Estou morto ou vivo?


Na rua principal de meu bairro, num tempo tão distante quanto o dos dinossauros, havia um cinema. Recordo-me dele como sendo grande, com dois andares e capaz de receber centenas de pessoas. Sua tela era enorme, e, além dos habitantes imaginários projetados em sua superfície, ao fundo, uma família de morcegos compartilhava as sessões diárias.

O cinema era, naquele tempo, nossa diversão favorita. Os heróis, monstros, marcianos, mocinhas indefesas, índios canibais e paraísos distantes só ali poderiam existir. Minha avó Chiquinha era frequentadora assídua, com sua cadeira portátil, pois as mulheres que levassem uma cadeira de casa não pagavam. Assim, diariamente, lotávamos o cinema, em sessões que aconteciam três vezes por dia: a primeira com nossos heróis – Tarzan, Zorro e Flash Gordon; depois, as com filmes sérios – nesta hora, quem tivesse menos de 10 anos deveria sair da sala de projeção; e, finalmente, a sessão da meia-noite – somente permitida para os bem mais velhos e sobre a qual muito se falava e nada se sabia. Para assisti-la somente acompanhado de um parente.

E chegou meu grande dia para a sessão da meia-noite. Junto com minha tia, eu e meus primos estreávamos naquele horário. Entramos no cinema sem nem saber o que assistiríamos. Encolhido na cadeira de madeira, percebi que o filme nos traria mais emoções que o desejado. A expectativa era de ver várias mulheres de biquíni e o que apareceu na tela foi uma mão com unhas enormes, um sujeito careca, cara branca e vestido de preto. NOSFERATU! NOSFERATU! – o vampiro!! E eu pensava: “O que estou fazendo aqui???????”

Limulus é um artrópode considerado como fóssil-vivo, muito semelhante a espécies existentes há 240 milhões de anos.

De tudo acontecia e Nosferatu não morria. Dizem que até hoje anda vivo por aí… Ou, em se tratando de um vampiro, deveríamos dizer anda morto por aí?! Que grande dilema! Este também é o das plantas e animais que são conhecidos como fósseis-vivos. Na natureza, todas as espécies e famílias têm seu tempo de existência. Um indivíduo pode viver por poucos dias, como é o caso de alguns insetos ou centenas de anos, como algumas árvores. Já as famílias às quais pertencem, podem, por meio da reprodução, existir por milhares ou milhões de anos. Porém, ao final deste tempo, suas espécies, só têm geralmente duas possibilidades: se transformam e se modificam em outra espécie ou, então, ficam cada vez mais raras e assim são extintas.

Há, porém, uma terceira situação em que os indivíduos não sofrem grandes modificações e a forma dos membros de sua família permanece a mesma após milhões e milhões de anos. Por vezes, acredita-se que são plantas e animais totalmente extintos e há muito desaparecidos da Terra. E qual não é nossa surpresa ao serem novamente encontrados vivendo em algum lugar longínquo da Terra! Estes são os fósseis-vivos.

Lingula é um braquiópode encontrado como fóssil nos mares do Devoniano brasileiro - há 350 milhões de anos - e ainda vivente nos mares atuais. (Changhua Coast Conservation Action)

Há, porém, uma terceira situação em que os indivíduos não sofrem grandes modificações e a forma dos membros de sua família permanece a mesma após milhões e milhões de anos. Por vezes, acredita-se que são plantas e animais totalmente extintos e há muito desaparecidos da Terra. E qual não é nossa surpresa ao serem novamente encontrados vivendo em algum lugar longínquo da Terra! Estes são os fósseis-vivos.

Samambaiaçu é uma samambaia gigante ainda existente nas florestas úmidas do Brasil. Foi bastante comum há 250 milhões, sendo encontrada como fóssil no interior do Piauí. (Mauro Guanandi)
Por que tal persistência sem modificações na natureza? Não se sabe ao certo, mas acredita-se que ganhem a batalha do tempo por serem facilmente adaptados a condições ambientais muito diversas. Seriam como verdadeiros Nosferatus que se recusam a desaparecer.

Samambaiaçu é uma samambaia gigante ainda existente nas florestas úmidas do Brasil. Foi bastante comum há 250 milhões, sendo encontrada como fóssil no interior do Piauí. (Mauro Guanandi)

E o que aconteceu naquele fatídico final de semana de 1971 em que assistíamos a Nosferatu – o morto-vivo? Foi um momento em que o futuro antecipou-se em nosso cinema e tivemos uma experiência em cinema 4D. Numa das cenas em que o vampiro avança sobre a mocinha, gritamos tanto, que a família de morcegos que vivia atrás da tela acordou e se espalhou por todo a sala. Só sei que não sobrou ninguém lá dentro. Nosferatu pode até já estar morto, mas aqueles morcegões estavam bem vivos!

Ismar de Souza Carvalho
Departamento de Geologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Matéria publicada em 13.05.2011

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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