Tamanho não é documento

Lembro do futebol improvisado no chão de terra, onde cada jogador tinha seu apelido. Leite Azedo, passa essa bola! Vai Sabonete, vai Sabonete, vai! Porém, nem todos levavam isso numa boa. Um deles era o Nanica, também conhecido como Banana Nanica. Baixinho, cabelos amarelados e cheio de sardas, odiava seu apelido.

Banana Nanica era nosso goleiro preferido. Ágil, pegava todas as bolas e ainda conseguia fazer gol no adversário (Foto: tom_focus / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Obviamente, quanto mais demonstrava isso, mais era provocado por todos. Em dia de jogo então, nem se fala. Nanica era o goleiro do Brejão Futebol Clube, e bastava entrar em campo para a torcida do time adversário começar a cantar seu apelido. Pior ainda quando distribuíam bananas a todos no final do jogo. Pobre Banana. Nem sabíamos seu nome verdadeiro!

Por outro lado, tamanho não é documento, e Nanica era o melhor goleiro e jogador de todo o time. Nenhuma bola passava por ele. Por vezes, ainda se dava ao luxo de ziguezaguear entre os outros jogadores, chutar e golear o adversário.

Este nanofóssil tem cerca de 60 milhões de anos e mede apenas oito micrômetros (Foto: Timothy Bralower / Penn State)

Também entre os fósseis, tamanho não é atestado de poder, capacidade ou mesmo persistência para sempre. Que o digam os dinossauros. Grandes, fortes e poderosos, já estão extintos há pelo menos 65 milhões de anos. É neles que pensamos primeiro ao falar sobre animais extintos que viveram no passado da Terra.

Mas há outros bichos que, ao contrário dos dinossauros, foram minúsculos, muito menores que um milímetro, e que são extremamente importantes para a paleontologia. Esses fósseis minúsculos só podem ser observados por microscópios com lentes de grande aumento, ou mesmo microscópios eletrônicos, e, por isso, são chamados de nanofósseis.

Trata-se de organismos fósseis, ou partes deles, medidos pelo tamanho do micrômetro, ou seja, a milésima parte do milímetro. Os nanofósseis têm quase sempre tamanho inferior a 50 micrômetros, e, por conseguinte, são menores que 0,05 milímetros. Realmente minúsculos!

Cocolitoforídeo: este é o complicado nome da alga microscópica que aparece na foto. Ela tem apenas uma célula, protegida por várias placas de calcário, e também é conhecida como nanoplâncton calcáreo (Foto: Wikimedia Commons)

Os nanofósseis são geralmente fósseis de algas microscópicas que flutuam na superfície da água, também conhecidas como fitoplâncton. As formas dos nanofósseis são variadas e cada uma mais impressionante que a outra. São abundantes e característicos de antigos ambientes marinhos. Têm grande importância na prospecção de petróleo, pois sua identificação possibilita o entendimento da origem das rochas em que se encontram, e também a determinação da idade destas.

Ontem, no horário do almoço, reencontrei após muitos anos o Banana. Continuava com o cabelo amarelado e as sardas, mas sua altura quase chegava aos dois metros. Conversamos por um longo tempo e soube que agora ele era cientista e trabalhava com o estudo de aparelhos eletrônicos, que, como os nanofósseis, são microscópicos e utilizam a nanotecnologia.

A história me fez lembrar que não é o tamanho das coisas que definem a importância que  elas têm. Os nanofósseis estão aí para provar: tamanho não é documento!

Matéria publicada em 13.07.2012

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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