Peças que se encaixam

Na minha infância, mais irritante do que um dia chuvoso e frio, só ter que participar de campeonato para montar quebra-cabeças. Bem, talvez não. Tinha algo pior, sim: um dia chuvoso e frio, com campeonato de quebra-cabeças!

Montar os fósseis é como solucionar o encaixe das peças de um quebra-cabeças. Demanda tempo, paciência e até mesmo um pouco de sorte para que não falte nenhum pedaço. (foto: Jolene Faber / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by/2.0>CC BY 2.0</a>)

Montar os fósseis é como solucionar o encaixe das peças de um quebra-cabeças. Demanda tempo, paciência e até mesmo um pouco de sorte para que não falte nenhum pedaço. (foto: Jolene Faber / Flickr / CC BY 2.0)

Por mais que eu tentasse, nunca conseguia ganhar. Faltava sempre um pedaço da tromba do elefante, um tronco de árvore que não se encaixava em lugar nenhum, ou então pedaços de continentes perdidos no meio do mar.

Meu primo Nilsinho, por sua vez, não perdia uma competição. Podia ser um quebra-cabeças com duas mil peças: montava rapidinho. Quando eram imagens de bichos, então, completava tudo e sempre terminava muito antes dos outros participantes. “Ganhei!”, gritava, com sua voz de papagaio resfriado. Em seguida, levantava e fazia algo parecido com uma dança tribal ao redor dos demais jogadores. Que mistério estava por trás de tamanha agilidade?

Afinal, onde está o osso que deveria estar aqui? Se descobrir os fósseis já é difícil, encontrar todos os ossos de um animal é quase impossível! (foto: Ismar Carvalho)

Afinal, onde está o osso que deveria estar aqui? Se descobrir os fósseis já é difícil, encontrar todos os ossos de um animal é quase impossível! (foto: Ismar Carvalho)

Lembro-me sempre disso quando procuro por fósseis. Encontrá-los não é muito fácil, mas, depois de escavá-los, vem a parte mais difícil.

Após a morte de um animal ou planta, quase sempre os restos são levados – pela chuva, por exemplo – para outro lugar, onde serão soterrados e finalmente se preservarão nas rochas. O local de vida e de morte dificilmente será onde o teremos sepultado. Haja esforço para descobrir onde os bichos e plantas viveram antes de se tornarem fósseis!

Além disso, os organismos frequentemente se fragmentam antes da fossilização. Assim, como num grande e tortuoso quebra-cabeças, temos várias partes soltas e desarticuladas, que, em alguns casos, são inclusive de organismos diferentes.

Não é incomum que, nos vertebrados, parte dos ossos se percam – em especial os menores e mais frágeis. Assim, temos um quebra-cabeças em que faltam peças e cuja montagem pode ser bastante demorada e até mesmo impossível.

Este é <i>Uberabatitan ribeiroi</i>, um dinossauro que viveu no interior de Minas Gerais. Foram necessários muitos anos e um enorme esforço em sua escavação para que os ossos fossem escavados e montados. (foto: Ismar Carvalho)

Este é Uberabatitan ribeiroi, um dinossauro que viveu no interior de Minas Gerais. Foram necessários muitos anos e um enorme esforço em sua escavação para que os ossos fossem escavados e montados. (foto: Ismar Carvalho)

Para solucionar este problema, quase sempre se faz necessário que novos fósseis de uma mesma espécie venham a ser descobertos, possibilitando, assim, que os pedaços que faltam em um se complementem com os existentes em outro exemplar.

É quase como um campeonato: descobrir e montar as peças que faltam no menor tempo possível. Uma tarefa de difícil solução, que pode exigir muitos anos de trabalho, sem que se chegue ao final com um resultado positivo.

Já no caso do primo Nilsinho, consegui descobrir o porquê de tanta agilidade. Quando faltava um pedaço da orelha de um leão, ele – sem a menor parcimônia – encaixava a tromba do elefante, o rabo de jaguatirica, ou a pata da capivara.  Então, se nossa brincadeira tivesse um juiz para avaliar a obra completa, veria que a montagem do leão tinha pedaços de muitos e muitos bichos diferentes.

Junte a duas histórias. Quando você olhar para um dinossauro todo montado, sem faltar um único ossinho, desconfie. Pode ser que ele tenha sido formado tal qual o quebra-cabeças de meu primo!

Matéria publicada em 23.03.2016

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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