1001 utilidades

Você já usou uma meia como bola? Uma caixa de papelão como casa de bonecas? E um pote de sorvete como porta-trecos? Apesar de esses objetos terem sido projetados para desempenharem outras funções, quebram um galho na falta de uma bola, de uma casinha de brinquedo ou de uma caixa de madeira, por exemplo.

Algo parecido com isso acontece na natureza: estruturas presentes em um organismo, que, ao longo da evolução, foram selecionadas por desempenhar muito bem determinada função, se mostram muito úteis em desempenhar uma nova função para a qual não haviam sido selecionadas anteriormente. Um bom exemplo disso são as penas das aves.

Dinossauros como o velociraptor possuíam penas revestindo o corpo, mas não voavam. (ilustração: Matt Martyniuk / Wikimedia Commons / <a href=http://creativecommons.org/licenses/by/2.5>CC BY 2.5</a>)

Dinossauros como o velociraptor possuíam penas revestindo o corpo, mas não voavam. (ilustração: Matt Martyniuk / Wikimedia Commons / CC BY 2.5)

Hoje, as penas são fundamentais para o voo. São estruturas leves, aerodinâmicas e altamente resistentes. Mas você sabia que, nos animais que existiram no passado, as penas não eram usadas para voar?

Penas de milhões de anos

Durante muito tempo, os cientistas se questionaram sobre como teria ocorrido a evolução das penas nas aves. Graças ao estudo de muitos fósseis, eles conseguiram esclarecer essa questão.

Um passo importante para isso foi descobrir que vários dinossauros tinham penas – e a maioria não voava. Isso sugere que as penas foram selecionadas porque tinham uma outra utilidade: controlar a temperatura do corpo desses dinossauros, o que era fundamental para que os animais exercessem suas atividades diárias.

Mas o interessante é que, apesar de as penas terem sido selecionadas por desempenhar a função de controle de temperatura, quando alguns desses dinossauros se aventuraram a pular entre os galhos das árvores, essas penas também os ajudaram a planar melhor. Foi então que elas começaram a desempenhar uma nova função, o voo.

As longas penas do <i>Microraptor gui</i> já o ajudavam a planar pela floresta densa onde morava. (ilustração: David Krentz)

As longas penas do Microraptor gui já o ajudavam a planar pela floresta densa onde morava. (ilustração: David Krentz)

Não é difícil imaginar que os animais que naturalmente apresentavam penas um pouco mais longas nos braços tinham mais chances de escapar de predadores ou caçar melhor suas presas. Desse modo, as penas mais eficientes para o voo foram selecionadas ao longo de diversas gerações, e alguns grupos de dinossauros passaram a voar de forma mais eficiente. Esses grupos conseguiram escapar da grande extinção do período Cretáceo, há 65 milhões de anos, e continuam vivos até hoje.

Mudança de função

Os descendentes dos dinossauros com penas formam hoje o grupo que chamamos de aves. A permanência das penas é um bom exemplo de como estruturas que desempenham originalmente uma função podem ter outras utilidades para os seres vivos.

Quando uma estrutura surge por pressões seletivas para desempenhar uma dada função (como, no caso das penas, controlar a temperatura do corpo) e depois passa a desempenhar uma nova função (neste caso, o voo), dizemos que ela evoluiu por exaptação. Nas aves atuais, as penas ajudam tanto a controlar a temperatura do corpo quanto a voar.

Você consegue pensar em outro exemplo?

Matéria publicada em 21.03.2016

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Ubirajara Oliveira

Sou biólogo e desde criança sabia que queria ser cientista. Agora que sou, uso a ciência para buscar respostas para minhas perguntas sobre a natureza.

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