O pato sem cabeça, o limoeiro amarelo e os fósseis quebrados

No fundo do meu quintal havia um limoeiro que florescia e frutificava durante todo o ano. Os limões eram suculentos, amarelados e exalavam um frescor tal qual bala de hortelã. Além de deliciosas limonadas, com eles limpávamos o fogão e até mesmo fazíamos xarope contra resfriados.

Porém, o limoeiro amarelo era imbatível para temperar os alimentos: abobrinhas, feijão verde, mandioca, tomate, agrião, jiló e até chuchu ficavam irresistíveis com apenas algumas gotas de seu caldo suave e perfumado. Já a carne, quando preparada com ele, ficava macia e saborosa. Até mesmo a dura carne dos patos ganhava uma maciez suculenta e com um gostinho de quero mais!

Nossa história começa com uma lembrança cheirosa: o limoeiro do meu quintal (Foto: mioi / Flickr)

Era sábado. Havíamos colhido alguns limões e lá estava o pato aguardando. Quá, quá, quá… Zápite em sua cabeça: jazia estatelado na pia da cozinha. Porém, o pato não ficou muito satisfeito. E, mesmo tendo perdido a cabeça com um corte certeiro, depois de alguns segundos de total imobilidade, começou a se sacolejar, pular, e, como pião, rodopiava pela cozinha. Todo mundo tomou um susto!

Isso me faz lembrar a maneira como encontramos os fósseis. Quase nunca estão inteiros – por vezes falta uma cabeça, às vezes uma perna, um pedaço de sua carapaça, ou então só restam vestígios muito tênues do que outrora foi um animal ou uma planta. Isso ocorre porque, a partir do momento em que os organismos morrem, eles passam por várias mudanças, desde o apodrecimento até a desarticulação das partes que antes eram unidas por tecidos, músculos e articulações. Como se não bastasse o apodrecimento, antes de serem soterrados, ainda são atacados pelos fungos, bactérias e pelos animais que gostam de comer o que está em decomposição.

Fósseis bem preservados de organismos inteiros são uma raridade (Foto: Petter Bøckman)

Na paleontologia, chamamos de tafonomia o estudo de como as plantas e animais são desagregados, soterrados e transformados em fósseis. Com esses estudos, podemos compreender o motivo pelos quais é tão difícil encontrar um fóssil totalmente articulado e que represente o antigo ser vivo por completo. Encontrar um fóssil inteirinho é um precioso achado, que sempre nos leva a um mundo antigo, habitado por plantas e animais que muitas vezes não têm nenhuma semelhança com os existentes atualmente.

O mais comum é encontrar pedaços de animais e plantas pré-históricos

Não sei até hoje o que fez aquele pato, já sem cabeça, pular de cima da pia, e correr desvairado pela cozinha. Porém, encontrar um fóssil completo, com todos os detalhes de quem já teve cabeça, corpo e membros, tem o mesmo sabor dos limões do limoeiro amarelo: deixam sempre aquele gostinho de quero mais!

Matéria publicada em 14.10.2011

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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