– Mamãe, acho que você não entendeu: eu estou estudando o rio Amazonas! Estas fotos que você está me mostrando não têm nada a ver com isso.
Sentada no chão, eu separava algumas fotos de minha viagem à Amazônia paraense para mostrar às crianças na visita que faria à turma da minha filha. Para ela, aquelas imagens cheias de gente não tinham nenhuma relação com o que ela estava aprendendo na escola. Ela queria saber dos botos, da floresta, do rio, e olhava com decepção para as minhas fotos, que mostravam pequenas cidades, lojas de tabaco, minas abandonadas.
Essa minha viagem já faz um tempinho. Éramos três amigas adolescentes, de camiseta e tênis, levando alguns livros, máquinas fotográficas daquelas de filme e muita curiosidade nas mochilas. Passamos por Carajás, Paraopebas e chegamos até a Belém do Pará, onde fui conhecer a casa onde morou a minha bisavó.
– Mas, afinal, como vocês chegaram lá? – Carolina tentava achar alguma coisa de interessante na minha viagem.
– De ônibus, ué.
– Ônibus??
Finalmente seus olhos se arregalaram. Pois é, pessoal, nós fomos à Amazônia de ônibus. Do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, de lá a Carajás, de Carajás a Belém. Depois, na volta, tudo quase igual.
— Como alguém pode ficar tanto tempo em um ônibus? – ela se espantou, e olha que nem falei da minha viagem à Patagônia.
Percorri essa distância toda em pouco mais de um mês. Hoje achamos que isso é muito, mas um viajante como Alexandre Rodrigues Ferreira, que conheceu a Amazônia há 250 anos, acharia moleza! Afinal, ele levou nada menos do que dez anos em sua viagem.
Se é verdade que dizem que a gente só conhece verdadeiramente um lugar quando penetra em seu interior, ninguém melhor do que ele conheceu profundamente a Amazônia daquela época – acompanhado de dois desenhistas e um botânico, percorreu mais de 39 mil quilômetros, navegando em rios como o Negro, o Madeira e o Guaporé. Tudo de barco!
Quando saiu de Portugal, Alexandre Rodrigues Ferreira tinha a grande missão de registrar o que encontrava pela frente: as pessoas, as plantas, os animais. E não decepcionou. Ao retornar a Lisboa, suas descrições foram tão importantes que ajudaram cientistas de todo o mundo a entenderem a importância e a riqueza da maior floresta do mundo. Até hoje, o relato de sua expedição é usado por estudiosos da região.
Depois de contar essa história à minha filha, notei que ela estava com cara de espanto.
– Ele fez isso tudo viajando só de barco! E você, de ônibus, não escreveu nada?
Da próxima vez, vou a pé.
(Para Carolina e todas as crianças curiosas da F3T da Sá Pereira)