A lima-da-pérsia e o gosto dos minerais

Minha preferência pelas frutas, quaisquer que sejam, começou há muitos e muitos anos, no quintal de minha avó Chiquinha. Caminhar pela terra batida, geralmente recoberta por folhas, era uma experiência inesquecível para os sentidos. Os cheiros, as cores e as texturas ultrapassavam os limites do muro que cercava o lugar.

No quintal de vó Chiquinha, caminhar pela terra batida, os cheiros, as cores e as texturas das árvores ultrapassavam os limites do muro que o limitava. (foto: Jules Joseph / Flickr / <a href=https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/>CC BY-NC-ND 2.0</a>)

No quintal de vó Chiquinha, caminhar pela terra batida, os cheiros, as cores e as texturas das árvores ultrapassavam os limites do muro que o limitava. (foto: Jules Joseph / Flickr / CC BY-NC-ND 2.0)

Por um capricho de minha avó, o quintal somente possuía frutas cítricas, tais como a tangerina, o limão, o tamarindo e a acerola. Porém, eram as variedades de laranja que dominavam em seu pomar: laranja-da-terra, laranja-lima, laranja-bahia, laranja-seleta, laranja-pêra e a pequenina laranja japonesa, da qual até a casca era comida. E lá também havia a que mais sucesso fazia: uma frondosa lima-da-pérsia, a imperatriz das laranjas.

A primeira coisa a nos chamar a atenção era sua cor. Nem muito verde, nem amarela, mas com um brilho semelhante ao de um besouro. Já o perfume exalado pela lima-da-pérsia era estonteante. E o gosto? Azedo, doce e amargo, tudo em uma só fruta e de uma única vez. Entretanto, o mais inesperado era quando a salpicávamos com sal e sentíamos a explosão dos sabores em nossas papilas gustativas!

Seria o sal ou a própria laranja a nos revelar outro de seus mistérios?

Laranjas, laranjas e mais laranjas – todas se curvam frente à lima-da-pérsia, a imperatriz das laranjas! (foto: Fernando Stankuns / Flickr / <a href= https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/> CC BY-NC-SA 2.0</a>)

Laranjas, laranjas e mais laranjas – todas se curvam frente à lima-da-pérsia, a imperatriz das laranjas! (foto: Fernando Stankuns / Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Não há dúvidas de que o sal é sempre importante para nós. Nada pior do que uma comida com muito sal – ou, então, sem sal algum. Entretanto, existem muitos tipos sais que podem fazer com que uma simples pedrinha seja tão amarga como o maior dos desgostos.

Os sais são minerais, a maioria formada em ambientes áridos onde já existiram lagos ou mares, mas que, agora, recebem pouca água dos rios. O contínuo evaporar destas águas resulta nos evaporitos – rochas que se originam da precipitação dos elementos químicos enquanto a água foge em direção às distantes nuvens.

Alguns dos maiores depósitos deste tipo de rocha sedimentar formaram-se no período inicial de separação da América do Sul e da África há mais de 150 milhões de anos. Em grandes lagos, num clima muito quente e seco, com chuvas eventuais, desaguavam poucos rios. Assim, ocorria a deposição de centenas de metros de camadas de sal, que progressivamente tornavam esses lagos cada vez mais salgados, com águas parecidas com as de um mar.

Este é um cristal do sal halita, o mesmo que utilizamos em nossas cozinhas para dar um bom sabor aos alimentos. (foto: Joanbanjo / Wikimedia Commons / <a href= http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.en>CC BY-AS 3.0</a>)

Este é um cristal do sal halita, o mesmo que utilizamos em nossas cozinhas para dar um bom sabor aos alimentos. (foto: Joanbanjo / Wikimedia Commons / CC BY-AS 3.0)

Em ambientes como esse, muitos e muitos sais podem se originar. O mais conhecido é a halita, o mesmo sal que utilizamos em nossas cozinhas. Porém, há outros, cada qual com uma composição química diferente, como a gipsita, dolomita, taquidrita, silvita e a carnalita. Estas duas últimas têm uma cor avermelhada e um gosto terrivelmente amargo. Nem um pouco apropriados para o tempero de uma salada.

Mas não é só na cozinha que os sais são importantes. Eles podem também ser utilizados como fertilizantes, na fabricação do cimento e cerâmicas, e até mesmo em medicamentos.

Por isso, as pedras, nem que sejam as de sal, têm gostos variados: muito ou pouco salgadas, amargas ou não, e, por vezes, levemente adocicadas. Todavia, sempre tão inusitados como as da lima-da-pérsia do quintal de minha avó, cujos mistérios se escondiam em suas cores e sabores.

Matéria publicada em 08.08.2014

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Ismar de Souza Carvalho de Souza Carvalho

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