Papinha? Que nada!

Um filhote da cobra-cega brasileira Siphonops annulatus. Ele alimenta-se da pele da própria mãe ao nascer (foto cedida por Carlos Jared).

O que é, o que é: vem da fêmea, é nutritivo e alimenta os filhotes. Leite? Que nada: pele de mãe. Esse parece ser o alimento que uma grande parte das espécies de cobras-cegas (também conhecidas como cecílias) consome ao nascer. Uma delas, aliás, é brasileira, como descobriram cientistas do nosso país. Trata-se da Siphonops annulatus. Como a africana Boulengerula taitanus, essa espécie – que parece uma grande minhoca – é um anfíbio e vive no subsolo. Saber por que esses bichos, que estão em continentes diferentes, têm a mesma forma de alimentar seus filhotes é o desafio dos cientistas. Então, vamos ver como eles fizeram essa descoberta e que informações têm a nos dar?

 Diferença marcante

Ovos da cobra-cega brasileira Siphonops annulatus (foto cedida por Carlos Jared).

Existem espécies de cobra-cega que são ovíparas – isto é, que põem ovos – e espécies de cobra-cega que são víviparas – ou seja, que não põem ovos e têm filhotes que já nascem com a forma dos adultos. O curioso hábito de os filhotes comerem a pele da própria mãe parece ser a principal diferença entre as espécies ovíparas e as vivíparas.

Para você ter uma idéia, tanto a cobra-cega brasileira Siphonops annulatus quanto a cobra-cega africana Boulengerula taitanus são ovíparas e, como vimos, apresentam o hábito de comer a pele de sua mães quando são filhotes.

Pista que levou à descoberta

A cobra-cega brasileira Siphonops annulatus antes de ter filhotes (à esquerda) e depois (à direita). Repare a diferença na cor de sua pele (fotos cedidas por Carlos Jared).

A mudança da cor da pele das espécies ovíparas – observada inicialmente na espécie brasileira, na época em que a mãe cuidava dos filhotes recém-nascidos – foi a primeira característica que chamou a atenção dos cientistas. “Inicialmente, descobrimos que ela passava da cor azul-chumbo escura que tem normalmente para um tom pálido e bem mais claro”, conta o biólogo Carlos Jared, do Instituto Butantan, que descobriu os hábitos curiosos da S. annulatus.

A cobra-cega brasileira Siphonops annulatus antes de ter filhotes (à esquerda) e depois (à direita). Repare a diferença na cor de sua pele (fotos cedidas por Carlos Jared).

Ao compará-la com a espécie africana, que apresentava essas mesmas características, o pesquisador, com a ajuda de cientistas estrangeiros, descobriu que essa coloração mais pálida era, na verdade, modificações sofridas pela pele dessas duas cobras-cegas, que passava a ser o alimento dos filhotes.

Mas por que comer justamente a pele?!

A secreção produzida pelas cobras-cegas é amarronzada. Veja um filhote de Siphonops annulatus alimentando-se dela (foto cedida por Carlos Jared).

“A camada mais superficial da pele da mamãe cobra-cega contém gorduras e proteínas, substâncias muito nutritivas para os seus filhotes. Além dessa camada nutritiva, os recém-nascidos também sugam uma secreção viscosa, possivelmente rica em açúcar, que a fêmea produz e libera pela sua abertura cloacal, uma região do seu corpo, próximo à cauda, que corresponderia ao ânus do ser humano”, explica Carlos Jared.

Por conta disso, é muito comum os filhotes se posicionarem em volta da cauda da mãe, que fica levantada em relação ao seu corpo, sugando avidamente essa secreção.

Para um alimento especial, dentes também especiais!

Veja como são os dentes da Siphonops annulatus (imagem: Alex Kupfer).

Para arrancar a pele da mãe, os filhotes de S. annulatus contam também com dentes especiais, que têm a forma semelhante a pequenas colheres. Porém, não pense que a fêmea fica sem a camada da pele para sempre. À medida que os filhotes vão se alimentando, essa pele vai se renovando, mais ou menos a cada três dias. Depois de um mês e meio, quando termina a nutrição da ninhada, a pele se regenera totalmente, voltando à cor cinza escuro.

Matéria publicada em 17.10.2008

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Mara Figueira

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