha que um dia serviu para proteger um castelo. Portas secretas eram comuns em muralhas de castelos muito antigos. Elas eram utilizadas como rota de fuga para grandes conspirações e batalhas, como a que aconteceu na história que você acabou de ler, livremente adaptada pela CHC.

Matéria publicada em 01.12.2025

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