Um santuário para os lobos

A história desta área de preservação ecológica tem início religioso. Por volta de 1770, um homem misterioso, conhecido apenas como irmão Lourenço, construiu uma hospedaria e uma pequena igreja em um vale escondido entre as montanhas de Minas Gerais. Sua intenção era criar um lugar onde as pessoas pudessem dedicar suas vidas ao estudo da religião e à oração. O espaço ficou conhecido como Santuário do Caraça e passou a atrair não só religiosos, mas também especialistas interessados na enorme biodiversidade presente naquelas paisagens.

Construído por religiosos no século 18, o Santuário do Caraça tem grande importância histórica e virou, também, área de preservação ecológica. (foto: Vinícius São Pedro)

Construído por religiosos no século 18, o Santuário do Caraça tem grande importância histórica e virou, também, área de preservação ecológica. (foto: Vinícius São Pedro)

Anos mais tarde, o Santuário passou a ser administrado por padres que criaram ali, em 1820, um colégio só para meninos. Muitas personalidades importantes da nossa história passaram pelo Colégio do Caraça, seja como visitantes, como os imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II, ou como alunos, como os ex-presidentes Afonso Pena e Artur Bernardes.

O parque fica numa área de encontro entre a mata atlântica e o cerrado, e tem montanhas repletas de riachos e cachoeiras. (foto: Vinícius São Pedro)

O parque fica numa área de encontro entre a mata atlântica e o cerrado, e tem montanhas repletas de riachos e cachoeiras. (foto: Vinícius São Pedro)

Atualmente, o Santuário do Caraça é uma reserva particular destinada à preservação ambiental. Suas paisagens possuem uma beleza fascinante, onde se destacam montanhas de até 2.000 metros, repletas de riachos e cachoeiras. Parte do contorno de uma dessas montanhas lembra a silhueta de um enorme rosto, ou uma cara grande, de onde, acredita-se, possa ter vindo o nome “caraça”. Outra possibilidade é que “caraça” seja uma palavra do tupi-guarani para designar desfiladeiro.

Um passeio pelas trilhas da Serra do Caraça nos permite contemplar vários tipos de vegetação, entre campos e florestas. Isso porque o parque fica numa área de encontro entre a mata atlântica e o cerrado, o que também explica a enorme variedade de plantas e animais encontrados ali. Além disso, as áreas mais altas do parque são dominadas pelos chamados campos rupestres, onde ervas e arbustos dividem espaço com as enormes rochas que afloram na superfície.

Em algumas épocas do ano, os campos rupestres se assemelham a grandes jardins, cobertos de flores pequeninas das mais variadas cores. Samambaias, orquídeas e bromélias se destacam entre as mais de 1.500 espécies de plantas já registradas no Santuário do Caraça, sendo algumas delas endêmicas – isto é, exclusivas daquela região – e até ameaçadas de extinção.

A relação entre os lobos-guarás e os administradores do Santuário já dura muitos anos. Ao alimentar esses animais, os responsáveis têm o cuidado de não comprometer seus hábitos alimentares naturais – afinal, os lobos precisam continuar se alimentando também na natureza! (foto: Padre Lauro Palú)

A relação entre os lobos-guarás e os administradores do Santuário já dura muitos anos. Ao alimentar esses animais, os responsáveis têm o cuidado de não comprometer seus hábitos alimentares naturais – afinal, os lobos precisam continuar se alimentando também na natureza! (foto: Padre Lauro Palú)

Agora, presença ilustre mesmo é a do lobo-guará. Geralmente tão tímido e arisco, o animal possui uma relação especial com os funcionários do Santuário. Quase todas as noites, um ou dois lobos, e às vezes seus filhotes, podem ser vistos se alimentando de petiscos oferecidos pelos padres na porta da igreja – uma relação de confiança mútua entre homem e animal que já dura muitos anos e proporciona aos visitantes oportunidades raras de observar esta espécie brasileira!

Matéria publicada em 28.08.2015

COMENTÁRIOS

  • Anna Elise

    Que bom que os animais e as pessoas estão em harmonia!

    Publicado em 5 de maio de 2019 Responder

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Vinícius São Pedro

Sou biólogo e, desde pequeno, apaixonado pela natureza. Um dos meus passatempos favoritos é observar animais, plantas e paisagens naturais.

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